Processo de Criação 

 



ZEH GUSTAVO
foto: divulgação

 


"Separação" e "Senhorita Dona-de-Si" 
poemas

"Separação" e "Senhorita Dona-de-Si"
comentário do autor

     

SEPARAÇÃO

As palavras foram ásperas de sempre: naturezas.
Às vezes facas.
Eu restei o próprio corte.
 

 


SENHORITA DONA-DE-SI

Tem uma pessoa dentro de mim
que habita distante.
Já foi um dia meu espelho.
Já foi um dia meu caminho.
Caminha hoje embalada por aí.
Virou fantasma. Tornou lembrança.
Que entretanto não me sai.




 

 

 

 

O começamento das coisas não é inevitável. A finaleza, sim. A finaleza é um processo que pode não acontecer. Mas acontece. Eu tava novo de maduro ainda e ajuntei os trapos com a Bia. Bom deixar claro que não tem arrependice nenhuma disso, nem minha nem dela. Então, ajuntemo os trapos, eu nos 20 anos, ela nos 23. Casamo junto, sem papel, nem aliança, só na amoração. O que mais gostava na Bia era quando ela fazia cara-de-Bia, que era o seu jeito de menina com desregra na alma, moça peralta-inocente do mundo, e boba disso, surpreendida. Ela tinha também uma inteligentice musical que satisfazia meu ego de compositor principiante, arranhando os primeiros sons. Aliás, ela gravou num estúdio-muquifo o meu primeiro samba-canção, que compus com meu parceiro Baiaco. Coisa de 1999, por lá.
Pois que veio. A rotina. Na cidade bonita e melancólica de Macaé. A rotina e o petróleo. A rotina em casa pequena. As coisas não tardaram a se desresolver. Separemo, o que durou dois ou três poemas. Foi bom não. Certa feita gastei inté a sola da cabeça esmurrando um poste, pra-ver. Melhoreou nem um tanto. Mas seguimo.
Ah, meu processo de criação. Meu processo de criação é só. Assim. De uma subjetividade patológica, fácil notar, produto de um eu que permanece se inadaptando. E sangrando. E varrendo espalhando o sangue pelo próprio chão, de brincadeira.

     
     
 

"A vida é um buraco"
poema

"A vida é um buraco"
comentário do autor

     

Desde que me entendo de gente
fui descendo.
Sofro encantamentos pelo vazio.
Desarranjos me aplaudem.
Os aplausos me apreendem.
*
Detesto cantar parabéns.
Quem me parabeniza chateia.
Quem é parabenizado chateia.
Um constrangimento só!
*
Alegrias me conturbam.
Arroubos me prejudicam.
Felicitações me degeneram.
*
Tenho gosto para algumas vertigens.
Adoro saliências, pirilampos, piadas.
Fui adotado por risos fechados.
*
Palavras me atraem.
Aquém é uma palavra bonita.
Pedregulho idem.
Rua, então, é linda.
*
As cismas.
Conforme vou descendo aumentam consideravelmente
minhas obsessões.
Vou me indagando todo.
Vou me desfazendo todo.
Vou me integrando lodo.
*
Careço:
Sabiás que cantem pra dentro.
Luvas de proteção para unhas do pé.
Extratos de verificação de impertinências.
Medidores de violência frasal.
Grampeadores de pensamentos.

Para conforme eu ir descendo estar sempre dotado
de instrumentos baratos de defesa. 

Circularidade. Também busco a circularidade, que nem o universo. Acho que Deus também é circular. Confesso ainda que operar pelo inacabado é um outro barato! Gosto das frases que indefinem, liricamente, as coisas que estão no mundo e eu só preciso aprender. O samba. Meu livro é um samba circular. Já “A vida é um buraco” trata-se mesmo, no original, de um choro do Pixinguinha. Compreende o triângulo doloroso que sustenta a “Idade do Zero”: buraco, roleta, moinho. Acaso e movimento, por graça!
O poeta Mário Chamie apadrinhou toda essa confusão. O poeta Mário Chamie, aquele que inventou uma quinta parede para poetar melhor fora da escola!
Ah, faltaria dizer que a alegria, ela anda muito comercial. E é por este isso que eu implico com ela no poema. Mas não é nada pessoal.

 



















 

 
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