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A poesia tem
a força de, na brevidade de sua linguagem, transbordar universos díspares.
Ao conhecer o Zeh Gustavo, fui logo embarcando no seu “Idade do Zero”. Minha
cabeceira o adotou como preferido. Meus olhos, também. Este livro andou
comigo pra cima e pra baixo durante semanas. Eu o li no ônibus, na praça de
alimentação, enquanto esperava pra assistir show; de madrugada, de
manhãzinha; quando estava aborrecida e até quando sorvia uns repentes de
felicidade.
“Idade do Zero” é um bom companheiro. Zeh Gustavo não teme as palavras e por
isso elas se entregam a ele sem medo de dizer o que o poeta bem entender. "Idade do Zero"
é uma coletânea de desinibições. Uma catarse de metáforas que, assanhadas
que só, destilam poemas que valem a leitura e a incursão ao universo que
tateiam. E sendo assim, a poesia agradece. Nós, os leitores, também.
Nesta entrevista, o escritor, compositor, revisor de textos, jornalista
cultural e sindicalista do ramo de informática, fala sobre como a arte lhe
fisgou e levanta questões relevantes sobre a literatura que se faz no
Brasil.
Estou com essa dúvida...
Gustavo Dumas ou Zeh Gustavo?
Ambos. O Dumas é (um pouco) mais formal, assina artigos bravos, faz política
sindical, corre na frente. O Zeh é um vagabundo que canta samba-de-breque,
fanfarreia, traga um sem-número de copos de boa pinga por noite, usa chapéu
de malandro – como se um deles fosse. Na verdade a distinção não se faz tão
nítida, de perto. Mas por mim assinava cada livro com um nome diferente.
Como a literatura e a
música entraram na sua vida?
Entraram não. Eu as fui caçar na selva. Para sobreviver. E por curiosidade.
E porque sei que vou morrer e quero permanecer de algum modo, deixar meu
grito. E para não enlouquecer. E para enlouquecer.
Você também é revisor,
além de escritor e compositor. Como essa “função” passou a fazer parte da
sua biografia?
Profissionalmente, porque fazer arte é desútil e portanto não dá pra comprar
feijão e pinga com letra de música, escolhi ser revisor. Porém... também não
consegui comprar feijão só revisando não. Até hoje. Faço revisão por gosto e
na esperança de um dia comprar feijão sem ter que me aprisionar em fantasmas
de mim na vigília de funções sociais que nada me dizem. Então, pretendo
certa feita viver de revisão. E outros bicos, claro.
Seu envolvimento com a
cultura é bem intenso. Você é pós-graduado em Jornalismo Cultural, graduado
em Letras, além de ter concluído cursos de Marketing Cultural e Produção
Cultural. Que papel você busca desempenhar no cenário cultural?
Há espaços vazios. Há gente de talento, dispersa, sufocada. As energias
precisam ser liberadas e tento participar nisso. Entro com a minha
possibilidade de aglutinamento, e às vezes consigo, e para liberar as
energias estéticas que eu, obviamente, julgo se encontrarem sem os espaços
que seriam seus. Sobretudo os artistas mais inventivos passam por
dificuldades as maiores, inclusive com o próprio pessoal de seu meio.
Fale um pouco sobre o
“Cesta Cultural”.
O “Cesta Cultural” é um acontecimento mensal do Sindpd-RJ (www.sindpdrj.org.br),
sindicato dos trabalhadores em informática, do qual sou diretor de imprensa
e cultura. Reúne literatura, música e artes visuais num mesmo ambiente e tem
a doce pretensão de integrar os trabalhadores artistas e incentivar os
artistas a se compreenderem e se aceitarem como trabalhadores. Os
trabalhadores precisam de arte neste mundo banal, e os artistas precisam se
encontrar como trabalhadores neste mundo tão especial em que alguns artistas
julgam viver. Ademais, com a crise da política, com o ataque diário que a
política sofre da mídia e do capital, que tomaram sua agenda, a cultura pode
constituir um forte eixo de luta e, mesmo, de politização. A arte é uma
forma de luta e de construção de uma memória subjetiva, ao longo da
história.

** Cesta Cultural **
Você foi premiado
várias vezes como escritor, através de concursos literários. Qual sua opinião sobre eles? Em que eles podem contribuir com a jornada de um
escritor?
Considero os concursos uma opção bastante válida. Mas até certo ponto.
Existem ótimos concursos, com equipe qualificada de avaliação dos textos,
prêmios em dinheiro ou publicação com relativa qualidade. Porém há uma
indústria pérfida de concursos literários, que se aproveita do desespero de
quem não tem espaço para publicar e, devo dizer, da babaquice de uma grande
massa de escritores que não procuram conhecer a realidade, não sabem onde
estão pisando e acabam por alimentar essa cadeia odiosa. Tem editora aí que
sobrevive de concursos e antologias de quinta categoria. Tem concurso que
cobra taxa de inscrição e paga prêmios em lata: medalhas, troféus... Essa
indústria precisa ser denunciada e combatida. Temos que criar leis punitivas
para a prática, porque se trata de uma prática de estelionato que requer
leis específicas, que a identifiquem socialmente, que gerem denúncia e até
prisão. Paralelamente a isso os escritores precisam se unir como
trabalhadores, para lutarem por melhores condições de trabalho e por espaço
no mercado. Cadê os escritores já estabelecidos, que tanto poderiam
contribuir se engajados nessa luta?
E a internet? Há
benefícios em publicar obras literárias, valendo-se dessa ferramenta?
Há benefícios, sim, desde que haja estabelecidos critérios de publicação.
Tem de haver alguma forma de filtro. Fico impressionado com a quantidade de
escritores! Parece que estamos num boom, e apenas parece. O desprestígio do
fazer literário se evidencia no momento em que tantos dizem fazer literatura
e tão poucos lêem literatura. Com poesia então a situação é de uma crueldade
sem tamanho. O cara lança um livro, lança dois, e quando mostra aí na praça,
no seu ambiente de trabalho e sustento, na rua, nos seus verdadeiros pontos
de venda, logo aparecem vários “concorrentes”! Que obviamente não compram
nem lêem o livro, e quando porventura o fazem não entendem aquela literatura
contemporânea, porque simplesmente não estão acostumados com ler poesia fora
do regime escolar. Tem uma conta que não fecha: se existe tão pouca leitura
de literatura, como existe tanta literatura, tanto escritor dando sopa por
aí?
Parece-me mais do que
justo: escritores já estabelecidos, renomados, apoiando aqueles que estão
chegando. Sabemos que, não só na literatura, mas em diversas áreas
artísticas, o “apadrinhamento” é bem-vindo. Porém, mesmo esse movimento que
em algum momento foi espontâneo (por gosto e mérito), na maioria de seus
tratados, torna-se uma mera negociação. Você acha que isso impede que arte,
o melhor dela, chegue ao seu destino, ou seja, aos leitores, ao público?
Ainda creio que os atos do apadrinhamento expressem, em sua maioria, um
movimento espontâneo, mesmo porque os ditos “escritores estabelecidos”
muitas vezes não têm lá tanta voz sobre o mercado. Noto um movimento algo
mais nocivo, para mim: é o compadrio entre escritores emergentes, que beiram
a mediocridade, para se estabelecerem em boas editoras, na base do lobby e
de um bom-mocismo bem canalha.
E como é o seu “fazer”
literário? O que o move a escrever?
Só escrevo
porque me incomodo. E porque quero usar a linguagem para externar esse
incômodo, para dizer coisas que outros não diriam, para falar do jeito que
não querem que se fale, no meu tempo histórico. Quando eu não acreditar mais
nisso, ou achar que não consigo mais cumprir esse papel, tiro o meu time,
numa boa.
Como surgiu o “Idade do
Zero”?
Não surgiu,
foi surgindo. Não planejei, foi ocorrendo. E aí eu chego uma hora e, sim, aí
planejo o livro. O conceito nasce de alguns poemas, que sugerem um título.
Aí trabalho alguns poemas em prol do título, do conceito. Que já estava
presente porém não estava concebido. Mas aí eu concebo. Viu como eu sou
confuso? (Risos.)
Muitos dos poemas que
compõe este livro me levaram a pensar sobre pegar tudo o que é certo e
aplicar a mais pura desconstrução, e isso me deu uma sensação de liberdade
significativa. Na verdade, o “des-alguma-coisa” é freqüente nesta obra. Isso
foi proposital?
O “des-”,
lingüisticamente, não possui só o popular sentido de oposição. O mais
incrível é que o “des-” também engendra um sentido de reforço. O Chamie
(Mário Chamie) desvela esse jogo muito bem, no prefácio do “Idade”. Eu nego
para afirmar, e afirmo para negar. O eu se afirma, (se) negando. Um
movimento circular, de (des)construção de mundos. Se é proposital? Eu diria
que sim: despropositadamente proposital.
Já que falamos de
escritores contemporâneos que ainda não caíram nas graças das grandes
editoras, eu gostaria de saber quem lhe chama mais a atenção neste cenário e
por quê.
Esta pergunta
é uma armadilha! Acabamos por citar os amigos, ou aqueles com quem travamos
já algum contato, é inevitável. E, pior: “esquecemos” de muitos, e aí...
Bem, depois eu me acerto com todos, porque vou encarar a pergunta! Acho
ótima a poesia do Pedro Candela, um doido de rasgar dinheiro, que fotografa
mulher pelada em Londres. Tem uma poesia de forte carga imagética, transmite
uma tensão que escapa à média frígida de boa parte da poesia contemporânea.
Gosto também do Ricardo Aleixo, lá das Minas Gerais que tão bem costuma me
receber. Na prosa, destaco o Whisner Fraga. O seu “A Cidade Devolvida” é um
livro belíssimo. Para escrever prosa, sobretudo, o escritor deve ter um
projeto, uma proposta. E não só estética. O Whisner discutir a cidade me
aproxima de sua literatura, sobretudo no momento em que estou traçando um
livro chamado “Uma vírgula no Cudomundo”, no qual eu discuto justo este
modelo urbano louco em que nos enfiaram. Este meu livro vai sair depois do
“A perspectiva do quase”, que tá prontinho. Ou seja, daqui a uns quinze
anos! Mas, infelizmente são poucos os prosadores que me chamam a atenção
ultimamente. É como eu falei antes: o surto de produção satura, e torna-se
menos fácil perceber quem realmente vale a pena. Porém isso é do jogo, fazer
o quê? Eu mesmo me tornei um prosador bissexto, porque não gostava muito da
minha prosa.
Antes de finalizarmos,
você gostaria de dizer algo mais?
Sim. Preciso
beber um conhaque. Fecha bem a entrevista, não fecha?!
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