WHISNER FRAGA

whisnerfraga@yahoo.com.br


O corvo


Pelo néon, confirmou, seria ali?, lugar tão pequeno, quase corredor, estreito, que entregaria sua pele a cuidados inéditos e aí nunca mais o mesmo, chegasse em casa, depois da morte da esposa, os cabelos descendo pelos ombros, digo, aproximou-se e aguçou a vista, certo, Tatoo Monster, entrando temeroso, como descreveria o desenho?, fariam um esboço antes de pintarem seu dorso?, saberia escolher as tintas, precisas as cores como em seu sonho?, e uma jovem atendia e disse-lhe que a tarefa seria dela e ele, de um tempo em que as mulheres em casa apenas, estranhou, confiaria?, ao que sim, fez-lhe as devidas perguntas e outras tantas, sou aposentado, ele respondeu, antes não podia fazer, o trabalho, seria chamado de maconheiro, mas hoje, nesse mundo e também e se for diferente?, não devo nada a ninguém, não é mesmo?, e depois ela morreu, referindo-se novamente àquela com quem viveu por pesarosos quarenta anos, tire a camisa, ela prática ordenou ao mesmo tempo em que ele enrubesceu, afinal tanto tempo sem se despir na presença de uma mulher e depois, jovem e bonita, ao que vasculhando, tateando, médica testando saúdes, jamais cuidado de pele assim flácida e enrugada, adiantou que não garantia um traço perfeito, que desbotado, incrustado em fendas, dobras, um corvo borrado, ele cabisbaixo, notando impossibilidades, vestiu a camisa resolvido a repensar a lenda e reavê-la de uma outra maneira, e às vezes tento reanimá-lo, peço-lhe para sair de frente da televisão, que o sol lá fora intenso, pessoas bonitas, mas ele não me escuta, é teimoso meu avô, o coitado. 

 

Djin

Para Djin Sganzerla

Foi num lapso que vi o rosto maçã carmesim, Djin. Invadido por um azul de céu de agosto e por um amarelo do quilate mais nobre do ouro. Invadido, vasculhado, avassalado, dominado, enfim. Da mais pura casta das videiras, do mais imaculado mel, do mais virginal lírio, Djin. Nunca a noite se curvara à luz, nunca a estrela refratara o brilho, até haver você. Que de desajustes alinhou-se a curva de minha imaginação neste vasto trecho de convergências, Djin. Que o dia mais limpo se extravase agora que conheci as tranças e a boca voluptuosa de entoar inocências. Que agora é repetir a coreografia dos seus gestos espontâneos e aguardar pela lembrança que retornará, tal cão adestrado. Eu sei que é o fim do infinito, Djin e não dá mais para pensar no que tem sido, se as coisas são assim. Que eu me curvo e estendo-lhe meu chapéu e louvo-lhe o amarelo, o carmesim e o azul, baralhando as cores e metamorfoseando os gestos e sons ao querer do vento. Para ser você. De novo, Djin, de novo...


Pour Hélène

Tu me perguntas assim, de supetão, sobre o meu deus. E vendo o meu constrangimento, acodes-me de pronto, mudando de assunto. É, tu estás corretíssima, chamá-lo-emos de "meu", porque acho que cada um deve ter o seu deus. Não por egoísmo ou por empáfia, mas porque assim ninguém aceitaria o deus de outrem por falta de um melhor.

Tu me perguntaste e acho que o meu silêncio só acrescentou confusão: na certa achaste meu deus complicado.

Deus é agora. Deus é aqui. É longe, vazio. Meu Deus talvez seja, de fato, o mais difícil de se entender: ele é silêncio. Das cavernosas profundezas onde se escondem todos os meus fatos, aqueles que nem eu conheço, lá ele está, a zombar da vicissitude e fragilidade de minha crença de eterna criança.

La Regieuse! Onde o seu Diderot? Quero os plátanos onde escondeste os teus trajes de infância e a minha pipa. Na linha do trem, onde equilibraste os planos de futuro e as picardias infindas, brincamos de ganhar o mundo.

Tu me perguntaste e notei: querias me tirar um sarro. É, só pode, não se pergunta assim do Deus de outro. É mais íntimo do que ovacionar sozinha a vergonha de enfileirar letras a esmo.

Mas tu me perguntaste e só pensei num lugar para lhe responder a pergunta que nem sei se haverá resposta. Pensei sim no descampado e na precariedade de suas roupas, escondendo por pouco o que todos desvendam na imaginação. Pensei, mas nada disto é Deus.

Deus não se mostra.


Desespero

Para Carla Dias

O azul agoniza na réstia de vestido que o tempo trata de roer e que não cobre mais o branco. Não há pressa no trabalho do pintor, por que haveria para apreciar o quadro? Violeta balouça no trago do lábio que acaricia a orla da taça num resto de dó. Apelo. Por que recompor o óleo, a tela? As horas depreciam, corrompem. Desligue o silêncio com o roçar das cordas do violino, o tempo há de esperar. Os acordes soçobram à procura de um ouvido e é o que importa. Fá, mi, sol, notas moribundas para o cortejo do nada. É um não sei o quê de pavor, um filete. Nada nos lembra a união, nem o desejo de recuperar, as coisas são longe, além da ponta dos dedos, além do sigilo. Aqui é a espera pela espera, as horas não contam. O azul agoniza comigo numa sobra de dia com você. A moeda silente não nos canta dádivas, a penúria nos abrigou e a ruína nos acaricia com meiguice de mãe. Quando seremos arco-íris.