| Processo de Criação |
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WHISNER FRAGA |
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A veia esquerda |
A veia esquerda |
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"conquistasse feito doses de chocolate e de hora em diante vi-me escassa, expulsando silenciosamente em golfadas horrendas as misérias cavas que não me fizeram sofrer além da antipatia e arrogância prenhe, tão intelectualizada e frenética com o cotidiano e sei, não devemos escorraçar os nossos males ou ignorá-los, têm uma importância que seja a de nos humanizar. uma deusa abatida apurando remédios. postos para fora, designei-me centenas de tarefas e a última o cão insolente perpetrou: a fome, mais até, estranhou meu corpo a precisão de alimentos, fartou-se de penúria, estivesse em banquete non sense mas que tudo para mim passava a ter sim, um sentido alterado, entretanto beneficiado com uma lógica, a de negar, e recusando comidas, destacou meu pensamento a sensaboria dos alimentos e já atravessava semanas sem mastigar o que quer que, numa auto-consumição, e a partir deste ponto, no qual convergiram depressões, fraquezas, faltas de nexo, entreguei ao agourmetismo, filosofia que elaborei para justificar uma anorexia assustadoramente em alta, a última faísca que reacendia em meus olhos. fisicamente fragilizada, não podia mais deixar o teto que me albergava e minha cama não mais me cuspia e então ao reagir, visto que o chacal, com suas patas carnívoras e dentes amolados, espreitava, examinado minhas forças para se decidir pelo momento correto em que me deixaria prostrada, quem sabe definitivamente. não fosse o telefone que ao meu lado, debruçado na escrivaninha, tocasse, e dele uma voz renitente lançava-me à compreensão, soube que ele, de onde viesse, retornava para se tornar o que minha mente quebradiça e estéril entendeu como indefinição." |
Conheci uma francesa muito peculiar. Magérrima, usava um piercing logo abaixo do lábio inferior, os cabelos mal tingidos e as roupas largas. Eu a via como uma personagem desses desenhos animados modernos, uma caricatura. Era uma pessoa muito doce. Imagino que ainda seja. Uma vez me revelou ser anoréxica. Concluiu que as doenças resultantes desta falta de apetite a haviam transformado radicalmente. Lembro-me de ter lhe perguntado se conheci Robert Lalande, um escritor canadense, e ela ter ficado deprimida porque nunca ouvira falar. Queria ler todos os livros do mundo. Sabia que deveria escrever sobre ela, mas só possuía como mote a sua doença. Tratei de imaginar o resto e surgiu a “veia esquerda”. O título, estranho a princípio, é uma homenagem à tatuagem que Sarah, esta francesa de quem falo, usava em seu pulso esquerdo. Infelizmente ela voltou para Paris antes que pudesse ver o conto publicado. Não temos mais contato. O conto está na antologia do conto brasiliense, publicada pela Projecto Editorial em 2004.
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O homem de meia cidade |
O homem de meia cidade |
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"posso ter hoje quarenta, cinqüenta, a tal ponto embrenhado nas insignificâncias da vida que seria inútil me explicar, tentar no rol das importâncias ordinárias uma resposta para os que me tomam por louco. por isso o menos falo, também porque ela me entende o bastante para que não haja necessidade de acrescer diálogos ao meu cotidiano. desde então os flashes, a fulguração mais ou menos tépida daquilo que entretanto jamais nomearia de alucinação. sei que é ela se insinuando, usando helena como subterfúgio, mostrando o que teria lá do outro lado, não, minha cara, eu já sei o que existe em todos os pontos das coordenadas euclidianas. não se fie nesta ingenuidade arquitetada com cimentos de medo. |
Em 1997 fui a Bom Despacho, uma cidadezinha do interior mineiro, com o amigo Ronaldo Cagiano. À noite saímos para umas pingas e conhecemos num bar um sujeito que dizia nunca ter ultrapassado certo ponto da cidade e que conhecida, portanto, apenas uma parte de Bom Despacho. Achei que estava de gozação, mas quando comentou que graças à terapia havia avançado três quarteirões além do ponto que estipulara como marco a não ser transposto, passei a lhe dar mais crédito. Helena eu inseri como personagem porque em alguns momentos o narrador é meu alterego. Ela, uma libanesa belíssima, foi minha grande paixão na adolescência. Nunca a beijei, infelizmente. Matei Helena, o que metaforicamente tem um sentido. Além disso, certa vez eu pichei um poema para ela em um cemitério de Ituiutaba e a levei até lá para ver a minha obra. Foi quando estivemos mais pertos um do outro e se eu fosse menos covarde a teria beijado. O fato de seu irmão ainda hoje ser meu melhor amigo é um detalhe. Este conto tem várias versões. As duas primeiras jamais me satisfizeram e por isso jamais foram publicadas. Demorei quatro anos para concluir esta versão que mando para a Carla. Em 2001, ao ser publicado pela primeira vez, na revista Cult, o revisor achou que o autor havia vacilado e escrito o título de maneira errada. O texto saiu como “o homem de meia idade”, o que me deixou meio chateado, primeiro por me julgarem inábil com a língua portuguesa, porque o correto seria “meia-idade”, com hífen. Depois por ter tirado mais de noventa por cento do sentido e do objetivo da história. O texto já foi publicado seis ou sete vezes e todas as versões são diferentes. A última está no jornal Rascunho, de março deste ano. O conto está sendo modificado outra vez no momento. |
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