URHACY FAUSTINO

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Reversão

Em toda safra
meu pai fazia espantalho para espantar passarinho —
heranças do meu avô.
Escondido entre os galhos
eu vi a vida amadurecer
meu pai empobrecer
meu avô falecer —
rugas fundas, cova rasa...
Herdar o espantalho, nunca!

Eu bati asas.

Inventário de safras

Ceifar o trigo;
ordenhar a vaca;
moer café.

Beneficiar o pão;
manipular o leite;
extrair aenhar a essência.

Preparar a mesa, da manhã.

II

Observar lua propícia,
plantar, na certa colher:
arroz, feijão, hortaliças e flores —
não esquecer: colibri precisa comer.

Tratar bem galo e suas galinhas
para ter ovos e despertador.

E rezas para agradecer farturas
no almoço e no jantar.

III

Noite,
piar de coruja, longe.
Um silêncio quase,
não fosse o ruminar dos animais.

Pirilampo que se perdeu do pasto,
faz-se estrela única,
no teto do quarto escuro.

IV

Cão amigo,
para ladrar estranhos.
Gatos no telhado —
aquecedores de pés em noites de inverno.

Livros, muitos deles,
espalhados nos cantos certos da casa.

E uma avó, cheia de histórias,
na mesa de cabeceira,
para os dias de preguiça.

Inversão de valores

Na minha infância
não conheci moeda,
se não o celeiro cheio
e as vacas gordas.

Precisava de roupa
trocava algodão por fazenda.
Caricia de aliança
trocava o trigo pelo ouro.

E éramos felizes!

Meus irmãos iludiram meus pais
com a visão dos novos tempos
e modernizaram tudo.
Saíram das tetas das vacas
direto para as teclas dos computadores:
não conseguiram ordenhar as máquinas.

Hoje trocamos dívidas.