FRANCISCO JOSÉ SOARES FEITOSA

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À vista de ti

Nunca te vi, melhor que seja assim.
Teus cabelos seriam trinados ao vento?
Poderia eu dizer "treinados", eles seriam - Porque aí corre o vento da tardinha, sempre me dizes do vento.
Guardo teus papéis eu guardo.
Perco-os, justo que me percam!
Um cartãozinho..., teu, a te encontrar azul...,
azul seria a saia de sair?
Ou, haverias de preferir uma roupinha amarela
e os olhos vagos de nenhuma palavra?
O que poderei dizer quando te encontrar?..., se.
Nestes tempos modernos,
teria lugar para um silêncio?
Falarias?
De que nos diríamos?
Melhor que teus cabelos fiquem ao vento.
Ah, vento doce, da noite,
como me perfumas o hálito desta noite cedo!

Nordestes

[Porque a lei 9.532/97 revogou as isenções tributárias dos tijolos de barro amassado, das telhas vãs, da madeira bruta, dos chapéus de palha, dos cestos rústicos, dos sapatos do recém-nascido e do soro de veneno de cobra.]

Sem casa, porque os tijolos te seriam 
o barro amassado com os próprios pés; 
não os terás, porque teus pés, Filoctetes, trazem 
todas as chagas desde o Dilúvio, ó filho de Caim! 

Sequer um pau-a-pique de madeira bruta, 4 telhas 
vãs, e uns ripados seriam portas, que nunca o serão, 
porque esses produtos, luxo extremado, não são isentos 
do Imposto sobre Produtos Industrializados 

Nem um cesto rústico para ajuntar  
umas raízes selvagens, ou umas palmas de espinho  
para matar, na baba e palma,  
a sede Seca — nem um cesto de palha  
da carnaubeira terás, do tucum, do coqueiro, 
nem da pindoba, Moisés, os juncos nem, porque 
os homens gritaram: — agora é dele, tudo!

Todas estas árvores, todos estes montes,  
      (disseram os recéns)  
      e os chãos também pagarão   
      as moedas, trinta e três, — onde o oleiro? —    ao Imposto sobre Produtos Industrializados.

 
E a cabeça de Francisco Severino — não seria José? — 
será relento, a cabeça, 
porque este chapéu de palha não é mais isento  
do Imposto sobre Produtos Industrializados. 
    
Sagrarás, ó imundo, o chão da Pátria com o canto  
do teu cour’e-osso,  
porque a rede — nem viola — não é, a rede, isenta  
do Imposto sobre Produtos Industrializados. 
   
Carcomido por dentro e por fora:  
teus vermes, tuas malárias, aos miracídios, e, por último  
a serpente te alcançará o pé —   
porque do teu flanco,  
só do teu, 
o soro! 

Dois paus truncados, em madeira embrutecida,  
o tributo bruto, te serão pouso  
e vingança. 

E o sapatinho de croché do teu primogênito. 

Teu Unigênito. 
 

Ora pro nobis.