Sérvulo Augusto *** A música como biografia ***

 


Foto: Paulo Fridman


por Carla Dias


 

Para “Encontros com Caio Fernando Abreu”, ele fez as canções. Escolheu a trilha sonora de “Emma Goldman – amor, anarquia e outros casos”. Compôs a trilha sonora de “Lendas da natureza”. As peças mencionadas estão em cartaz no circuito paulistano, e todas contam com o toque desse compositor, músico, poeta e dramaturgo.

Como músico e diretor musical, atuou em diversas peças, entre elas: “A Lenda do Piuí” (com José Rubens Chaserraux), “Feliz Ano Velho” (Marcelo Rubens Paiva/Alcides Nogueira) e “UBU” (Alfred Jarry), com o grupo Ornitorrinco. Sua primeira peça, “Fogo Paulista”, foi uma parceria com José Rubens Chachá, Paulo e Jean Garfunkel e Jaime Prata. Foi com Viviane Dias que dividiu a autoria do texto “Bixiga – uma bela vista”, com direção de Roberto Lage. No cinema, assinou a trilha sonora dos longas “Anjos da Noite” (Wilson Barro) e “Fogo e Paixão” (Isai Weinfeld/Marcio Kogan), além de ter colaborado com diversos curtas, entre eles Dovè Meneghetti (Beto Brant), que recebeu o prêmio de melhor trilha no Rio Cine Festival. Junto ao maestro Ruriá Duprat, fundou a Banda Sonora, produtora direcionada às trilhas e jingles publicitários. É autor do livro “Vide-Verso”.

Em 2005, lançou o deleitável “Coletivo” (Lua Music), disco que conta com participações de Elza Soares, Randy Brecker, Jane Duboc, Daniela De Carli, Vera Figueiredo, Mônica Salmaso, J.R. Chachá, Duda Neves, Biro do Cavaco, Marlui Miranda, Banda Mantiqueira e Antonio Nóbrega.

Sérvulo Augusto vive de música..


 

*** ENTREVISTA ***


 

Quando e como a música entrou na sua vida?
Bem , acho que veio como herança genética , pois meus avós maternos e também minha mãe eram musicistas. Já tinha piano e pianistas dentro de casa , e isso foi contagiante e contagioso.

Quais instrumentos você toca?
Piano, violão e seus parentes elétricos e eletrônicos - teclados e guitarra !

Como você “pensa” a trilha sonora de uma peça ou filme? Qual é seu processo de criação?
Essa é sempre uma pergunta difícil de responder, porque creio que não tenho um “processo” de criação rotineiro . Sendo uma peça ou um filme, o importante é mergulhar na história e tentar fazer com que a música ajude a narrativa. Acho que para qualquer artista é difícil falar sobre seu próprio trabalho. A gente faz, os outros explicam (risos).

Você assina a trilha sonora de três peças que estão em cartaz no circuito paulistano. A que você credita essa receptividade ao seu trabalho?
Todos os convites vieram de colegas com quem eu já havia trabalhado antes e creio que devo ter deixado uma boa impressão. Com o Francisco Medeiros eu havia feito a trilha original do premiado espetáculo “Sherazade”, de José Rubens Siqueira, com a atriz Raquel Barcha. Com este trabalho tive o prazer de ganhar o prêmio APETESP de Melhor música para Teatro Infantil, em 1996. Com a atriz Agnes Zuliani, que faz o monólogo “Emma Goldman”, eu trabalhei na peça “Tarsila”, da Maria Adelaide Amaral, dirigida pelo Sérgio Ferrara. Fiz a trilha sonora. E com a atriz e contadora de histórias Ana Luísa Lacombe já fiz várias contações de histórias no Centro de Cultura Judaica , que aos Domingos tem o “Sipurim”, que é um programa muito interessante para crianças a partir de 4 anos.

O que você acha essencial para músicos que desejam trabalhar com trilha sonora?
Que pensem mais do que música . Que assistam filmes, leiam livros, assistam teatro... Enfim, é preciso uma visão ampla da arte para que não seja só uma melodia. Uma trilha sonora tem muitos significados. Por exemplo, você pode criar um contraponto, ilustrando uma cena sangrenta de guerra com um movimento Allegro de um Mozart. Tudo depende do que se quer dizer.

Você se lembra da primeira canção que compôs?
Lembro sim (risos) ... Era uma música de protesto que se chamava “O amanhã no Vietnã”!!! Eita rimazinha ruim, né ? Lembro de um trechinho:

O amanhã noVietnã
Traz perigo pras famílias
Guerras e guerrilhas
Caças , bombardeiros
Também guerrilheiros
Combatendo contra nada
Sem gente a ser amada...

(risos)

E enquanto dramaturgo? Algum projeto à vista?
Não , por enquanto não. Estou sim no processo de pré-produção do próximo CD, que está sendo produzido pelo Paulo Calazans.

Tem data prevista para o lançamento do próximo CD? Você pode falar um pouco mais sobre ele?
Não. Assim como o primeiro, quero fazê-lo com calma, até que eu ache que está terminado. Mas a idéia é que antes do final do ano ele já esteja finalizado. O Paulo Calazans, que estava morando no Rio de Janeiro há muitos anos, está voltando em Setembro pra São Paulo , o que vai agilizar o processo !

Você mora em São Paulo, mas nasceu no Rio de Janeiro. Vejo muito do paulistano em você... E o Bixiga está sempre presente, como na canção de mesmo nome que foi gravada no CD "Coletivo" e o texto em parceria com Viviane Dias, "Bixiga - uma bela vista". O que lhe encanta tanto nesta cidade?
Eu me mudei pra São Paulo com 5 anos, portanto sou um paulistano mesmo, pois nunca mais morei no Rio. E a partir dos 15 anos de idade morei no coração do BIXIGA, isto até os 35 anos!!!! Então, peguei todo apogeu do bairro, com a sua encantadora vida noturna, seus teatros e personagens inesquecíveis, como o saudoso Armandinho do Museu e outros. A canção justamente conta do momento em que começou uma certa decadência do bairro, por conta do crescimento da cidade, e os viadutos que começaram a cortar o bairro.

E o poeta? O que ele conta de novo?
Ah , o poeta também está de férias. Poesia ? Pois é … Ia !.


 

*** APERREIA, INVENTA, INVESTE ***


 

Por Julio Daio Borges
Publicado no Digestivo Cultural em 23/12/2005
www.digestivovultural.com


 
Sérvulo Augusto é um incansável trabalhador em prol da música. Para quem achava que ele estava bastante ocupado, em 2005, com a trilha para a peça Bixiga, uma Bela Vista, junto ao Ágora, e com o espetáculo Luiz Gonzaga Sinfônico, junto ao maestro Abel Rocha, Sérvulo aparece com seu CD Coletivo, antes do final do ano, pela Lua Music. E acompanhado mais uma vez de um elenco estelar: Elza Soares, Jane Duboc, Mônica Salmaso, Antonio Nóbrega e Banda Matiqueira (entre outras). O disco já circulava, na realidade, entre poucos e bons, antes de encontrar pouso certo na gravadora... Sérvulo Augusto – não contente – dirige, produz e assina todas as onze faixas, sozinho ou em parceria. Tem sambão (“Boca-livre”), reggae-balada à la Chico&Edu (“Rio Primeiro”), casamento entre viola e sanfona (“Bichinho da Peste”), groove entre Melodia e Djavan (“Socorro”) e até complexidade bossa-jazzística à la Hermeto e Moacir Santos (não à toa, “Hermética”). Mas, apesar da variedade, não soa chato, nem cansativo, nem eclético demais. Coletivo tem unidade. Pode ser tocado sem sobressaltos e as sutilezas de origem (ou de fim) percebe quem for atento e versado. Como tudo que Sérvulo Augusto realiza, é autoral e ambicioso. A pergunta, subseqüente, que não quer calar é: o que pretende depois do teatro, da orquestra e do álbum multiplatinado? Pois não lhe falta mais nada... Talvez consagração na mídia? Um músico, de verdade, ainda precisa dessas coisas? Parece que não... Sérvulo Augusto, se quisermos extrapolar, poderia ser chamado tranqüilamente para elaborar mais trilhas sonoras, para empreender novas superproduções e para reger outras vozes notáveis. 2005 lhe deu currículo; que 2006 lhe renda frutos.