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Já assisti a
muitos shows e de diversos estilos. Instrumental, pop, rock,
rock-pop-pop-rock, funk, reggae, samba, bossa, tudo misturado... Meu gosto
musical é eclético, contanto que a música seja boa. Que o artista tenha
algo a oferecer.
Algumas dessas apresentações foram apenas entretenimentos e tudo certo a
respeito. É bom ir a um lugar e ouvir música pra soltar o corpo retraído
da lida. É agradável ter a música como trilha sonora do encontro com os
amigos. Porém, algo que me ganha assim, sem fazer esforço, é o show que é
espetáculo não por aquela seqüência rítmica que tocada nos tambores faz
todos delirarem. Não pelos trajes exóticos, pela dança sincronizada.
Ganha-me fácil os acordes aluados, os olhares embevecidos pelo elo entre a
música e a palavra. Ganha-me, sem esforços, o espetáculo que me provoca o
dentro.
Fui ao show do Rubi no Teatro Crowne Plaza, em São Paulo. Ele que é dono
de uma voz, no mais raso da tradução, fascinante, subiu ao palco
acompanhado de seu violão e de Estevan Sinkovitz (violão e bandolim) e
Caio Andrade (violão e cavaquinho) e com repertório do seu segundo CD,
“Infinito Portátil”. O palco, cenário que me fez refletir sobre a leveza
das coisas (tapete branco, músicos em branco, tudo brancamente simples e
belo), serviu também de balaio para desassossegos, com a promessa, sempre,
de bons ventos, logo adiante. E o adiante não foi interrompido por
palmas... O show seguiu sem pausas para os aplausos, deixando para o final
o deflorar o entusiasmo e a explosão do encantamento coletivo. Rubi
ofereceu a nós, os defronte a ele, um espetáculo de fascínios. E sabe-se
lá explicar como, também desfilou um leque de esperanças. Porque ali fazia
sentido o desfiar emoções, mesmo que dolentes, como não vem sendo feito
nos folhetins da vida há algum tempo (ao menos não com a freqüência
desejada e necessária): com humanidade.
Estevan Sinkovitz e Caio Andrade colaboraram belamente com a cadência do
show. As intervenções musicais, a delicadeza e força nos momentos
apropriados. Pudesse ilustrar o que acontecia de outra forma, diria que
naquele palco a música dançava, apaixonadamente, com a palavra.
Certamente, os compositores deram ao intérprete Rubi as ferramentas certas
para essa viagem. Gero Camilo, Celso Sim, Kléber Albuquerque, entre outros
artesãos musicais, colaboraram com a apresentação de Rubi, através de suas
obras.
Há algumas semanas, um amigo me disse que se sentia como se faltasse o
fôlego e, mesmo se esforçando para respirar, era difícil, dolorido. Pensei
nisso durante o show do Rubi, porque me senti como se faltasse o fôlego. E
me esforcei para respirar. Mas porque me pareceu difícil e dolorido voltar
para o cotidiano sem carregar comigo um tanto que fosse do conforto
provocado pela experiência de estar ali, de fazer parte daquele momento.
Então, que os
espetáculos que me ganham, assim, de vez, são aqueles dos quais saio certa
de ter recuperado o fôlego para seguir adiante, diferente e inspirada a
ser melhor do que há um segundo. Como se tivessem soprado em minha boca a
vida trajada em véus de possibilidades. Como se tivesse recuperado algo
valioso que fui perdendo no decorrer da rotina. O show de Rubi me
proporcionou isso. Resgate. Redenção. Provocou meu dentro e me mandou pra
vida. E eu fui, "uma lágrima na lapela... paz de espírito".
** RUBI **
Dias 4, 11, 18 e 25
de julho - terça-feira - às 21 horas
TEATRO CROWNE PLAZA
R. Frei Caneca, 1360 – C. César – SP
Informações: (11) 3289-0985 – www.crowneplaza.com.br
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01.
RIBEIRÃO (Celso Sim)
Meu olhar mergulhou
Pra dentro do teu olhar
E olhou
Como um míssel olha
Apaixonado
Para o alvo
Como a bola
Ante-vê o gol
Como a pólvora
Olha pro fogo
Explosão
E a sede diante
De um ribeirão
E viu beleza
Na tua natureza
No trabalho nobreza
Amor
02. ASTROLÁBIOS
(Kléber Albuquerque / Gero Camilo)
Arde-me o siso
Coração ungido a ferrolho
Arde-me entorpecido
Vil vão
Novamente novo
Como nunca pode ser um outro
Uma lágrima na lapela
Paz de espírito
Ontem eu lamentei demais
Por mãos que me jogaram
Nesse espaço de astrolábios
Hoje aprendi como
Se voam as mãos
Como se vão
Como carvão nos lábios
O homem tem de voar
Enquanto cai
Tem de alcançar
E vai
03. ORAÇÃO DO ANJO (CEUMAR
/ MATHILDA KÓVAK)
Não permita, deus, que eu morra
Sem ter visto a terra toda
Sem tocar tudo o que existe
Não permita, Deus,
Que eu morra triste
Dê-me a graça
De viajar de graça
Por essa esfera afora
De virar uma linda senhora
Uma linda lenda
Cantar cada fio da renda
Tecer cada cacho
De cabelo de Anjo
Transformá-lo num bonito arranjo
Da mais bela canção
Não permita, Deus, que eu me vá
Sem sorver esse guaraná
Sem espalhar meu fogo brando
E acalmar a brasa do mundo
E aquecer mais uma vez
O coração do universo
Nas contas do meu terço
Nas cordas do meu violão
04. INFINITO MEU
(GERO CAMILO)
Infinito meu
Agora que a lua sola
Eu amanheço a noite em tua hora
Rogo a Deus
Que me dê saber beber
Que me dê saber banhar
Na fonte que ainda agora
Jorra de ti
Pensar
Pastor de mil rebanhos
Dá-me o nada e serei teu
Porém, se tua camisa
Abrir as venezianas
Ah! paisagem humana
Serás das crias de Deus
Meu
Infinito meu
05. AI (TATA
FERNANDES / KLÉBER ALBUQUERQUE)
Deu meu coração de ficar dolorido
Arrasado num profundo pranto
Deu meu coração de falar esperanto
Na esperança de se compreendido
Deu meu coração equivocado
Deu de desbotar o colorido
Deu de sentir-se apagado
Desiluminado
Desacontecido
Deu meu coração de ficar abatido
De bater sem sentido
Meu coração surrado
Deu de arrancar o curativo
Deu de cutucar o machucado
Deu de inventar palavra
Pra curar de significado
O escuro aço denso do silêncio
De um coração trespassado
06. É DE VERA (GERO
CAMILO)
É de vera
Meu amor por ti
É de vera
Que eu te quero bem
Se você vem, meu bem
Tudo fica lindo
Se você vem, meu bem
Meu lábio fica rindo
07. MAR INTERIOR
(MARIA TEREZA)
Ah! você partiu e me deixou
A ver navios em frente ao mar
Só há solidão
De estar em frente ao mar
Beira do mar
Molhei os pés
E lá lavei
Minh’alma
Linha do mar
Vou te lançar
E lá ficar
Conhecer o mar
Eu vou partir num vapor vulgar
Vou me lançar em alto MAR
Eu vou partir num vapor vulgar
Vou viajar
Vou ver estrelas
E voltar
08. INVENTAR (LUIZ
GAYOTTO / FLÁVIO BOAVENTURA)
Diante do epelho
Reconheço meu avesso
Diante do espelho
Dissimulo meus tropeços
Diante do espelho
Aprimoro meu sossego
Eu vibro
Feito um vento nos cabelos
Tem uma noite negra
A eriçar-me os pêlos
Eu pulo
Sambo um samba intempestivo
Nu
Diante do espelho
Não sou eu quem me conheço
São meus outros eus
A tilintar a esmo
09. INEQUAÇÃO
(KLÉBER ALBUQUERQUE / TATA FERNANDES)
Quem come pedra
Quem bebe água de chuva
Quem sabe de toda prova
Que Deus é capaz de dar
Quem parecido
Que indivíduo que confere
Quem com ferro fere
Quem com ferro ferirá
Que semelhante
Que vivente, que parente
Que melhor cliente
Que compadre
Que irmão
Quem se comove
Se incomoda
Quem se move
É a prova dos nove dessa inequação
Quem come viro
Quem bebe água da calha
Quem carrega toda tralha
Que consegue amontoar
Quem toma vinho
Quem se banha na enxurrada
Se perde na encruzilhada
Quando sai do seu lugar
Que contratante
Praticante
Que representante
Quem do mundo cidadão
Quem se comove
Se incomoda
Quem se move
É a prova dos nove
Dessa inequação
10. BRASA (KLÉBER
ALBUQUERQUE)
Furei a camisa
Com a brasa do meu cigarro
Engoli a neblina engasgada dos carros
Subi no cimo do aterro
Para amplificar meu verbo
Pra reverberar meu berro
Olha o céu desestrelado
Cor de fita isolante
Um cometa cintilante
Num céu de papel carbono
Na centelha desse instante
Veio espantar meu sono
E me despertou na idéia
Como um perfume na brisa
Como lâmina precisa
Relampiando o sujeito
Porque amigo é quem avisa
E agora não tem jeito
Tenho uma brasa no peito
Que queimou minha camisa
11. RIBEIRÃO –
vinheta (CELSO SIM)
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