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Poema da Impermanência
Em tudo o
que fiz
por onde passe(e)i,
deixei um pouco de mim
no rastro impreciso
de meus passos,
na rutilância dos olhos
que sempre foram esbulhados pelos avessos,
no burburinho
dos leitos da amada.
Os desacertos, as
nulidades
são fruto das contingências, do atalho,
do niilismo impregnado em minhas vísceras;
a inocência apeou
desapontada,
a malícia conduziu-se ávida
na crina indigente dos lençóis.
Os exageros
eu os credito à solidão,
esse rebanho de ausências
e sua confraria de silêncios
que nos acantoam
ou nos impõem
um degredo maior
que asila a alma
e desmantela as coisas.
Autópsia
O retrato
pendurado na parede
dobradiças enferrujadas e intangíveis
o velho saguão habitado por fantasmas
um mundo antigo à espreita de quem sou.
- escombros se associam e
me mutilam
com lembranças atrozes,
reminiscências de pedras
infringindo minhas vísceras.
A sombra é um peso, uma
lâmina
e nada além do bule e da dispensa
que o tempo alijou.
Esse confinamento da memória,
essas rugas nas paredes
esse espectro de plantas ensimesmadas no alpendre
tudo, tudo é um mistério inalcançável
e as gavetas habitam cadáveres
e nesse lugar partilho o nada que há em tudo.
Ah, meus olhares cavalgam
no dorso infrene de uma viagem insossa:
nostalgia na visita impossível,
escassa influência do ter sido.
Vejo-me entre o caos
de uma injusta rutilância:
autópsia que não se conclui,
porque as mortes em mim
completam-se na gravidade
das horas que não são.
Plenilúnio
Noite urdida
no silêncio mineral
uma solidão ferroviária
que tudo encerra
sob a lua cheia
(soberana e lúcida auréola
cristal sem rugas
bordando a antemanhã).
Selvas, relvas,
novelos de pureza esquecidos
sob o leito da infância
perdido nos (des)caminhos.
Madrugada hercúlea
sondando minhas angústias:
as luzes ao longe re-
velam minha insondável condição.
Lua imprecisa
carpindo novos dilemas
no grave exercício da vida.
Temp(l)o de
(re)colher
Ossuário de
estrelas
onde vou catar a possível sobra
de luz e sabor
dos homens que não souberam
espalhar o fermento hierático
de doida esperança.
Enquanto no útero
espantado
de vário peito estarrecido
forjavam-se sonhos natimortos,
um Prometeu acorrentado
insistia na louca oficina da utopia.
Segadura que se esqueceu
enquanto um rebanho indolente
resolvia o destino
de nossos poucos desejos.
A felicidade perdeu-se
nos (des)caminhos, entre tantas glosas,
saturada nos hiatos fuliginosos,
sedicioso temp(l)o de enganos.
Mas o apanhador caminha,
cioso da fertilidade, buscando enxertar-se
da prole que não será, em vão, buscada,
de invenção de vida, novos astros, outras terras.
Retroviagem
Adiada a
chegada
o mar é só vertigem
o porto está distante.
A noite nos oceanos
é uma tragédia de negrumes
onde se perdem
os homens ávidos de idílios
entre cetáceos ressabiados
e atlânticas saudades.
A estrela que me
acompanha
(ou a persigo, em solitária romaria?)
restabelece o ancoradouro
que precocemente fugiu
das garras tênues
de um viandante inconcluso.
Mais inquieta é a
esperança
se nela não navego
ou galopam outros sonhos.
A geografia dessas águas
fabrica desafios, enquanto no rosto
mareja o sacrifício da espera.
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