Maior dos desatinos
Eu sou o maior dos soldados,
já fui condecorado o guardião do rei.
Em batalhas sangrentas, jamais tombei,
e executei com a espada valentes condenados.
Eu sou o maior dos gladiadores,
lutei e venci lanceiros e esgrimistas.
Nas arenas do rei, o maior dos artistas,
ofertei com glória o sangue dos perdedores.
Eu sou o maior dos bandidos,
já assaltei e matei, já fui preso e fugi.
Já roubei moças, muitos amores fingi,
e clemenciei com a morte, valentes maridos.
No entanto...
Eu sou o maior dos desatinos,
"louco pelos teus encantos, preso
e aviltado pelo teu desprezo",
me curvo ao maior dos peregrinos.
E eu sou o maior dos andarilhos,
por este amor acorrentado aos pés,
caio, me esfolo, me junto aos fiéis,
no deus lhe pague dos maltrapilhos.
E neste descarne desarmado,
no duelo parco do destino,
parto ao mundo em desatino.
Eu sou o mais bravo soldado,
sou o mais valente gladiador,
eu sou o mais cruel bandido,
sou o desatino do amor.
Eva Maria
Por onde anda a Eva? Maria!
Parida das entranhas do universo,
talhada em prosa e verso,
das mãos de Deus, divina alquimia.
Por onde tu andas, tão à toa,
no altar da hipocrisia, embutida,
pois te chamaram, um dia, pervertida,
e esqueceste de ti, ó leoa.
Por onde andas em pilhéria,
pela costela de Adão, submissa,
obrigações, deveres e a missa,
no deus te pague por esta miséria.
Por que não gritas: "sou o paraíso",
que um dia concedeu ao Adão
o direito de ser um João,
da corte ao seu fêmea, Narciso.
Enfim, por onde andam, as Veras,
as Paulas, Cristinas e Adrianas,
Josefinas, Reginas e Anas?
Todas Marias... Evas quimeras...
Evas das entranhas parideiras;
altares do amor... masmorras da dor...
Marias, estranhas prisioneiras,
dos Joãos, dos Joãozinhos, do pudor..
Poemas extraídos do
livro MULHER UM RESGATE ÍNTIMO,
de Paulo Mendonça.
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