Todas as artes >> em cartaz: Nô Stopa   

Foto: Bia Bittencourt

 

A busca pelo “o que é bonito” provoca possibilidades: a perfeição de gostar do imperfeito; a despretensão que há em viver às lufadas de sonhos; a realidade árida apaziguada pelas pinceladas de ilusão. Quem não gosta de enveredar pelo oposto do que fere? Quem não fisga conforto do olhar do outro? Quem não busca companhia para caminhar rumo ao inusitado? Lenine e Bráulio Tavares dizem em música: “O que é bonito/ é o que persegue o infinito”.

Desde sempre a arte se mostrou amiga desse ‘infinito’ que muitos de nós contemplamos. Ainda parafraseando a canção: “Mas eu não sou/ eu não sou, não/eu gosto do inacabado/o imperfeito/o estragado que dançou/o que dançou”. Não há sobras na arte. O que sucumbe ao ostracismo da inspiração é reciclado e transformado. Neste universo de inventividades que sustentam realidades preguiçosas de fantasia e intensidade, o artista é médico, doutor. Muitas vezes, é guia. E no mais raso dos cargos: pensante.

O que pode ser bonito, meu amigo, é a busca que nunca chega ao fim, mas promove, durante o percurso, extraordinárias experiências. É almejar o inteiro, percebendo que ele só faz efeito nas nossas vidas ao ser consumido aos pedaços.

Com esse gosto de ter alcançado um dos fragmentos do inteiro, ouvi Nô Stopa pela primeira vez. Recebi a indicação de uma amiga e comprei o CD de estréia dessa cantora, compositora, acrobata, bailarina, poeta. “Camomila e distorção” chamou minha atenção de cara pela imagem do que amansa pra depois rebelar. O título me ganhou, independente do que viria a seguir: inventividade.

 


A parceria com Marcelo Bucoff rendeu ao “Camomila e Distorção” beleza emoldurada em cada canção. De entrada, “se eu fosse um poeta/e entortasse a minha linha reta/você me daria um ponto?/ponto de interrogação”. A música dá a impressão de fazer com que as palavras escorreguem. Há pesar e leveza nela. E à mercê das inquietudes e plenitudes, vamos conhecer parte do universo dessa pessoa que realizou no trapézio o antigo desejo de voar. Com vocês: Nô Stopa!

 

Improvisos: A música não é única na sua vida. Quais são as outras atividades artísticas que fazem parte da sua biografia?

: A dança e o circo me acompanham desde criança. Foram meus primeiros palcos, primeiros passos profissionais na arte. Acho mesmo que nunca vou parar com isso, adoro dançar e ficar de ponta cabeça. Tenho conseguido conciliar com a música e só estou esperando a deixa pra misturar de vez isso tudo!                                                         

Foto: Iatã Cannabrava

Improvisos: E como você pretende promover essa mistura?

: Penso em fazer um show da Nô, como de costume, mas com sutis interferências artísticas, de dança, circo, teatro e poesia, que são as artes que tenho mais contato além da música. Temos todos os ingredientes na mão, é só termos bom gosto, pra não ficar exagerado. E isso está bem próximo de acontecer.

Improvisos: E de concreto? O que você anda fazendo para lidar com essa interferência de uma linguagem artística na outra?

: Participo do espetáculo musical infantil “Felizardo”, com músicas de Tata Fernandes, alguma do Zeca Baleiro e outra minhas, onde a música, o circo e o teatro se encontram sutilmente. Acho que o caminho é por aí.

Improvisos: Mais algum projeto em andamento?

: Neste momento, estou envolvida com a cia. Pia Fraus de teatro de bonecos no espetáculo “Gigantes de Ar” e tenho trabalhado também com o grupo Circo Fractons, nos espetáculos “Urbes” e “Medo de Careta”.

 

Improvisos: E a música? Como você se descobriu compositora?

: Lavando louça! Escrevi “Leve”, a primeira canção... E gostei da brincadeira!!!

 


Foto: Bia Bittencourt         

Improvisos: “Camomila e Distorção” é o seu primeiro disco?

: Sim!!!! Antes dele, fiz uma participação no cd gravado ao vivo  “O Novo Amanhece”, dos mestres Renato Teixeira e Zé Geraldo, onde cantei duas músicas minhas. Oficialmente, foi minha estréia, mas “Camomila e Distorção” é o primeiro disco solo, a primeira experiência em estúdio.

Improvisos: E como surgiu a idéia de gravar um CD?

: Veio da vontade de cantar o que eu escrevia. Iniciamos a gravação em 2000, mas achamos que a cantora ainda não estava pronta (risos), então decidimos dar um tempo. Em 2002, fui convidada pra fazer o “Prata da Casa”, no Sesc Pompéia. Montei a banda, ensaiamos o show, e o disco veio junto naturalmente. Depois da estréia, entramos em estúdio prontos pra gravar. Daquela época, duas gravações vieram para o “Camomila”: “Leve” e “Soneto ao Temporal”.

Improvisos: O que inspirou o título do CD?

: A poesia: “A cura que traz os dias com paz/Tristeza calma/Mãos calmas/A cura que traz/Camomila e Distorção/Estranha combinação funciona/Se queres voltar.../...meu coração apenas descansa”. Mandei pro Perí, o Péricles Carpigiani, que gravou as bateras e vocais do disco, ele respondeu: CAMOMILA E DISTORÇÃO É UM PUTA NOME PRO SEU DISCO!! Daí já estava!!!
Foi uma fase, um processo pra encontrar a porta de saída, que na verdade estava aqui mesmo. Me afogava em chás pra baixar a bola, mas ouvia rock pra pilhar, seguir em frente No fim, isso se refletiu no cd. E a fase passou!!!


Foto: Théo Ribeiro

Improvisos: Como se deu a parceria com Marcelo Bucoff?

: Conheci o Marcelo dançando. Era meu professor e coreógrafo. Conversávamos bastante antes das aulas sobre arte, música e vida. Era uma referência pra mim. Um dia me convidou pra dançar no P.U.L.T.S Teatro Coreográfico, grupo que fundou com Jorge Garcia, também coreógrafo. Os laços estreitaram, afinidades cresceram e viramos parceiros. Uma noite, num boteco na Vila Madalena, escrevemos uma poesia, “Amor de Giz”, que mais tarde virou música e tema do primeiro balé do grupo. Daí em diante fizemos mais um monte de parcerias.

Improvisos: Fale um pouco sobre o P.U.L.T.S e sua participação neste projeto.

: P.U.L.T.S. significa ‘Por Um Lugar Tão Sonhado’. É um grupo de dança contemporânea independente, fundado em 2000. Tem uma movimentação bem despretensiosa, gestos sutis, cotidianos e acima de tudo poéticos. Por isso o nome Teatro Coreográfico. Estive desde o começo com eles, e tive de sair pra gravar e lançar meu disco, mas todos me deram uma força, e as portas continuaram abertas. Hoje o grupo está completando cinco anos, e a comemoração foi na Galeria Olido, com a remontagem do balé “Maria/ João”, onde eu tive o prazer de estar de volta aos palcos com o primeiro elenco do P.U.L.T.S.
Sabemos que o lugar tão sonhado não existe... O motivo de tudo é apenas a busca, que não cessa.

Improvisos: E o que você anda ouvindo e lendo?

: Tenho escutado música eletrônica, rock e Brasil, que é o que eu adoro e quero no meu disco. PJ Harvey (Uh Huh Her), Radiohead (Ok Computer), Los Hermanos (4), Gorillaz, Mylene e Cartola.
‘Mulheres que Correm com os Lobos’ (Clarissa Pinkola Estés), é meu livro de cabeceira. Mas tenho lido apenas jornal e poesias, ‘Cem Sonetos de Amor’ (Pablo Nedura) e ‘Cantáteis’ (Chico César).

Foto: Théo Ribeiro

Improvisos: Qual é a sua busca atual?

: Estou em fase de gravação do segundo disco, com o produtor Érico Theobaldo, (DJ Periférico). Estamos ainda em processo de criação e busca de sonoridade. Acho que será um disco mais antenado, os arranjos estão mais atuais, os assuntos menos dramáticos, tudo mais brasileiro e menos poluído. Estou buscando simplicidade, sutileza e praticidade.


CONFIRA!

www.nostopa.com.br
www.fractons.com.br
www.piafraus.com.br

COMUNIDADE NO ORKUT: http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=1009138