MERIVALDO PINHEIRO

merivaldopinheiro@yahoo.com.br

noctâmbulo

praias descalças me embriagam esta noite
 

a vinte muros daqui
um sono torto repousa lúcido em meu corpo
mas essa mulher de conhaque
vestida de céu, bebe cânhamo
sem nenhum acanhamento

e pouco se dá conta desse noctâmbulo
sobre sua cama

porém, assim que o sol acordar minha janela
meu primeiro pedido
é que leve consigo, de uma vez
esse retrato azul já amassado já encardido

 sob meu travesseiro alucinado de ilusões

 que
consola
meu
desejo

 

o homem e a poeira

 
o homem levanta
sacode a poeira

e dá uma volta
em torno de si mesmo

 o mundo gira e balança
não há quem empunhe a lança
a fome sucumbe à ganância
a sede consome a pança

 mil mortes
mil crianças 

o homem perde a esperança


a poeira
se espanta

 .

.

.  e cai

 

aqui


Ele está aqui; eu O sei
não há outro rumo a seguir
mas preferes notícias de tua matéria

os amigos reunidos anunciam a boa-nova
mas preferes campos minados a estes de alegrias 

teu coração está em chamas
mas preferes calar diante da Verdade
ainda assim, Ele faz vigília por ti
porque sabe de teu coração

muitos dirão
que não há potes de mel depois do arco-íris
que tudo não passa de navios de cera
ao sol de domingo
que a vida é um labirinto, mesmo sem terremoto
e cada um por si mesmo encontre a saída

não temas!
Ele é o Sol que dissolve anéis de saturno
a Luz que renova tempos perdidos

é tempo de colheita
e há lugar com teu nome na Cidade que te espera

Ele está aqui; tu O sabes

vem!
não percas tempo em apagar tua memória
deixa o até-aqui para trás 
é tempo de colheita
e não há bilheteria na Cidade que te espera

vem!
a entrada é franca
traze apenas teu coração

 

Lua de sobrado


Quando nasceste, eu já navegava estrela d’alva de amor
E fiz da ninfa que encontrei uma louca-vênus de prazer
Na dúvida, não importava o mar onde punhas teu calor
A doida flor de teu fulgor me acendia a cada alvorecer

Mesmo assim, irresoluto, fui ver meu trem já de saída
E ligeiro num vagão dormi um sonho às sete léguas
Um anjo torto me guiava pelas vielas de uma vida
Quando acordei, eu já sabia medir do mar a régua

A partir daí passei a provar das pétalas de rosa o sumo
Em chãos menos vagabundos de brasis em novo rumo
Para encontrar talvez aquela ilha de vidas de esperança

Que palmilhava meus velhos sonhos belos de criança
Feito as ruas de chuva belenenses encardidas de alegria
A me fazer feliz qual essa grafita a diluir-se em poesia

 

fios de Maraca

 

mais de três marias à beira do rio
batem ligeiras pedra e sabão
a panela no fogo apita o arroz

grita o feijão

 mais de três joões no alto do rio
atacam ligeiros currais e tarrafas
a canoa embriagada balança bacus

sacode tainhas

domingo tem festa na praça
e joões e marias dançam felizes

 são fios de Maraca nos cabelos meus 

e
a
lamparina
que
existe
neles 

vez por outra 

alumia meu poema

Icoaraci

 
teu cruzeiro azul não é moeda corrente
não é parte de igreja ou capela
não é vôo de pássaro-de-lata nem mar correndo à toa


são colibris-de-bico-do-beijo-da-água-de-coco
molhando os lábios da chuva da tarde morena
adulçorando, à boca da noite, a boca da noite

teus soldados mais fortes não estão nos quartéis

estão nas mãos dos filhos de barro dos fornos febris
alinhavando marajoaras em sonhos de paracuris
estão nos barcos das cotijubas dos filhos
e nas gentes suadas de outeiro
estão nos telhados das ruas das belas mangueiras
e nas barrigas dos alguidares gêmeos de açaí

teus soldados são fortes
são feitos do pó do rio Maguary
no Canto da Agulha da Oito de Maio, na Augusto

um pinheiro disfarçado de gente
diz, com um sorriso de vila ensopado de chuva:

Bem-vindo a Icoaraci