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noctâmbulo
praias
descalças me embriagam esta noite
a vinte
muros daqui
um sono torto repousa lúcido em meu corpo
mas essa mulher de conhaque
vestida de céu, bebe cânhamo
sem nenhum acanhamento
e pouco
se dá conta desse noctâmbulo
sobre sua cama
porém,
assim que o sol acordar minha janela
meu primeiro pedido
é que leve consigo, de uma vez
esse retrato azul já amassado já encardido
sob meu travesseiro
alucinado de ilusões
que
consola
meu
desejo
o homem e a poeira
o homem levanta
sacode a poeira
e dá uma volta
em torno de si mesmo
o mundo gira e balança
não há quem empunhe a lança
a fome sucumbe à ganância
a sede consome a pança
mil mortes
mil crianças
o homem
perde a esperança
a poeira
se espanta
.
.
. e cai
aqui
Ele está aqui; eu O sei
não há outro rumo a seguir
mas preferes notícias de tua matéria
os
amigos reunidos anunciam a boa-nova
mas preferes campos minados a estes de alegrias
teu
coração está em chamas
mas preferes calar diante da Verdade
ainda assim, Ele faz vigília por ti
porque sabe de teu coração
muitos
dirão
que não há potes de mel depois do arco-íris
que tudo não passa de navios de cera
ao sol de domingo
que a vida é um labirinto, mesmo sem terremoto
e cada um por si mesmo encontre a saída
não
temas!
Ele é o Sol que dissolve anéis de saturno
a Luz que renova tempos perdidos
é tempo
de colheita
e há lugar com teu nome na Cidade que te espera
Ele
está aqui; tu O sabes
vem!
não percas tempo em apagar tua memória
deixa o até-aqui para trás
é tempo de colheita
e não há bilheteria na Cidade que te espera
vem!
a entrada é franca
traze apenas teu coração
Lua de sobrado
Quando nasceste, eu já
navegava estrela d’alva de amor
E fiz da ninfa que encontrei uma louca-vênus de prazer
Na dúvida, não importava o mar onde punhas teu calor
A doida flor de teu fulgor me acendia a cada alvorecer
Mesmo
assim, irresoluto, fui ver meu trem já de saída
E ligeiro num vagão dormi um sonho às sete léguas
Um anjo torto me guiava pelas vielas de uma vida
Quando acordei, eu já sabia medir do mar a régua
A
partir daí passei a provar das pétalas de rosa o sumo
Em chãos menos vagabundos de brasis em novo rumo
Para encontrar talvez aquela ilha de vidas de esperança
Que
palmilhava meus velhos sonhos belos de criança
Feito as ruas de chuva belenenses encardidas de alegria
A me fazer feliz qual essa grafita a diluir-se em poesia
fios de Maraca
mais de
três marias à beira do rio
batem ligeiras pedra e sabão
a panela no fogo apita o arroz
grita o feijão
mais
de três joões no alto do rio
atacam ligeiros currais e tarrafas
a canoa embriagada balança bacus
sacode tainhas
domingo
tem festa na praça
e joões e marias dançam felizes
são fios de Maraca nos
cabelos meus
e
a
lamparina
que
existe
neles
vez por outra
alumia meu poema
Icoaraci
teu cruzeiro azul não é moeda corrente
não é parte de igreja ou capela
não é vôo de pássaro-de-lata nem mar correndo à toa
são
colibris-de-bico-do-beijo-da-água-de-coco
molhando os lábios da chuva da tarde morena
adulçorando, à boca da noite, a boca da noite
teus
soldados mais fortes não estão nos quartéis
estão nas mãos dos filhos de
barro dos fornos febris
alinhavando marajoaras em sonhos de paracuris
estão nos barcos das cotijubas dos filhos
e nas gentes suadas de outeiro
estão nos telhados das ruas das belas mangueiras
e nas barrigas dos alguidares gêmeos de açaí
teus
soldados são fortes
são feitos do pó do rio Maguary
no Canto da Agulha da Oito de Maio, na Augusto
um
pinheiro disfarçado de gente
diz, com um sorriso de vila ensopado de chuva:
Bem-vindo a Icoaraci
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