MARCOS NIEVES

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Procurando estrelas

Choveu muito nesta cidade. Os olhos da pequena morena vazaram soberbos cristais líquidos sobre a obra singela de um jovem poeta. A cidade permanece embaixo das águas, transbordando grandes catástrofes. O jovem poeta delirava vértices de loucura sobre a planície esbranquiçada do papel porque estava absolutamente apaixonado. Apesar do cataclisma, eu gosto da chuva. As minhas mãos sacodem a poeira do pano manchado da vida pela janela transcendental que estava voltada para dentro de uma veia coronária. Eu permaneço aqui parado, calado. Eu caminho procurando estrelas.
Não vejo um sorriso amarelo no lugar onde me encontro. As vozes encobrem grandes transações de carne sobre a superfície desta metrópele. O verbo clarifica uma centelha perdida de um pensamento provido de um obstáculo completamente esgarçado. São projeções da pedra no caminho de Drummond que estão se estilhaçando. Eu não tenho para onde ir mas estou feliz porque continuo esperando você chegar. Por isso, não demore, por favor. Quando você chegar, eu estarei apto a escrever o maior verso jamais escrito pelo maior poeta que esteja vivo ou morto. Um verso dedicado ao coração comovido de uma pessoa especial, estremece a terra e muda a trajetória do movimento contínuo de um planeta perdido no espaço sideral. Enquanto escrevo isso, uma parte do meu cérebro se distorce na superfície do papel. Eu sigo alternando fatos, exagerando gestos, praticando alucinações, procurando estrelas.
Eu já vi o jovem poeta trabalhando e a pequena morena passando em frente da minha casa a caminho do super-mercado que vendia alguns sonhos que ambos não podiam comprar. Choveu muito e chove ainda. Eu imagino que as margaridas estejam cansadas de tanto tomarem banho de chuva porque não pára de chover. Alguns irmãos sofrem porque perderam suas casas, objetos, móveis. É triste constatar que a chuva também dói. Eu vejo aeroportos abrigando grandes aviões de carga que abrigam riquezas sem fim. A minha vida vislumbra uma parcela de alegrias onde não deveria haver. Penso que preciso caminhar. Minha rota é o horizonte. Minha alma ilumina um grande verso inspirado por uma grande mulher. A mulher que eu amo não mora comigo e eu possuo três amigos. Dois deles moram próximos a minha casa. Um deles esteve doente. Agora eu sei quem eu sou, porque estou procurando estrelas.
Um pensamento abre uma clareira nas asas do meu destino porque eu não sei para onde vou. Às vezes, eu penso em você e parece que o sonho bronzeia com sutileza a proporção da sua pele tão sensível quanto a pétala de uma rosa. Então, eu beijo versos profundos, altero ambientes climáticos, crio grandes vastidões de oásis sobre o deserto hostil da insanidade desta vida e quase consigo encontrar uma estrela quando percebo que os rastros dos seus movimentos deixaram luzes prateadas na superfície do meu quarto noturno. Eu procuro estrelas.
Não caçoe de mim, quando escrevo. Eu só sei ser assim. Se você não gostar dos meus versos, por favor, não ria de mim. Ocorre que eu sou muito inseguro e sensível ao seu olhar de marfim. Eu sempre trabalho com o objetivo de instigar você. Quando consigo fazê-lo, eu olho para a imensidão dos céus e abro os meus braços em forma de cruz. Eu abro o meu coração para Deus e continuo seguindo o meu caminho. As luzes da cidade são maravilhosas à noite. Eu sou assim. Eu vivo procurando estrelas.
Subitamente, o jovem poeta descobriu que o coração da pequena morena chamava por outro nome. Ainda chove muito por aqui. A chuva prejudica o trânsito e os helicópteros sobrevoam a cidade nos trazendo notícias sobre o caos instalado. As televisões mostram grandes complicações. Um verso de cristal brotou dos olhos do jovem poeta. A pequena morena mantinha o seu quarto decorado com pôsteres de grandes galãs de novela e sonhava com delícias de açúcares adoçando a sua vida solitária. Eu escrevo isto enquanto mastigo tranquilamente uma palavra que flutua no céu da minha boca. Essa palavra é um martírio para mim porque denota dor e perda. Você está muito longe daqui. Seus braços mansos enlaçam os braços largos de um outro cara mais interessante. Não fico triste por causa disso. Afinal, eu ainda sei onde estou. Minha vida é assim mesmo. Sou feliz porque a esperança caminha comigo. Percorro o meu caminho com brilho no olhar. Eu não tenho vergonha do meu destino. Eu sigo sempre só procurando, procurando estrelas.
Como um velho cão farejador, eu abro a porta do meu céu e percorro as sutilezas do seu interior com um jeito diferente de olhar o mundo. O mundo é engraçado porque é cheio de incertezas. A pequena morena mostrava um álbum para as suas amigas que continha fotos de artistas inacessíveis para ela. O jovem poeta escrevia versos inspirados que jamais chegariam aos olhos do mundo. Ambos estavam fechados para um mundo que não se abria para eles. Eu estou aberto às grandes novidades deste mundo e ainda chove, chove intensamente. A chuva molhava o seu sorriso e eu me lembro disso. O tempo abre uma nova clareira no meu olhar e o vento derramará um céu límpido sobre a minha boca idílica. Esta é a lira dos meus vinte anos: Meus versos mordem flores enquanto eu continuo procurando estrelas.
Hoje eu vi a chuva se derramando pela janela dos meus sonhos. A chuva embaralhava a vastidão de um pensamento que se entrelaçava a outras palavras que flutuavam pelo céu da minha boca. Eu mastigava cada palavra com o ardor comovido de quem acabou de beijar uma boca de veludo. Cada palavra se despejava sobre o hálito da superfície esbranquiçada do papel entonando semi-canções de amor. Minha palavra é o meu Deus. É ela quem guia os meus passos. Eu sei que isto não diz muito a você. Mas isto, isto é algo que eu queria lhe dizer sem mágoas. O resto é vento. Não me peça para parar de escrever porque eu não sei quem eu seria se você me dominasse a ponto de me fazer parar de fazer aquilo que eu mais amo. Chove. Chove torrencialmente. Não chova para cima de mim com as águas do seu escárnio. Eu também sinto o amor que o jovem poeta sentia pela sua pequena morena no completo anonimato. A pequena morena cobiçava astros inacessíveis e eu cobiço quase que um verso profano. Estou à deriva, mas estou feliz procurando estrelas.
As estrelas são bonitas à noite. O jovem poeta se mudou para a Pasárgada do meu olhar. A pequena morena foi viver no nirvana do meu pensamento. Não encontraram versos perfeitos nem astros de televisão. Não encontraram verbos que mudariam o mundo se se propagados fossem ao tempo exterior. Você é tão simples e eu estou chorando agora. Eu já sei, não precisam mais me falar que você jamais voltará para cá. Procuro estrelas.
O jovem poeta e a pequena morena se encontraram em mim no universo sem estrelas que eu criei porque ainda as procuro pacientemente. Eu penso em você imaginando que não há um verbo sequer que, projetado sobre um verso vagabundo, consiga exprimir toda a verdade escondida sobre nós. Eu não tenho medo de ser assim. Eu sigo o meu caminho carregando uma parte da cruz que eu criei ( A outra parte eu herdei ). Não caçoe dos meus versos. Eu só sei dizer que eu sou assim e não quero mudar só porque você deseja que eu o faça. Vá embora, não volte mais aqui. Deixe-me aqui sozinho, mastigando conflitos semi-prolongados, porque agora mesmo eu estou procurando estrelas.
E então, eu os entrego o meu jovem poeta e a minha pequena morena para que vocês cuidem muito bem deles. O jovem poeta é simples mas ainda derramará sobre o papel esbranquiçado muitos versos de amor dedicados a jovem desfrutável que sonha com os astros que não são os meus. Eu cobiço outros astros existentes em outras órbitas de outros espaços siderais. A pena da verdade ainda escreverá algo sobre o que eu penso para um coração que não é o meu. Talvez este será o meu fim. E quando esse dia chegar, eu espero que finalmente possamos ter feito algo de bom para nós. Oxalá possamos ter construído pontes ao invés de muros, poemas ao invés de grilhões. E se for assim, do jeito que eu estou projetando para nós, as águas cairiam somente nos lugares em que precisaria chover realmente, porque chove, ainda chove demais e as flores estão murchas e o sol está demorando a chegar. Deixem-me continuar procurando. Procurando estrelas.
Eu só escrevo porque você existe e assim é e assim será. Não teria sentido se assim não fosse. Eu gostaria de estar procurando as pessoas que estão se afastando uma das outras nestes dias de incertezas. As fábricas apitam, os carros passam, as filas se multiplicam completamente. Eu procuro manter a minha cabeça no limiar da tranquilidade. Eu escrevo versos. Esta é a minha vida. E se uma sílaba qualquer puder lhe comover, talvez eu saiba que há esperança para você e para mim, para o jovem poeta e para a pequena morena. Não estamos errados por sonhar e eu continuarei procurando estrelas.
As estrelas estão escondidas na galáxia perdida no universo dos homens. Mostrem-me uma estrela que eu lhes mostrarei um pensamento. De repente eu parei, olhei para os lados e olhei para o céu. Notei um filamento que expunha um pequeno raio de sol. Agradeci aos anjos. Finalmente parou de chover.