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Procurando estrelas
Choveu
muito nesta cidade. Os olhos da pequena morena vazaram soberbos
cristais líquidos sobre a obra singela de um jovem poeta. A
cidade permanece embaixo das águas, transbordando grandes catástrofes.
O jovem poeta delirava vértices de loucura sobre a planície
esbranquiçada do papel porque estava absolutamente apaixonado.
Apesar do cataclisma, eu gosto da chuva. As minhas mãos sacodem
a poeira do pano manchado da vida pela janela transcendental que
estava voltada para dentro de uma veia coronária. Eu permaneço
aqui parado, calado. Eu caminho procurando estrelas.
Não vejo um sorriso amarelo no lugar onde me encontro. As vozes
encobrem grandes transações de carne sobre a superfície desta
metrópele. O verbo clarifica uma centelha perdida de um
pensamento provido de um obstáculo completamente esgarçado. São
projeções da pedra no caminho de Drummond que estão se
estilhaçando. Eu não tenho para onde ir mas estou feliz porque
continuo esperando você chegar. Por isso, não demore, por
favor. Quando você chegar, eu estarei apto a escrever o maior
verso jamais escrito pelo maior poeta que esteja vivo ou morto.
Um verso dedicado ao coração comovido de uma pessoa especial,
estremece a terra e muda a trajetória do movimento contínuo de
um planeta perdido no espaço sideral. Enquanto escrevo isso,
uma parte do meu cérebro se distorce na superfície do papel.
Eu sigo alternando fatos, exagerando gestos, praticando alucinações,
procurando estrelas.
Eu já vi o jovem poeta trabalhando e a pequena morena passando
em frente da minha casa a caminho do super-mercado que vendia
alguns sonhos que ambos não podiam comprar. Choveu muito e
chove ainda. Eu imagino que as margaridas estejam cansadas de
tanto tomarem banho de chuva porque não pára de chover. Alguns
irmãos sofrem porque perderam suas casas, objetos, móveis. É
triste constatar que a chuva também dói. Eu vejo aeroportos
abrigando grandes aviões de carga que abrigam riquezas sem fim.
A minha vida vislumbra uma parcela de alegrias onde não deveria
haver. Penso que preciso caminhar. Minha rota é o horizonte.
Minha alma ilumina um grande verso inspirado por uma grande
mulher. A mulher que eu amo não mora comigo e eu possuo três
amigos. Dois deles moram próximos a minha casa. Um deles esteve
doente. Agora eu sei quem eu sou, porque estou procurando
estrelas.
Um pensamento abre uma clareira nas asas do meu destino porque
eu não sei para onde vou. Às vezes, eu penso em você e parece
que o sonho bronzeia com sutileza a proporção da sua pele tão
sensível quanto a pétala de uma rosa. Então, eu beijo versos
profundos, altero ambientes climáticos, crio grandes vastidões
de oásis sobre o deserto hostil da insanidade desta vida e
quase consigo encontrar uma estrela quando percebo que os
rastros dos seus movimentos deixaram luzes prateadas na superfície
do meu quarto noturno. Eu procuro estrelas.
Não caçoe de mim, quando escrevo. Eu só sei ser assim. Se você
não gostar dos meus versos, por favor, não ria de mim. Ocorre
que eu sou muito inseguro e sensível ao seu olhar de marfim. Eu
sempre trabalho com o objetivo de instigar você. Quando consigo
fazê-lo, eu olho para a imensidão dos céus e abro os meus braços
em forma de cruz. Eu abro o meu coração para Deus e continuo
seguindo o meu caminho. As luzes da cidade são maravilhosas à
noite. Eu sou assim. Eu vivo procurando estrelas.
Subitamente, o jovem poeta descobriu que o coração da pequena
morena chamava por outro nome. Ainda chove muito por aqui. A
chuva prejudica o trânsito e os helicópteros sobrevoam a
cidade nos trazendo notícias sobre o caos instalado. As televisões
mostram grandes complicações. Um verso de cristal brotou dos
olhos do jovem poeta. A pequena morena mantinha o seu quarto
decorado com pôsteres de grandes galãs de novela e sonhava com
delícias de açúcares adoçando a sua vida solitária. Eu
escrevo isto enquanto mastigo tranquilamente uma palavra que
flutua no céu da minha boca. Essa palavra é um martírio para
mim porque denota dor e perda. Você está muito longe daqui.
Seus braços mansos enlaçam os braços largos de um outro cara
mais interessante. Não fico triste por causa disso. Afinal, eu
ainda sei onde estou. Minha vida é assim mesmo. Sou feliz
porque a esperança caminha comigo. Percorro o meu caminho com
brilho no olhar. Eu não tenho vergonha do meu destino. Eu sigo
sempre só procurando, procurando estrelas.
Como um velho cão farejador, eu abro a porta do meu céu e
percorro as sutilezas do seu interior com um jeito diferente de
olhar o mundo. O mundo é engraçado porque é cheio de
incertezas. A pequena morena mostrava um álbum para as suas
amigas que continha fotos de artistas inacessíveis para ela. O
jovem poeta escrevia versos inspirados que jamais chegariam aos
olhos do mundo. Ambos estavam fechados para um mundo que não se
abria para eles. Eu estou aberto às grandes novidades deste
mundo e ainda chove, chove intensamente. A chuva molhava o seu
sorriso e eu me lembro disso. O tempo abre uma nova clareira no
meu olhar e o vento derramará um céu límpido sobre a minha
boca idílica. Esta é a lira dos meus vinte anos: Meus versos
mordem flores enquanto eu continuo procurando estrelas.
Hoje eu vi a chuva se derramando pela janela dos meus sonhos. A
chuva embaralhava a vastidão de um pensamento que se entrelaçava
a outras palavras que flutuavam pelo céu da minha boca. Eu
mastigava cada palavra com o ardor comovido de quem acabou de
beijar uma boca de veludo. Cada palavra se despejava sobre o hálito
da superfície esbranquiçada do papel entonando semi-canções
de amor. Minha palavra é o meu Deus. É ela quem guia os meus
passos. Eu sei que isto não diz muito a você. Mas isto, isto
é algo que eu queria lhe dizer sem mágoas. O resto é vento. Não
me peça para parar de escrever porque eu não sei quem eu seria
se você me dominasse a ponto de me fazer parar de fazer aquilo
que eu mais amo. Chove. Chove torrencialmente. Não chova para
cima de mim com as águas do seu escárnio. Eu também sinto o
amor que o jovem poeta sentia pela sua pequena morena no
completo anonimato. A pequena morena cobiçava astros inacessíveis
e eu cobiço quase que um verso profano. Estou à deriva, mas
estou feliz procurando estrelas.
As estrelas são bonitas à noite. O jovem poeta se mudou para a
Pasárgada do meu olhar. A pequena morena foi viver no nirvana
do meu pensamento. Não encontraram versos perfeitos nem astros
de televisão. Não encontraram verbos que mudariam o mundo se
se propagados fossem ao tempo exterior. Você é tão simples e
eu estou chorando agora. Eu já sei, não precisam mais me falar
que você jamais voltará para cá. Procuro estrelas.
O jovem poeta e a pequena morena se encontraram em mim no
universo sem estrelas que eu criei porque ainda as procuro
pacientemente. Eu penso em você imaginando que não há um
verbo sequer que, projetado sobre um verso vagabundo, consiga
exprimir toda a verdade escondida sobre nós. Eu não tenho medo
de ser assim. Eu sigo o meu caminho carregando uma parte da cruz
que eu criei ( A outra parte eu herdei ). Não caçoe dos meus
versos. Eu só sei dizer que eu sou assim e não quero mudar só
porque você deseja que eu o faça. Vá embora, não volte mais
aqui. Deixe-me aqui sozinho, mastigando conflitos
semi-prolongados, porque agora mesmo eu estou procurando
estrelas.
E então, eu os entrego o meu jovem poeta e a minha pequena
morena para que vocês cuidem muito bem deles. O jovem poeta é
simples mas ainda derramará sobre o papel esbranquiçado muitos
versos de amor dedicados a jovem desfrutável que sonha com os
astros que não são os meus. Eu cobiço outros astros
existentes em outras órbitas de outros espaços siderais. A
pena da verdade ainda escreverá algo sobre o que eu penso para
um coração que não é o meu. Talvez este será o meu fim. E
quando esse dia chegar, eu espero que finalmente possamos ter
feito algo de bom para nós. Oxalá possamos ter construído
pontes ao invés de muros, poemas ao invés de grilhões. E se
for assim, do jeito que eu estou projetando para nós, as águas
cairiam somente nos lugares em que precisaria chover realmente,
porque chove, ainda chove demais e as flores estão murchas e o
sol está demorando a chegar. Deixem-me continuar procurando.
Procurando estrelas.
Eu só escrevo porque você existe e assim é e assim será. Não
teria sentido se assim não fosse. Eu gostaria de estar
procurando as pessoas que estão se afastando uma das outras
nestes dias de incertezas. As fábricas apitam, os carros
passam, as filas se multiplicam completamente. Eu procuro manter
a minha cabeça no limiar da tranquilidade. Eu escrevo versos.
Esta é a minha vida. E se uma sílaba qualquer puder lhe
comover, talvez eu saiba que há esperança para você e para
mim, para o jovem poeta e para a pequena morena. Não estamos
errados por sonhar e eu continuarei procurando estrelas.
As estrelas estão escondidas na galáxia perdida no universo
dos homens. Mostrem-me uma estrela que eu lhes mostrarei um
pensamento. De repente eu parei, olhei para os lados e olhei
para o céu. Notei um filamento que expunha um pequeno raio de
sol. Agradeci aos anjos. Finalmente parou de chover.
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