Livro de Cabeceira 

Nem sempre é um único livro a freqüentar a nossa cabeceira. Porém, a indicação de um deles pode colaborar na escolha de quem não tem idéia sobre o que seria interessante ler. Para isso essa seção foi criada, pois, além da indicação, há também uma breve explicação sobre o motivo da escolha, o que pode despertar o interesse de novos leitoras para a obra citada.

 

 

Agora É Que São Elas - Paulo Leminski

Paulo Leminski é pra mim o que há de melhor na literatura contemporânea brasileira. Infelizmente para nós, o perdemos cedo. Inquieto e irreverente, Leminski brincava com a língua pátria com a facilidade que uma criança brinca com uma bola. As palavras em seu texto saltitam, alegres, vivas, uma ode a vida. Feliz! Leminski, é um daqueles que sabe muito, sabe muito de saber quase tudo sobre os declives, sobre as curvas mulatas da nossa língua e usa tudo o que sabe com a simplicidade culinária de quem prepara um bolo de fubá, com requinte francês. Sortudo aquele que o degusta.
 Agora é que são elas, é uma obra única. Um romance sem precedentes, um desrespeito a todas as normas, até mesmo as da física quântica. Aliás, difícil defini-lo: um romance, um suspense, um enigma, um policial, uma ficção científica, uma aventura... Na verdade é tudo isso e muito mais. Mas a definição é desnecessária, fiquemos apenas com o prazer de degustar a obra.

Jaime Celiberto
dramaturgo e diretor de teatro

     

 

A História Universal Da Infâmia - Jorge Luís Borges

Por resultar da genial intuição e da técnica incomparável de um artista que escreveu em seu tempo a literatura do futuro, misturando fantasia e erudição na dose exata para falar da maldade humana com propriedade e profundidade.

José Nêumanne Pinto
jornalista e escritor

 

 

A.S.A [Associação Dos Solitários Anônimos] - Rosário Fusco

Estou na metade. Fusco é um modernista revolucionário, mineiro de São Geraldo, vilarejo próximo a Cataguazes - cidadezinha notória por ser cidade-natal do flautista-prodígio Patápio Silva, berço da importante revista Verde e também do prosador Luiz Ruffato. Com somente 17 anos, Fusco foi um dos principais articulistas do modernismo mineiro. Lançou, ainda na década de 40, o romance O Agressor, totalmente na contramão do que se fazia na época: ultraurbano, escrito em discurso indireto livre, narração expressionista, não-linear, exibia a estranheza de um kafkiano que nunca tinha lido Kafka - no que alinha Fusco à vertente surrealista brasileira, ao lado de Murilo Rubião, JJ Veiga e o genial Campos de Carvalho. E é assim surreal a.s.a., um romance inédito [esquecido, Fusco morreu em 1977 com vários originais na gaveta] que junta um monte de personagens sem nome vagando por situações insólitas, às vezes desconexas, sempre bem-humoradas e de um erotismo desembestado - o narrador apenas coloca em ordem o manicômio. Não sei onde vai dar, estou ainda no meio do romance, mas já dá pra sacar que é daqueles livros com noção do perigo - artigo muito raro em qualquer literatura, em qualquer época.

Ronaldo Bressane
escritor e subeditor da revista Trip

 

 

Arigatô - Pedro Bloch

Meus livros de cabeceira costumam ser literários (poesias, contos, crônicas), esotéricos (programação neurolingüística, principalmente), ou teóricos (letras, teatro, cinema, tv). Acabo, porém, de saborear uma obra cujo gênero não me é muito íntimo, constituindo-se em um verdadeiro "tratado filosófico" sobre a mentira, a imaginação, a fantasia, a manipulação da verdade e a defasagem entre criatividade e vida. Temas sérios e profundos que Pedro Bloch descomplica magistralmente no livro infantil Arigatô, como se os levasse na brincadeira... (Ed. Moderna/SP, 1984, escrito quando o autor tinha setenta anos de idade). A criançada, além de divertir-se, é iniciada na diferenciação sutil de certas situações-limites; já os adultos, além de se desestressarem com o bom-humor da narrativa, emocionam-se com a delicadeza do caminho reflexivo, no qual, envolvidos, acabam se enveredando. Excelente exemplo de que uma grande obra não precisa utilizar a linguagem ou a lógica rebuscada de gente grande.

Leila Míccolis
poeta, escritora de cinema, teatro e televisão

 

 

As Doze Cores do Vermelho - Helena Parente Cunha

Em poucas palavras, eu indicaria As Doze Cores do Vermelho. É um livro inovador que não apresenta o defeito de muitos livros inovadores: ser chato. A leitura é absolutamente apaixonante, e, depois de ter lido uma vez, você pode reler o livro aos pedaços, aproveitando-se da estrutura de módulos e ângulos, abrindo-o em qualquer página. Além do mais, é um livro que tem site, e cujo conteúdo pode ser lido online: 
http://www.patio.com.br/vermelhos/index.html.

Eduardo Loureiro
escritor e responsável pelo site O Pátio,
que inclui o Crônica do Dia