JOSÉ NÊUMANNE PINTO

neuman@estado.com.br 

Madeiro

Meu pai está no céu
e me mandou o dom da vida
pousar do beijo de um colibri.
Quando semente caiu,
o ventre virgem de minha mãe a estreitou.
Debaixo do regaço da terra,
me nutri da lava dos vulcões,
bebi a água limpa dos lençóis
e suguei a força fétida
da matéria apodrecida.
Cresci no seio da relva,
vesti as cascas do tempo.
Soprei ventos primevos,
trazidos dos campos,
onde o trigo fenece.
Destilei o perfume das flores
e o sabor dos frutos da estação.
Refresquei com o orvalho de meu pranto
o asfalto que me queimava os pés.
À sombra de minha presença,
abriguei carícias alheias
e em meus membros
espalhei ninhos e espinhos.
Cantei canções ancestrais
nas línguas mortas das aves,
que não me deixam calar.
Fixaram com cravos minhas pernas
neste bosque de piche e aço.
Agora, eis-me aqui, de novo,
disposto ao perdão,
pois pra isso fui pregado.
Abro bem os braços
e deixo o peito à vista :
meu velho coração vegetal
só carece de um olhar caridoso
para pulsar sua compaixão.
Olha bem pra mim,
transeunte urbano
de minha agonia!
Enquanto me encontrares,
teu pulmão de cristal
não vai se estilhaçar.

Decomposição da folha

Verde, que te quero
verde em Lorca,
verde em cloro,
verde em fila
- clorofila -,
verde-íris
no brilho do olho,
no embrulho do mundo,
no globo ocular
e no globo escolar,
na pele das plantas
(à flor da pele)
e no pano do mar
(o mar, quando quebra na praia,
é bonito, é bonito),
mar de cana
(mel de caiana),
oh, verde mar
das brisas do Brasil
(eta, mundo velho sem porteira,
que goteira,
sem eira nem beira).
A lógica do eco:
verde imenso,
verde amansa,
verde amaina,
verde amanha
(e o verde amanhã?).
Verde, que te quero
ver
(no verde farfalhante das palmeiras,
onde canta o sabiá):
o que vai ser de mim, hein?

Poeira de estrelas

Do norte do norte
as águias decolam
para vôos sem volta.
Lá, tudo começa:
a voz do mudo,
a vez do mundo.
No norte do norte
as águas brotam do solo
e o fogo se consome,
queimando a cera do tempo.
No norte do norte,
mora Deus,
o dono da sorte,
pelo menos à noite.
Lá se consuma o pecado
de cada um,
surgido do zero.
No norte do norte,
da terra é soprado
o barro humano,
bafo de vida.

Ao sul do sul
as águias sempre voltam
de vôos sem ida.
Lá se chega sempre ao nada,
ao nenhum talvez,
decerto a ninguém.
No sul do sul,
as águas se lavam
em si mesmas.
E o fogo se extingue
em cinza morna.
No sul do sul,
Deus vive de dia,
na casa de sempre,
erguida sobre ocos do vazio.
Lá, se colhe
a semente da morte
na seara das virtudes
de todos,
abrigados no sem fim
do infinito.
No sul do sul,
o último sopro,
matéria divina,
solfeja adeuses
em lábios selados.

Entre o sul do sul
e o norte do norte
a leste e oeste, o medo
traça o destino parco
de quem se sente imenso.
Entre o começo do fim
e o fim do começo,
o compasso do verso.
Lá Deus repousa
a sesta do guerreiro da paz
à sombra da luz das estrelas.
O sono divino
vela a angústia do homem
de não se saber
apenas um sonho,
nem sempre um pesadelo,
mas inevitavelmente
uma miragem de fumaça,
uma nuvem opaca
de pó seco
e denso mistério.

Onda do amor

Fonte
Fonte fevereira
Que morre no mar azul
Lá, debaixo da Cruz do Sul
Tão ligeira

Amo
Amo e não me canso
De navegar e chorar sem fim
Em tuas lágrimas, sorrir assim
Daquele jeito manso

Mãos
Mãos amigas no meu rosto
Aliviam minha dor, meu cansaço
Energizam a vida, num abraço
Uma alma de Agosto

Beijos
Beijos que nada são e nada pedem
Néctar de um sonho alado
Vozes cristalinas do Eu calado
Dançam nos lábios, flores do Éden

Paz
Paz que rasga o silêncio infindo
De um olhar sem uma voz
De um coração meigo, feroz
Aguarde...a onda do amor vem vindo !

Será uma vez

No dia em que chegar o dia,
nem é preciso que eu esteja pronto,
enfatiotado para a viagem de rumo incerto
e com bagagem feita, além de minha nudez.
Na hora em que chegar a hora,
a hora incerta, a que não tem seguinte,
pretendo apenas estar sóbrio e lúcido,
para me servir de boa companhia,
pois longa será a travessia
e não haverá a chance de chamar alguém.

Quando chegar a visita que não se espera,
não lhe servirei café na xícara
nem terei palavras para lhe saudar a entrada.
Quero estar mudo como a matéria, que serei de novo,
pois quanto mais houver silêncio num adeus,
mais comovido será o momento.
Não importa quanto o tempo vivido,
pois será sempre escasso.
Nem a saudade que fica conta,
pois sempre haverá o vazio imenso...

Quando o dia chegar, sem aviso,
não haverá testamentos a assinar
nem encontros combinados a confirmar,
muito menos o testemunho de minha ausência.
Será, como sempre, numa hora precária,
pois, afinal, precárias são todas as horas
e, pelo menos para quem fica, ela terá
a vaga importância que têm todas as horas.
Reservo-me apenas o direito de sonhar sozinho
o sonho definitivo do último sono,
o delírio final da razão partindo
e o último alento da visão, que escapa.

Não é lícito escrever tanto sobre estas coisas
nem cabe aqui descrever o não sabido,
que, no entanto, é só o que se sabe.
Sei apenas que sou pó
e, quando voltar ao pó, de onde venho,
gostarei de ter passado como um cometa,
não apenas um meteorito tonto
a esmagar as pedras que rolam no caminho.
Quando eu passar, definitivamente,
mesmo tendo sido em vão o meu desfile,
quero que meu amor guarde de mim os doces instantes
e os inimigos eventuais tenham cebolas a cortar.

Quando hoje houver, mas amanhã nem talvez,
quem tiver cruz a transportar nas costas
que a fixe sobre o chão que me abrigar
e meus filhos me possam lembrar
como a semente que teimou em germinar.
Quando mergulhar no mar vazio,
de onde vim, também sem o saber,
estarei, como nunca, melado
da placenta pastosa das palavras,
berrando o urro primevo e primal
de todo inexistente que alguma vez tenha existido.