JANDER MINESSO

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Afrânio, o paradigmático

Por todo o escritório, não havia quem não conhecesse o Afrânio. Encarregado
de compras, o homem era dono de um vocabulário invejável, esculpido por
horas e horas de intermináveis palavras cruzadas. E foi justamente este
vasto conhecimento lingüístico que, dia desses, salvou seu pescoço, quando o
gerente do departamento chegou na sua mesa:
Afrânio, você terminou aquele levantamento de preços?
Não, senhor.
E o relatório de despesas do mês passado?
Não, senhor.
E a listagem dos fornecedores?
Também não, senhor.
Pô, Afrânio, o que é que você vem fazer aqui, então?
Desculpe, senhor, mas há algo que me sinto na incumbência de lhe
dizer.
Ah, é? O quê?
Senhor, eu não estou mais me adaptando aos ditames organizacionais do
departamento. Ousaria até dizer que estou em descompasso com os paradigmas
vigentes na corporação, o que potencializa minha inação no labor.
Paradigmas?
Sim, senhor. Paradigmas. O senhor sabe o que é um paradigma, não?
E por acaso eu tenho cara de burro?
Não foi isso o que eu quis dizer, senhorS
É óbvio que eu sei o que é um paradigma! Quem, em sã consciência, não
sabe o que é um paradigma? Hoje em dia, aliás, é obrigação de todo e
qualquer cidadão digno do nome saber o que é um paradigma!
Concordo integralmente, senhor.
Então, você está tendo problemas com nossos paradigmas, certo?
Sim, senhor.
E, por causa destes nossos paradigmas, você não fez o levantamento de
preços, nem o relatório, e muito menos a listagem dos fornecedores, certo?
Perfeitamente, senhor.
E o que você sugere que seja feito para solucionar o problema?
Senhor, não ouso dar minha servil opinião a tão excelsa e augusta
pessoa.
Afrânio, vamos parar com isso. Você sabe muito bem que o meu nome é
Edmilson, não Augusto. Agora, fala logo o que você acha que a gente deve
fazer com os tais dos paradigmas porque daqui a pouco vai dar meu horário de
almoço.
Bom, sendo assimS
Vai, homem! Desembucha!
Se o senhor me permite dizer, eu sugiro uma total e completa
reformulação paradigmática, não só do pessoal do departamento, mas de todo o
nosso organismo corporativo. Sempre tendo em mente, é claro, a otimização
pseudópode dos rincões do porvir.
AhnS você acha mesmo?
Sem dúvida, senhor. Uma reciclagem em nossos paradigmas pode ser a
diferença entre o plúmbeo ostracismo ao qual estamos arraigados no presente
e o sucesso ribombante de nossa empresa. Ainda mais no mercado hiperbólico
de hoje.
Certo. Sabe, Afrânio, é exatamente nisso que eu vinha pensando
ultimamente. Os paradigmas de nossa empresa já estão ultrapassados. Estamos
num novo século, num novo milênio, até! Já passou da hora de adaptarmos
nossos paradigmas à nova realidade do mundo, não é mesmo? Algo como uma
revolução paradígmica!
Paradigmática, senhor.
Paradigmática, que seja. E então, Afrânio, eu tenho ou não tenho
razão?
Sem sombra de dúvida, senhor.
E como poderemos fazer esta revolução?
Já que o senhor tocou no assunto, tenho algumas idéiasS
Fique à vontade.
Primeiramente, é preciso incutir na mente de todos os colaboradores da
corporação a nova realidade na qual estamos nos inserindo, ou seja, a
implementação prolixo-endêmica de novos e vaniloqüentes paradigmas.
Sei. E depois?
Estabelecido este objetivo comum, devemos focar nossas atenções nas
idiossincrasias que eventualmente possam aparecer, as quais têm um potencial
latente para desestabilizar nossas conjecturasS
Claro. Idiossincrasias, claro. Prossiga, por favor.
Pois bem, senhor. Em terceira instância, passaremos a atacar
lepidamente os eventuais pontos dissidentes que aparecerem em nosso solipso
microcosmo corporativo. Desta forma, poderemos sintetizar, ainda que apenas
sorumbaticamente, todas as idéias concomitantes com nosso macro-objetivo,
num movimento sinestésico que certamente culminará na implementação
rizofóbica da mudança nos paradigmas de toda a empresa, perpretando assim a
solidez e inocuidade de nossa imagem junto ao market share da corporação.
Perfeito. Simplesmente perfeito. Afrânio, meu velho, eu concordo com
você em gênero, número e grau. Não sei como a chefia ainda não te colocou lá
no alto! Com essa sua cabeça, você vai longe, meu rapaz! E digo mais: passe
essas idéias todas para o papel agora mesmo, porque o presidente vai querer
saber disso. E pode pôr no meu nome, que eu assumo.
Como quiser, senhor.