GERALDO PEREIRA

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Manhã de domingo

Bucólica manhã esta de um domingo qualquer, em tudo tropical. Mês de maio, mês das noivas, das mães e dos ventos, dos terços e das novenas. Velhas fruteiras do Rosarinho, mangueiras antigas de boas mangas, jambeiros e oitizeiros que se juntam e abrem os galhos em sincrônicos movimentos das despedidas medidas, nunca pedidas, de um final de semana gostoso, saboroso até. Na minúscula praça em frente os peões da construção estão fiando conversa, matando o tempo do lazer fora de casa. Ocupam os três únicos bancos, mas cedem lugar à figurante feminina que chega, se aconchega e vem compor a cena desse espetáculo sem roteiros. De longos cabelos pretos, estirados e viçosos, penteados a óleo, faz as vezes de interprete da sedução nessa encenação de ocasião. O moço que passa com a gaiola na mão aprisiona sonhos ou vai encarcerando devaneios e assim, com o imaginário contido, restringe as fantasias e inibe as divagações.
O vagabundo aproxima-se da praça a passos lentos, como se estivesse calculando distâncias, mesmo conhecendo na palma da mão esses entornos. Escolheu um dos bancos e estendeu no encosto o paletó surrado, sentando-se em seguida, não sem antes acomodar ao seu lado a caixa de leite cheia de revistas. Abriu uma dessas e passou rapidamente as páginas, detendo-se, aqui e ali, numa foto qualquer, sem que lhe importassem os textos. Retratos da sensualidade feminina à vista de um homem como outro qualquer, diferenciado, apenas, pela condição humilhante do analfabetismo, que impede a cidadania. O cão ajeitou-se no chão, abriu a boca preguiçoso, fechou as pálpebras, jurando fidelidade que tantos não conhecem e quase ronca. O passante, que empurrava a carroça repleta de latinhas usadas, com o filho a lhe ajudar no ofício, decidiu parar e descansar. Tirar um deforete, diriam os antigos!
Cumprimentaram-se e um diálogo nasceu! O nômade falava e gesticulava, argumentando com segurança, explicando as suas idéias e os seus ideais. O interlocutor de ocasião retrucava o quanto podia, discordando, então, do pensamento alheio. A criança, absorta, acompanhava os dois na conversa, sem compreender bem de que falavam e o que discutiam. Não houve acordo e o moço forasteiro se alevantou, virou-se para o menino e fez o gesto universal, tocando a têmpora com o indicador da mão direita: É doido! E seguiu em frente, voltou à faina da reciclagem do alumínio, garantindo a féria. Outra vez o homem errante abriu uma revista, folheou com a mesma rapidez e se deteve na visão da nudez! O menino de rua, cheirando cola, quase senta no banco, não fossem os latidos do cachorro. O cavalo que passou pachorrento, como cabe ser aos equídeos, nem ligou para os dois, mas por pouco não provocou um acidente grave, não fosse a precisão dos freios.
O prédio em frente vai se compondo aos poucos, tijolo por tijolo, parede por parede e andar por andar. Acolhe no quarto pavimento os peões do interior, tangidos da cana-de-açúcar, largados da bagaceira. Em baixo, o vigia vem atender à porta a mulher que bate e toca a sineta. É a esposa a conferir destinos! Não se abraçam e nem se tocam, não há afagos e nem afetos, somente a troca de palavras, que se tornam inaudíveis nos ares da rua. No edifício ao lado a festa já começou, os músicos tocam saudosos acordes de orquestras românticas, mas fazem, em seguida, outra opção. Há uma cantora entre os presentes, mulher cinqüentona, ao que parece, a entoar Bandeira branca/Amor/Eu quero mais/Pela saudade..., para depois preencher o mundo com a maviosa letra que Nelson Gonçalves consagrou: Minha normalista linda/Rapidamente conquista/Meu coração sem amor... Resgate, por certo, de perdidos e encantados pretéritos!
E a hora vai passando, porque o tempo não pára, sequer em momentos assim, de enlevo d'alma! Os ponteiros se abraçam e despedem a manhã, comemoram o nascer da tarde e anunciam que a noite vai chegar e outro dia surgirá, recomeçando o tudo. O doidinho da rua há de voltar e declamar a agourenta rima, para desespero dos peões: Se você cair!/Não vai se ferir!/Nem ficar em pedaços!/Estarei aqui para segurá-lo nos braços! Ouvirá o que não quer e outra vez gritará a plenos pulmões: Se você cair!...


Um Recife do antes

Eu conheci o Recife dos meados do século XX! De sobrados e casarões, de terreiros enormes, nos quais frutificavam mangueiras de saborosas mangas, jambeiros de copas largas e touceiras da melhor banana, onde se criava a galinha gorda e poedeira ou o caranguejo cevado em velhos garajaus. O Recife de ruas e de ruelas, das famílias reunidas nas calçadas fiando conversa; das novas avenidas servindo de passarela à juventude em flor, nas incursões vespertinas ao centro da cidade, para o "footing" de que falavam os antigos ou para um filme qualquer nos cinemas das elites. Da beira do rio bem cuidada, bem acabada em longas muretas de cimento, de pronto apelidadas de "Quem-me-Quer", nas quais sentavam moiçolas casadoiras para um flerte noturno com os estudantes do secundário, alunos do Nóbrega ou do Marista, do Salesiano ou do Padre Felix.
Um Recife dos bondes cortando os caminhos, pra lá e pra cá, levando a gente trabalhadora ou trazendo de volta meninos e meninas do grupo escolar. Dos ônibus da Pernambuco Autoviária Ltda, devidamente, equipados com rádios de comunicação, para perplexidade geral e irrestrita dos passageiros da época. Dos automóveis importados da granfinagem, conduzindo o pai e a mãe, os filhos, também, além da avó e das tias solteironas às compras na Imperatriz ou na rua Nova. Das bicicletas e das motocicletas, as primeiras reservadas ao proletariado e as outras à distração de burgueses empedernidos. Das carroças de cavalo sujando os passeios, às vezes adaptadas pelos mascates à venda diversificada das miudezas de casa, anunciadas pela barulhenta matraca, dos agrados da irreverente garotada.
Cidade das mercearias espalhadas em cada rua, quase, expondo mercadorias da cozinha regional, cobradas ao final de cada mês, conforme as anotações em caderneta apropriada e para tanto destinada, de capa dura nos começos, mas de espiral e bom papel, em seguida. O feijão e a farinha, o arroz e a carne de charque, o bacalhau, de que se serviam os pobres e o fígado de alemão, com igual destinação social. De farmácias que davam plantão e se prestavam, também, aos encontros de fim de tarde da gente de terceira idade, velhos que não eram velhos. De antigos telefones no fundo desses estabelecimentos, com um bocal muito grande e muito largo, no qual o interlocutor gritava, a plenos pulmões, as sentenças da ira ou as manifestações dos amores, enquanto a assistência de ocasião ouvia e cortava a seda da hora.
Lugar de brincadeiras preenchendo as manhãs e enchendo as tardes, peladas no calçamento, com bola de meia, tantas vezes ou com o produto mais moderno, popularizado, então, de borracha ou de couro. Barra-bandeira e pega-soltou, academia e bola de gude, a pipa solta no ares, com o nome de papagaio, como se chamava naqueles antanhos, distantes anos do lúdico no silêncio do esconde-esconde ou na lamuriosa loa: Eu sou pobre/Pobre/Pobre/De marré/Marré/Marré... O velocípede antecipando os dias e a patinete alvoroçando os outros, os patins de rolimã deslizando nas calçadas e fazendo um ruído de ensurdecer as avós inquietas e as tias impacientes com as peraltices infantis. A bicicleta de boa marca chegando como prêmio, contrapedal ou com os freios de mão ajustados à altura das rodas e das jantes.
Recanto de outros encantos, de moças passando e passeando, na ida para o colégio ou na volta das aulas e dos recreios, deixando nos ares um rabo-de-olho qualquer, incendiando corações ou acendendo a fogueira das paixões. Rapazes imberbes, quase, nos ritos e nas liturgias das iniciações e dos amores. Casais de mãos dadas ou enlaçados, nunca inteiramente abraçados, ósculos roubados nos carroceis dos ares. Dores, tantas vezes, nas feridas das rupturas. Lágrimas verdes ou azuis, como disse escritor de boa pena, de tonalidade castanha ou de cor mais fechada, o preto. Lágrimas sem cor, descoloridas, na verdade, pelas decepções. Prantos contidos e choros convulsos!
Eu conheci o Recife dos meados do século XX!