FILIPE GONTIJO

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Língua lânguida

Essa faculdade sempre foi uma bela de uma porcaria. Cerveja quente, pirralhas magricelas e moleques fedendo a maconha. E essa música, toda igual, quem compõe e quem ouve um lixo desses só pode ser drogado. O pior é
que os malditos alunos fazem essa festa desde que eu era garoto, aliás, foi numa dessas salinhas sujas que perdi minha virgindade, já era professor na época. Mal aprendi a usar o meu, já fui obrigado a parar.

Que roupa horrível Madame Lili, e pensar que tu foste a musa de várias de minhas seções masturbatórias quando aqui ingressei. Ao invés de dizer isso, levantei as sobrancelhas simpaticamente, afinal, gorda e asqueirosa ou não, aquela porca um dia fora minha professora.

A conversa com Madame era suja e cheia de duplos sentidos, "tá difícil encontrar algum lugar para sentar", a vadia parecia ironizar meu ineficiente instrumento. Nunca entendi porque ela faz questão de vir falar comigo, e na frente de todos, parece querer que eu faça como os outros professores, termine a noite num muquifo de sobreloja. Há quem diga que come puta por ter certeza de que ela vão embora quando acabam o serviço, sem enrolação, romantismo e, principalmente, beijinhos. Desculpa, pura desculpa, aposto que sentem tesão em comer puta, são casados com umas velhas frígidas que não correspondem às expectativas sexuais e estéticas, com as putas se consideram machos novamente.

- Oi, professor.

Como era gostosa a franguinha, Essas meninas provocam demais, usam a calça no limite, segui-a até a porta do banheiro aonde entrou. Há alguns anos atrás ela teria me seguido, mas hoje, ninguém respeita o professor, acham que somos seus empregados, derrotados, profissionais que o mercado recusou, e, depois que saem daqui, dizem que aprenderam na prática. Conto nos dedos os colegas que conseguem faturar alguma aluna.

A ninfa não saia do banheiro, e mais uma vez tive que esvaziar a sacolinha, o que me levava ao estado depressivo. Anotei na agenda que carrego no bolso, "encontrar cocotinha".

No caminho para casa nem o jazz de Charles Mingus me fazia relaxar, decidi ligar para a professora Lili.

-Alô? Lili? Te acordei?

Sempre acordava a porca com a tríade pergunta, e ela sabia bem o que eu queria. Quando cheguei na Colina (com o salário merreca que me pagam, não dá para morar em outro lugar, senão no apartamento pela universidade, alí desponibilizado para mim), a professorinha já estava na minha porta com seu
respirar bufado que aumentava de intensidade conforme eu me aproximava.

Aquela noite lambi toda a superfície rosada e cheia de dobras que era o corpo de Lili. Ficamos horas envolvidos com nosso joguinho sexual. Na manhã seguinte, acordei-a com um verdadeiro banquete, bolo de chocolate, sonho, misto quente e vitamina de abacate. Ela sempre repete a mesma frase, com a boca cheia e catando os farelos na cama:

-Cada vez que fodo contigo, engordo um quilo.

Espero ela acabar o banquete e vou dar a minha aula das oito, todo o cuidado com a sacolinha, ninguém pode perceber que a carrego, a vergonha que passo desde a operação me deixa cabisbaixo, mas não me torna um merda. Devem me achar corcunda e velho, esses moleques. Liberei a turma mais cedo e fui para minha sala fumar e coçar.

Mal tinha acendido o primeiro cigarro, a garota da festa apareceu. Veio pedir aulas extras. Não sei de que curso era, tanta volúpia não passaria despercebida se fosse minha aluna. Com certeza ia ensiná-la a matéria que queria aprender.

A semana toda recebi, em meu apartamento da colina, a visita daquela formosura. Nos primeiros dias ela fazia perguntas completamente estúpidas e eu explicava de forma rebuscada, ela não entendia nada, nem eu, mas continuávamos com a farsa. Com o passar dos dias ela começou a se abrir, fumávamos um maço de cigarro e conversávamos amenidades. Na verdade ela falava muito mais que eu, sempre gostei de fazer o tipo misterioso, além de estar concentrado nos peitinhos, que faziam questão de mirar a minha face cada vez mais curvada sobre eles.

-Professor, posso lhe fazer uma pergunta?

Tive certeza de que ia perguntar há quanto tempo eu não degustava tetinhas em forma de suspiro. Voltei a olha-la no rosto e, arrumando os óculos, fiz meu "olhar de mestre".

-É verdade aquela história da operação? Não atrapalha?

Pensei em descrever as façanhas que a língua de um aleijado é capaz, mas preferi manter-me em silêncio, a garota era obviamente lésbica, e entendia bem de língua. Na mesma noite descobri que era bissexual, provei os doces suspiros e senti o suor de suas coxas de franguinha. Atendi com muito gosto aos desejos masoquistas da garota, espanquei-a com minha agenda e todo tipo de material escolar que encontrava, o condomínio iria abaixo se ela continuasse a gritar, então enchi sua boca com folhas de caderno. As coisas que mais reclamei, aqui na UnB, sempre foram, barulho de vizinhos e falta de material nos laboratórios.

-Alô? Lili? Te acordei?

Ah, como é gostoso ver a porca encher o bucho.


Piston à mineira

Que cidade era aquela? Ah, Cambuquira. Já tínhamos passado por quase todas as cidades de Minas Gerais, mas, sem dúvida, naquela o público era mais agitado.

O contrabaixista novato estava fazendo bonito, enquanto eu caprichava no trompete, que naquela época era piston, mas não importa, aquele dia foi memorável. 

No intervalo, um dos companheiros veio me avisar: a moreninha com quem eu estava flertando percebera meu olhar. Achei que até o final da noite eu a levava para passear.

Continuamos a tocar, eu já não via mais nada, só aquela garota em um canto parada, sempre ao lado do pai, que me parecia ser um figurão. O velho não via a filha me olhar, e se visse eu ia tomar um belo pescoção.  

Resolvi chamar a atenção. Fui para a frente da orquestra. Pisquei para a bela, que estava fantasiada de índia, dessas de parar caravela. O maestro já ia terminar quando puxei “garota bossa nova...”, olhei para o baixista e comecei: (performance com trompete). 

Na época isso era música de ralé, mas quem ligava? A orquestra explodiu entre os solos de piston e trombone.

Foi quando vi a pequena sendo arrastada pelo pai. Pois é, não pensei duas vezes, virei a última taça e fui espiando os dois até em casa.

Procurei um camarada e me informei. O velho era um desses espanhóis que acredita ser o rei.

Um alfaiate amigo meu disse que aquela eu só ganhava se me alinhasse. Mandei fazer um terno caprichado no arremate, com um corte bem moderno e botões cor de tomate.

Saí dali direto para a casa do velho, dei o cheque-mate. Pedi a mão da menina sem nenhum bate-rebate.

A tia dela fez muito gosto, mas o pai perguntou desde quando músico era profissão. Depois quis saber da minha família, e quase teve um desmaio ao saber dos doze irmãos.

O velho me pôs dali pra fora sem nem saber que meu pai era malandro e minha mãe filha de ladrão.

Mas como um touro, sempre fui muito teimoso. Já que não era no matrimônio, era no bom e perigoso.

E o pai dela lhe arrumou um casamento com um cara violento, um animal sem sentimento.

Agora lhe digo que aquela foi a melhor entre as comadres que já tive, que o amor sem casamento vive e que o marido da boneca, um respeitado capitão, teve um filho com um estranho gosto pelo pistão.