|
FERNANDO LUSVARGHI |
|
Esse umbigo é seu, e este é meu Quais são as palavras que sufocam a minha alma!?! Acorrentado. Na liberdade latente que teima em infringir as dores da ambição; sou pequeno rato, entocado, a espreita do mundo para me fazer "gente". Ter direitos, ter deveres... partilhar o queijo. Queijo - delícias - quantas imagens fiz para ti em meu destino. Idealizadas, e não concretizadas. Nunca pude degustar o seu sabor, a pressa e o medo me deram a oportunidade de estar vivo, e não degluti-lo nas intempéries... sempre foi assim. Maldito gato, humanos, venenos. Cerceiam-me do que deveria ser e não é. Mas, a quem reclamar!?! O Todo-Poderoso está ocupado e diz que é "Karma", santa calma necessária. Já os ouvidos cotidianos não alcançam a minha compreensão; santa inveja, que nos isola e nos rebaixa às frustrações dos que não se suportam. Pensei em reclamar com alguém mais poderoso - fui ao espelho e, não tendo a reflexão do reflexo, vi a imagem do ser em mim e disse: "Não seja mais um rato. Se é para ser, lute pelo interno ou pelo inferno. Desejos e desejos povoaram as almas dos fantasmas, zumbis, dos mortos ainda vivos, que não souberam se libertar de si". Olhei para o céu, senti o infinito. E dos relatos sempre descritos que dizem: "Se pudesse voltar a viver...." ou "viverei a vida como se este fosse o último segundo". Cheguei a importante decisão, sou a pessoa mais importante do mundo e posso ser dono das minhas próprias regras - respiro, rapidamente e com a voracidade da inconstância - posso mudar isso e ser sereno (é o que desejo). Posso traçar minha reta e seguir em curvas (sou livre para sair pela tangente, e assumir a minha imperfeição). Posso viver alegre e me sentir livre no mundo que tende a me prender.... famílias e pessoas que adoram nos controlar - dirigir o nosso mundo, para se esquecer do próprio. Pobres mortais, que vivem na mesquinhez da fofoca, e não vivem os "seus" segundos. Descobri, olhando para o mundo, que este ora é claro e sempre se torna escuro. Estou lúcido. Não serei por muito. E nesse momento sou frágil as lanças armadas, preparadas na intervenção. E o cérebro inconsciente guardou os medos, o respeito... e hoje pede liberdade. Agredi o mundo, não foi a melhor forma. Chorei e deixei-me a morte, que não me quis levar. Encontrei a coerência, diferente do que achava ser - antes nazista, coercitiva - hoje aberta e amiga. Na liberdade de errar, sem culpa, sem pecado. Pecado, cujo temor nos paralisa as ações, nos leva ao conformismo... nos deixa frágeis para a vida que exige a luta, a guerra. Escolhi o caminho da paz. O que se enxerga na consistência da vida. Se viver mais, fizer mais, também errarei mais... e arcarei com mais conseqüências. Mas, serei capaz de viver se não tentar!?! Fazer menos, me deixar largado, na impressão da perfeição, afinal, errei menos. Mas na forma que traz a prepotência e o orgulho que segregam as pessoas. Escolhi viver na paz do erro. A que conforta pela dor do tentar, e exige a ação calada. Não o marasmo ativo do "apenas" falar. Deixem as pessoas julgarem a "propaganda" dos outros, prefiro, a minha verdade. Só essa me liberta. Minha mãe me acordou. Alta madrugada, o relógio indicava. Com a esperança de quem ainda crê que o Brasil é o país do futuro. Ela pegou a bandeira, preparou a pipoca de microondas e o tradicional cafezinho. O Oscar mais parecia um jogo de copa do mundo. Pelo menos nesses, a Itália sempre foi nosso freguês. Brasil campeão 70 e 94. Lágrimas para os italianos. Mas ninguém se esquece da copa de 82 e muito menos do "maledetto" Paolo Rossi. Eu era criança, e chorei copiosamente pela nossa desclassificação. E descobri como a terra dos meus antepassados poderia me trazer tristes recordações. Com a característica má-vontade de quem estava mais feliz nos sonhos. Virei de lado, meti a cabeça sob o travesseiro e disse: "Pô, mãaa..... são duas da matina". Sotaque paulistano, emprestado pelos avós italianos. Ela continuou a bater na parede, como fazia quando eu e meus irmãos éramos crianças para nos acordar. O sangue ferveu. E obviamente não fui muito educado com a "mamma". Mas me levantei para ver quem iria ganhar o Oscar de melhor filme estrangeiro. Sem ufanismo ou pessimismo..... ok, ok....assumo.... torci para o filme italiano!!!. Assisti duas vezes no cinema e assistiria mais vezes. Quando sair a fita em video, vou comprar. Perdão para o meu ato, não o espero. Afinal, o povo quer realidade ou fantasia!!!. A resposta é sua..... mas, para mim, o filme brasileiro é muito dolorido. Miséria. Uma trambiqueira arrependida. Uma retirante morta. E um "novo" moleque de rua. Pessoas analfabetas, crimes... assassinato, venda de crianças para a utilização dos orgãos e um pouco de humanidade no sertão brasileiro, onde tudo falta, menos a esperança. A mesma que a minha mãe tinha em que o nosso "Produto Nacional" vencesse...... A vida é bela. Como queria acreditar nisso. A crise está brava. Desempregado, vesti o sonho italiano. Não desejava sentir ainda mais o peso da miséria...... Da face do Brasil que deixa milhões desiludidos. Para ser mais exato, 10 milhões de pessoas na mesma situação que a minha. Ou pior, com família para sustentar..... com fome..... e sem teto para se abrigar. Corrupção... Existe tanto lá, como cá. O Sul italiano é o nosso Norte, Nordeste. A perfeição não existe. E o filme italiano retrata de forma poética a pior “hecatombe” do século. A perseguição e execução de milhares de judeus. Mesmo que seja em um cenário irreal e com uma história fantasiosa. Benigni, pelos criticos, foi considerado um palhaço e a sua obra, deslegitimada. Diziam esses: “Central do Brasil é mais cinema, é mais arte”. Quem pode julgar o que é arte.... Escolhi pela fantasia. Culpado ou não pela minha escolha. Podem julgar, mas a dor que sinto não pode ser repartida.... A verdade dói e a ilusão não é mentira, o sonho pode vir a se concretizar, então, porque deixar de sonhar. Quando o Brasil for capaz de sonhar, a realidade vai ser mais bela.... menos crime, menos pobreza e o povo dirá orgulhoso: "Sou brasileiro”. Quem sabe um dia diremos que a justiça aqui não falha..... que os políticos são honestos..... que o Brasil é uma terra pacífica, sem crimes. Transformando todos os estereótipos em uma nova realidade. Esperanças. Como na magia, momentos belos e eternos, que o filme italiano passa. Onde nada é impossível. Onde o conto de fadas se torna concreto. E o sonho é mostrado no meio da dura realidade, não perdendo a dimensão de ser um sonho. Assim muitos gostariam que fosse a vida. Afinal, quem será mais palhaço!?!. O italiano sonhador. Ou o povo brasileiro após tantos planos e promessas. Plano Cruzado, Collor, Real..... as moedas mudaram... nasceram e morreram esperanças. Estou desempregado e não esqueço. Ser feliz no meio da crise. Da batalha. Quero ser o palhaço. Morrer na guerra nutrindo a esperança de existir um mundo melhor. Fazendo nascer nos meus filhos, netos.... a esperança, que morreu em mim.... de que, um dia, o Brasil será o país o futuro. Mas, se não tivermos essa esperança..... não será a Itália que irá nos golear, que irá ganhar..... Perderemos para nós mesmos, por não mais acreditar. O Brasil é um país bom para os jogadores de futebol. Num dia, miseráveis... no outro, milionários. Bom para os corruptos e desonestos. Bom para músicos "populares". Bom para as "bundudas"..... Os universitários estão indo para a pobreza. A classe média está acabando. Meu Deus, qual é o “critério” para poder vencer na vida!?! Cheguei na sala, minha mãe já estava terminando o segundo saco de pipoca. E nada do resultado. Mais comercial..... e ansiedade. Até entrei no clima da minha mãe, afinal, era um orgulho disputarmos o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e Melhor Atriz. Mesmo perdendo. E após os “chatérrimos” comerciais...... chega o momento.... a Sophia Loren, italiana, vêm anunciar o prêmio..... sinto o cheiro de maracutaia no ar. E o Oscar vai para..... suspense..... a “mamma” cruza os dedos. O terço fica encolhido nas mãos diante de todas as mandingas. As velas acesas no altar doméstico. Apelou para todos os santos. E haja santo para dar o prêmio para o Brasil. E o Oscar vai para .... “Roooberto.....A vida é bela!!!!”. Minha mãe desata a chorar. Eu que achei o outro filme melhor, senti um pouco dessa mesma decepção. Brasileiro gosta de sofrer.... já sabiamos que estava perdido.... mas novamente a esperança estava lá. Mania de brasileiro é ter esperança.... As lágrimas pararam de correr. Minha mãe começa a reclamar: “Que merda de vida.... sempre perdemos.... todo ano é a mesma coisa”. Para ela a vida não estava tão bela. Mas ela lutou.... foi guerreira na fé. Na fé que está em falta. Fim de milênio. Fui para a cozinha fazer mais pipoca. Nada melhor para consolar a velha "mamma". E ela, mais calma, foi ao altar.... não para se queixar do poder dos santos.... mas por ter mantido novamente viva a esperança. Percebi a sua atitude e cheguei ao lado dela. O Brasil pode até não ser o país do futuro, mas o meu futuro depende desse país. E rezei com a "mamma".... para que um dia tudo dê certo. Quando eu estava me dirigindo a cozinha, ela disse: “Que a Itália nos aguarde na próxima copa.... nos vingaremos de todas as derrotas.....”. |
|
|