FAPOLHAS

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À Eden do Pugilato

Pedro, responsável pelo sustento de sua família, vai às ruas? é verdade que pouco conseguia, mas pouco mesmo era o que ele conhecia. Abundante era o que Lucília lhe oferecia, que em troca de suas frutas, lecionava-lhe poesia. Este estudo é o que mais a agrada, pois possui uma visão lúdica de tudo, o que é condenável. Pedro é biologicamente infantil, porém psicologicamente maduro. Ao menos seu instinto é um simulacro de mancebo. Ele verbera a fantasia de criança, tanto na sua pugna diária, como no mimetismo à dança, antes de sua primavera. Tudo se desgrenha como numa busca ao porvir, erguindo à Pedro: vendilhão das cítricas e pomar, como nas feiras, só que por aí.

Soa a campainha.

- Bom dia dona Lucília, trago peras, uvas, maçãs, bananas...o que a senhora vai querer hoje? - pergunta o pequeno rapaz.

- Ah, que alegria em vê-lo! - responde Lucília. Deixe suas frutas no canto e venha comer do meu almoço, pois vejo que deva estar faminto - conclui ainda.

- Não é para menos, lá fora o sol arde a pele a caminho do seu destino, que pela quantidade de frutas, não é curto! Sem demonstrar constrangimento algum ele agradece o prato de comida mas, curioso, pede que lhe responda a uma pergunta:

- O que é isto aqui? Comida? - comparada a um beija-flor que possui uma paz profunda ela responde como que pairando no ar, sorrindo:

- Claro, meu querubim, esta é a comida dos botos, dos golfinhos...milenar segundo os chineses. Seus olhos brilham a cada palavra da moça. Ele descruza seus braços erguendo-se à ela, como que encantado. Ela ainda complementa:

- É uma sopa. Sopa de sardinhas. Você sabe o que é uma sardinha? Ele responde rapidamente que trata-se de um peixe e que é acostumado a pescá-lo. Explica ainda que, no ato da pesca, entra na margem do mar e caminha até um banco de areia ficando submerso até o pescoço. Segura em uma das mãos uma rede, que é amarrada numa bóia até a madrugada seguinte, horário em que a maré favorece a estatura prematura do menino.

- Sabia que você é muito esforçado para sua idade? Por obrigação ou não, acaba por aprender sobre assuntos distintos, comenta Lucília. - Veja, vou lhe ensinar a olhar o mundo por outros olhos. Olhos de poesia... Você conhece metáforas? Estampando no rosto uma satisfação curiosa e ao mesmo tempo que prazerosa, serenamente, a respeito das novas palavras nunca antes ouvidas, seu corpo fala por si. Ela graciosa e encantadora exala o aroma de quem é conhecedor dos segredos do mundo. Ele, como num ritual, relaxa seus poros entregando-os ao voluptuoso. Ela diz:

- O poeta chileno Pablo Neruda, as têm de montão. Mora ele numa praia...

- Na minha praia não tem não! responde o menino.

- Na minha praia tem um mar, e nele além de peixes eu sei que também tem berbigão. Dizem até que tem tubarão, mas eu nunca vi não! Ela maravilhada com a imaginação dele, toda envolvida e entregue, explica:

- Metáforas são palavras usadas pelos poetas para fazer as poesias.

Lucília sorri ao perceber que o menino está enfeitiçado por ela, que o acaricia no rosto retomando suas palavras:

- O poeta tira suas poesias, metáforas e inspirações...lá do mar. Elas são como fantasias, iguais àquelas ao qual vestimos.

- Eu nunca vesti não! Só se no meu mar o tubarão anda vestindo essas fantasias...a senhora acha que ele também sabe fazer poesias ou está querendo comer minhas sardinhas? Ela solta o esqueleto por um momento e se restabelece sorrindo ao perceber a espontaneidade do encetado, que completa:

- Ah me desculpe, quase esqueci. Quem gosta de comer as sardinhas são os golfinhos e os botos, não é? E não o tubarão! diz ele sorrindo inocentemente. Lucília por sua vez, entrega-se ao lirismo de Pedro, enfeitiçada por sua imaginação.

- Você é um poeta - diz ela - suas palavras são essas fantasias, e você embora mirim, vem...venha a mim. Ela, com a colher, pega a sopa de sardinhas e leva à boca do menino. Seduzida pela inocência em suas palavras a razão é abandonada. Ela delira enquanto ele engole o alimento:
- Conte-me mais sobre o que há no seu mar.

Ele mira seus olhos aos dela, como fados que refletem no mar numa noite de luar. Seus lábios se encostam. Sobe a maré. As águas se encontram. No nadar dos peixes, das sardinhas...ausentam-se na alcova. Lá...o vento sopra o lençol de areia que encobre aos tropicais...flagrados pela inocência e acariciados pelas pétalas de um lírio, ainda que travor...dali, surge um Dali em zangão, acompanhando o escorrer do néctar até seu destino: a flor púrpura, invadida...no mergulho dele...aos sussurros dela...que geme, geme banhando-o.... Ao estampido selvagem do puído, na pedofilia, no quixotesco.