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FÁBIO JOSÉ LUIZ |
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Apocalipses apócrifos I - ENCONTRO NO MEIO DA TARDE Tudo estava dourado. O sol forte das três horas de uma tarde excepcionalmente quente e úmida percorria lentamente o céu sobre o centro da cidade. A chuva fina que caíra sem esconder o sol, alguns minutos atrás, já subia do calçamento de pedras portuguesas na forma de um vapor denso que se misturava a cada um de nós. Imaginei que talvez estivéssemos imersos no mesmo caldo primitivo que deu origem à vida, num passado remoto, em algum pedaço sossegado e quente de nosso mar ancestral. De fato, para onde se olhasse havia, em cada curva seminua, vida em potencial. Em cada passo...uma ginga, um espasmo... em cada toque, um torpor...um beijo inesperado! Resolvi percorrer a Praça XV: um caldeirão de sopa humana! Parei num dos bancos que ficavam acima do antigo coreto, bem defronte à Catedral. As plantas colaboravam para tornar um pouco oculta a porção mais crua da praça. Do alto das torres, por trás das copas das árvores, uma simpática senhora chamada Igreja Católica abençoava de longe seus filhos amados: "crescei e multiplicai-vos!". Era como um afago quente dessa experiente senhora, a quem todos respeitávamos; mas ela era discreta e logo se afastava, para não constranger ninguém. Olhei
em torno de mim para apreciar o movimento, antigo costume do gênero
humano. Às minhas costas, duas bonitas prostitutas conversavam
sentadas em bancos mais distantes. Cada uma ocupava um banco,
estando lado a lado e voltadas para mim. Então, uma delas, que
usava um vestido longo, levantou os pés e apoiou-os um em cada
banco, sob os risos da colega que notou que eu as observava.
Pela fenda do vestido, nossa toca original! Não posso dizer que
me espantei, afinal tudo isso combinava com todo o contexto; a
vida explodindo em flor, por toda a parte, a 37,5 graus centígrados
de temperatura - e essa marca admirável, registrada
imparcialmente no relógio digital do largo da Catedral, não
podia ser simples coincidência... nas
orações que vêm da igreja; que
lugar abominável...
Tenha sempre certeza... De que sempre há dúvida I - Capítulo O Começo Por
diversas vezes, coisas tão extraordinariamente boas acontecem
em nossas vidas que nos sentimos totalmente perdidos e
virtualmente apavorados, pois temos a certeza absoluta de que
encontramos finalmente o que procuramos a vida inteira; mas ,
pela excelência de nossa capacidade humana de pensar, tratamos
de repudiar essa certeza pois afinal, que diabos, somos seres
humanos e não podemos aceitar que tudo seja tão perfeito, isso
seria ilógico, inaceitável. Então, damos início mais que
rapidamente a um de nossos infalíveis planos de sabotagem de nós
mesmos, sendo que esses planos, em situações normais, são por
demais complexos envolvendo necessariamente, não apenas uma,
mas duas pessoas ; às vezes até mais. E é justamente sobre
isso que trata essa história verídica, de um meu muito amigo,
fictício por sua vez. II - Capítulo A Festa Até
que um dia desses, numa dessas festas que acontecem por aí na
casa de alguém que você nem conhece , dessas festas de
sexta-feira que a gente acaba parando nem sabe como. Pois bem,
foi aí que o camarada, meu amigo fictício, começou a entrar
bem. III - Capítulo Flashback Pronto,
não levaria muito tempo.. Era imprevisível, mas provável,
nosso jovem amigo fictício logo estaria declarando àquela
garota, que ele mal chegaria a conhecer, que era ela aquela
mulher a qual esperava há tempos e que seus sentimentos estavam
em estado de extremo torpor por sua causa, era uma loucura
aquilo, eu mesmo nunca vira nada tão perfeito, bem... na
verdade, perfeito até o momento em que ela disse talvez. IV - Capítulo O Baile Noite
de sábado... um baile de formatura... em um dado momento o
rapaz tira a moça para dançar: -
Pena o boi não ter vindo né? E
assim o bate-papo toma prosseguimento, no entanto dali a alguns
momentos, meu jovem amigo experimentaria uma sensação estranha
e incompreensível, um aperto enorme na garganta e na consciência.
Tomou imediatamente as devidas providências: Afrouxou o nó de
sua gravata de seda vermelha com estampas, que por sinal estava
muito bem amarrada com um nó inglês de precisão invejável,
(jamais conseguira fazer nó igual antes. É... era o destino
batendo à sua porta mesmo) e estava resolvido o problema do
aperto na garganta. Quanto ao aperto na consciência : Ele
mandou às favas a consciência, porque afinal ninguém é de
ferro (principalmente dançando bem junto de tal beldade) e
conclui : E daí?! Eles nem estavam namorando mesmo. - Uma pena todas as garotas interessantes acabarem ficando com meus colegas e não comigo! Na
verdade não foi muito sutil, mas o que esperar do rapaz a uma
da manhã? V - Capítulo A Volta Na
sexta-feira fatídica que se seguiria, foram todos dar uma
volta, a convite da tal garota e uma ou duas amigas, agora lá
estavam eles de volta: a garota, o rapaz tranqüilo, o quase
namorado da garota e alguns amigos. Chegam em frente ao prédio,
em alguns minutos ele se vê sozinho com a tal garota. E agora?
Fazer o quê? Algo estava sendo conspirado silenciosamente entre
os dois. Bem... na verdade... silenciosamente só da parte dela
pois meu amigo fictício não se conteve e desandou a falar
sobre tudo que lhe veio à cabeça, tentando talvez,
inconscientemente, conhecê-la melhor. Aí já haviam se passado
mais ou menos três horas. Lá pelas tantas, mais ou menos às
quatro e meia da madrugada, fazia uma hora que ela havia se ido,
ele refletiu um pouco, talvez nada, acho sinceramente que ele
agiu por impulso pois é humanamente impossível alguém
decidir-se sobre algo tão importante em uma hora, a não ser
que já estivesse com todas as idéias bem ordenadas , e
conhecendo esse meu amigo fictício como conheço, sei que ele
é capaz de ficar horas soluçando em vão quando não consegue
ordenar as idéias, e não tiro o mérito do rapaz, a ordem é o
princípio de tudo. VI - Capítulo O Churrasco Houve
um churrasco no dia seguinte,(alguma vez eu já mencionei que a
intenção do indivíduo, meu amigo, era fazer somente a
faculdade e ficar em paz? Então, agora me responda: O que ele
tanto faz em festas? Essa juventude de hoje está perdida
mesmo!) o churrasco foi organizado pelo pessoal que ele já
havia conhecido, um pessoal bem bacana até por sinal, e nesse
tal churrasco ele acabou trocando algumas idéias com a bela
garota morena , na realidade foram muitas idéias, resumindo:
Ele chutou o balde e falou tudo o que sentia. Ela não deixou
por menos e logo emendou uma pergunta : VII - Capítulo Um Fim Prematuro Permita-me
um breve aparte meu amigo espectador. Você já se flagrou
odiando uma pessoa que lhe conta o final daquele filme
sensacional que esperava ver na semana seguinte e que agora
perdeu o sentido, pois você já sabe o final? Já? Pois bem,
tenho de lhe confessar que sou um contador compulsivo de finais
de histórias e que ao fim desta minha história verídica do
complexo casal fictício você irá perceber que eles jamais
chegaram a ficar realmente um com o outro pois foram
completamente tolos, deixando que seu belo romance terminasse
antes mesmo de terem dado chance à ele de começar de verdade.
Talvez tenha sido responsabilidade dele... talvez dela. Como
amigo de ambos, acho sinceramente, que tenha sido culpa dos
dois, pois não agarraram a chance que tiveram de viver um feliz
caso de paixão explícita. Isso não importa muito agora. Mas
deixe que eu lhes conte o que se sucedeu para que nossos
protagonistas tivessem tão triste fim: Epílogo O Brinco Alguns dias antes desse ele havia voltado a usar um de seus brincos (coisa dessa juventude de hoje!) e disse para si mesmo que deixaria de usá-lo tão logo deixa-se de gostar dela daquela maneira tão gritante. Pois bem, ele disse tudo o que tinha decidido à ela e lhe deu o brinco. Talvez torcendo para que ela chegasse a uma conclusão e viesse lhe devolver o brinco qualquer dia desses, antes que ele voltasse para casa, aí não teria mais volta. IX - Capítulo O Fim Até
a parte que eu sei da história, ela não voltou àquele
apartamento, pelo menos não para dizer: - Sim! Eu quero tentar
alguma coisa com você! |
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