Élio Camalle *** Que bicho é esse? ***

 


Foto: Drika Bourquim


por Carla Dias


 

*** Divagando sobre o Bicho Preto ***


 
Ainda estou com o refrão sambando nos meus pensamentos: “Nós, escravos de nós mesmos”. Somos, não? Escravos de padrões e de medos que são ancestrais às ditas modernidades com as quais comungamos. Sentimento não fica moderno? Homem não humaniza com o tempo das coisas? Afinal, não deveríamos aprender com a vida?

No desacato à falsa polidez, Élio Camalle solta o verbo e impregna de adjetivos instigantes o que se omite num meio-sorriso: viver, às vezes dói. Às vezes, encanta. Às vezes, amansa. Em outras: vai saber!

No palco, é irrequieto que só sua música poderia ser mais... E é! Na música, nas palavras, nos desafios: “Enfie o dedo no meio do olho, rapaz, / Da cara da sua mãe / Que nunca lhe deu respeito, / Que nunca lhe deu cartaz”.

Bicho Preto é seu quarto CD e chega repleto de uma poesia latente. Não há como ficar indiferente às suas sacadas: “Se você não me queria, / Por que foi que temperou / Com o sal da alegria, / Com o seu lápis de cor?”. Não dá pra passar batido: “Eu que não dava nada por você / Nem uma olhadela no metrô / Nem uma palavra, um clichê / Nem bom-dia no elevador / Eu que não dava nada por você / Nem a ponta do meu cobertor / Mas o amor é cego e pôde ver”. E ainda tem a música: batuques sincopados; languidez e melodias trançadas às alegorias. Há poder em duas vias nesse Bicho Preto: o poder de quem pôde, mas preferiu esperar e observar mais um pouco. E o poder de quem, logo depois da observância, pôde e fez... Música brasileira e de bom gosto, ainda que tire dos padrões o bom tom, que derrube as máscaras das respostas prontas pra matar fome de conformistas e dê aos súditos o carnaval dos sentidos. Élio Camalle enfia o dedo na ferida e, imbuído do talento que lhe cabe, faz música que vale a pena ser ouvida.

 

*** A vida ***


 

Cantor e compositor. Élio Camalle iniciou sua trajetória musical na casa de música brasileira do produtor Nilton D’Ávila. A “Boca da Noite”, em 1998, era disputadíssima pelos músicos paulistas. Neste mesmo ano, lançou seu primeiro disco, “Mágicas”, pela Dabliu Discos.

Oriundo de projetos musicais, estreou "Noturno", de Oswaldo Montenegro. Também integrou o elenco de "Brasil outros quinhentos", de Millôr Fernandes e cantou ao lado de Toquinho, Filó Machado e Roberto Menescal.

Com Luiz Gayotto, Madan e Kléber Albuquerque, idealizou e realizou o projeto "UmdoUmdoUm", que teve grande destaque no cenário da nova música, chegando a ser capa de vários cadernos culturais. O show, gravado no SESC Pompéia (SP), foi registrado em CD em 2001, sagrando-se o primeiro CD do milênio.

Em 2002, foi convidado pelo violonista Nelson Machado para uma temporada na Itália, apresentando-se no "Cantina Bentivoglio Jazz Bar", divulgando o trabalho autoral "Antes e Depois do Fim do Mundo", apresentando-se, posteriormente, com o baterista italiano Marco Zanotti em Portugal, Paris e Espanha.

Integrou o grupo "Clic Musical" ao lado das cantoras Daisy Cordeiro e Márcia Salomon, e o produtor e músico Fernando Forni. Show caracterizado pela mostra de composições em parcerias com Rafael Altério, Daniel Gonzaga, entre outros parceiros.

Em 2005, foi finalista do Festival da Nova Música Brasileira, exibido pela TV Cultura, com a polêmica canção "Sai da Cruz". Agora, trabalha no seu novo disco, “Bicho Preto”.
 


 

*** BICHO PRETO por MAURO DIAS ***


 
Então vem o compositor e lembra que preto gosta de branca, branco gosta de preta (e todos os vice-versas) e que o samba quer inventar uma nova raça _ basta que não sejamos escravos de nós mesmos e pronto, o mundo está redesenhado. Está lá, no Preto no Branco, samba vigoroso, de marcação puxada para trás, propondo coreografia em câmara lenta, faixa de abertura do quarto trabalho fonográfico de Élio Camalle (depois de Mágicas, Cria, Antes e Depois do Fim do Mundo e do coletivo Umdoumdoum_com Kléber Albuquerque, madan e Luiz Gayotto).

Chama-se Bicho Preto este quarto trabalho, e é obra de maturidade de um dos maiores talentos da música brasileira contemporânea. Paulista de São Caetano do Sul, Élio Camalle trabalhou em projetos escolares, juntou-se a grupos de teatro, viajou mundo e estabeleceu figura cênica extraordinária _ um bicho de palco, esse bicho preto, que toca um violão cheio de síncopes inimitáveis, canta sempre recriando a criação reinventora, morre e goza a cada nota, a cada palavra, cada pausa.

Élio assina letra e música de oito das quatorze faixas de Bicho Preto, que tem produção de Dino Barioni, além das participações especiais, começando pelas babel de Preto no Branco, com Patrizia Laquidara reproduzindo o sonho da nova raça em italiano, mais Kana, fazendo o mesmo em japonês e ainda Monique Maion, miscigenando o credo em inglês.

E segue o disco no samba sincopado Bicho, parceria com Léo Nogueira, samba das desventuras de um rapaz latino-americano que se vê sem um tostão no bolso. Quase como resposta, no quase-coco Xô!, o autor avisa logo ao caga-regra da oportunidade: "Enfie o dedo no meio do olho, rapaz / Da cara da sua mãe / Que nunca lhe deu respeito, / Que nunca lhe deu cartaz".

E, Estrangeira, (parceria com rafael Altério), a íngua pulsa na jugular e tranca a palavra que joraa sobre os paralelepípedos saltados do guri em desatino que busca luz no Chorando no Tempo, choro, naturalmente, faixa seguinte. Aqueles paralelepípedos e o guri em desatino são da letra da música. Já o reggae Bicho-Papelão mexe com os medos que são de todos nós como quem falasse para a criança medorsa (que ainda somos todos nós): "Acorda, Zé, não há nada aqui".

A bossa Pão e Poesia lida com outros medos, a alma fria de congelador do amante abandonado, Triste Figura (parceria com Léo Nogueira) avisa a Dulcinéia que seu cavaleiro foi atrás de outros moinhos. No roteiro cinematográfico do repertório,a pungente Nova Nagazaki recupera a esperança porque há um outro planeta para tal amor maluco e careta que sobreiverá à hecatombe.

No entanto _ e veja-se o filme que o disco ilumina _ o amante não dava nada por ela (na chula Cão Farejador), e a toada Vacas Magras (com Léo Nogueira, e participação vocal de Rita Braga) lembra à mulher amada, em linguajar caipira, que o amô tomém às vez seca. Já o samba Psiu! (com Adolar Marin e Léo Nogueira) faz o desagravo para todos os que o amor largou. E vamos em frente. Mas com calma, como mostra Arsênico, sambão delicioso em parceria com Zé Edu Camargo e participação especial de Celso Viáfora: "E você não vale o estrago do uísque / Não vale o gim, não vale o rum / Nem a dose de 51". Fecha o disco o samba funkeado Sai da Cruz, que fez furor no recente festival da canção popular realizado pela |TV Cultura de São Paulo. É uma condenação das atitudes passivas _ mas esta é só uma leitura, a primeira, talvez. Haverá outras no brado desaforado (e viva o desaforo, a palavra sem trava, a língua solta): "Jesus! / Chega de mirra, chega de chaga, / Desce da cruz! / Que nesse negócio / Ninguém vai entrar de sócio / Desce daí, Jesus!".

É assim que o poeta dá a volta e avisa que a vida segue. Bicho Preto é um disco vibrante, irrequieto, instigador, um trabalho para ser sorvido aos poucos - como tudo que excita o paladar estético, mostra seu gosto devagar, um tantinho de cada vez. Como a vida, passo a passo.



 

Site Oficial: www.eliocamalle.com.br  


 
COMUNIDADE NO ORKUT: http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=17764723