EDUARDO XAVIER

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Formigas

Quão apoteótico deverá ser o fim. O ponto final da história. Sem reticências. Sem prorrogações. Sem benevolência. Imagine a frustração de dois amantes que foram interrompidos pelo fim quando caminhavam ao orgasmo.
Lembra-se daquela prova de matemática que a professora arrancou de suas mãos quando só faltava colocar o resultado do último problema? Tudo porque o tempo já havia esgotado. Custava esperar? Foi meu primeiro contato com o fim. Fim do tempo. E os que por ele esperam? O que deve pensar uma pessoa que sofre com a vida? Aqueles que de algum mal sofrem e a vida nada mais lhes proporciona além de dor. Será que não perguntam porque a vida não é uma prova de matemática e a professora, carrasca, não a tira de suas mãos?
Deus espera que cheguemos a uma resposta? E se a resposta estiver errada depois de toda uma existência? E se a resposta receber um X, morreremos felizes? Ou será melhor irmos aos céus sentido-nos injustiçados porque, se mais tempo tivéssemos, chegaríamos a uma conclusão. Não! Ele não seria tão cruel!
Algumas vezes penso nas formigas que atravessavam a estrada do sítio, carregando folhas, e que sem mais nem menos foram levadas ao fim pela insensibilidade e pressa de meus pés. Não quero representar Deus a qualquer ser vivo. Se assim fosse, gostaria de ser justo. No mínimo justo.
Como posso ser justo com todas as atribuições que a vida me traz? Morte às formigas que ousarem a atravessar meu caminho! Morte aos humanos que o caminho de Deus atravessarem! Não! Ele não é assim. Não o vejo assim.
Será que as responsabilidades de um universo todo o impedem de pensar caso a caso? Será que devemos pensar no amanhã sem levar em conta a ameaça dos pés de Deus? Será que à nós, bem como às formigas, não cabe tal questão?

 

Lixo

Normalmente, sinto um gosto amargo na boca. Gosto de morte. Gosto de coisa estragada. Principalmente quando me vejo pegando uma folha de papel jogada no lixo, o maldito gosto aparece e deixa sensível a língua, os lábios, a boca e toda a consciência. Sempre disse e sempre direi: "A pior coisa que existe é pegar papéis amassados do lixo". Isso simboliza voltar atras em decisões, lembrar que tomou uma atitude que parecia definitiva e de uma hora para a outra lá está você, agachado, separando o que lhe interessa de coisas imundas e inúteis, o que agora tem como prioridade. Pior ainda é chamar de imundo e inútil o resto que não lhe interessa. Cuidado, amanhã você pode estar procurando por elas.
De repente você chega a uma conclusão: "Não jogo mais nada no lixo". Engano seu. Sua mesa, armário, cama, quarto e vida pedem por organização. Cada objeto ocupa um lugar em sua memória e, sempre, fazem questão de lembrá-lo que estão vivos e presentes na sua vida. "Hei , estou esperando! Você vai ou não vai me jogar no lixo?". Detesto desafios. "Vá pro inferno - maldito!". Passa um dia, uma semana ou até uma vida inteira e lá está você, no inferno, queimando vivo e suportando gozações dos diabinhos que insistem em dizer: "Sabia que mais cedo ou mais tarde você voltaria". Está aí a grande questão, estar sempre de passagem pelo inferno ou mudar para uma casa maior, com mais cômodos, prateleiras, estantes e consciência para comportar tudo o que deve ser decidido.
Todos sabemos que o inferno é um péssimo lugar para visitar. Todos sabemos que não existe biotônico que mantenha viva uma cabeça de cheia de pendências. E assim vivemos, sujando a mão em cascas de banana passada, procurando por algo que nem sabemos se ainda existe, mandando às favas tudo o que um dia pareceu importante e, em seguida... bom você já sabe.

 

A difícil arte de ser feliz

Tudo andava relativamente tranqüilo, salvo as exceções. Estava tão acostumado com as exceções, as malditas exceções que o afastavam de seu medíocre objetivo de ser feliz. Precisava de tão pouco e sempre tinha a sensação de estar cada vez mais distante. Parecia que caminhava no barro; quanto mais andava mais se sujava, mais se enterrava, mais se decepcionava.
Quando andava pelas ruas observava que para alguns era tão fácil exteriorizar a satisfação. Via lindas meninas com vestidos xadrez, sardas forjadas, bocas banguelas, tranças postiças e tudo mais que uma verdadeira criança fantasiada de caipira no mês de junho gostaria de ser. Elas pulavam e faziam questão de sacudir o vestidinho que apenas uma vez por ano tinham a oportunidade de usar. Os meninos, por sua vez, sentiam-se poderosos quando estouravam os traques e biribinhas em lugares que assustavam os mais velhos. Faziam com que eles sentissem medo e assim ignoravam a enorme distância que a idade impunha.
Sinto inveja dos que se contentam com um belo dia ensolarado e uma noite de lua cheia. Sei que isso sempre existiu e sempre existirá, apenas resta saber quando o milagre da existência será valorizado por pessoas que apenas estão preocupadas em subsistir. Essas pessoas alimentam-se de restos da sociedade e deles fazem sua existência. Esquecem que os detalhes fazem a diferença.
A felicidade parece tão abstrata quando é pronunciada no entre palavras de uma frase. Chega a dar a falsa impressão de que já a possui, que foi fácil conquistá-la e que está invulnerável a qualquer ataque da consciência. Só você sabe o quanto é infeliz e, apenas você, sente o peso do tempo forçar seus ombros para próximo da tristeza.
Tudo evolui. Suas necessidades, seus anseios, seus problemas, sua angústia e sua carência fazem dos segundos uma eternidade. Sente-se incapaz de tornar os minúsculos momentos de toda uma existência lembranças agradáveis e dignas de serem contadas a seus tão desejados filhos. Não consegue imaginar a possibilidade de ser pai, criar seu filho e amar sua esposa.
Falando em família, quando tenta encontrar um exemplo entre seus parentes, amigos e até mesmo vizinhos que reflitam a imagem do que espera de seu futuro, acaba decepcionado. Nunca admitiu traição, no entanto já traiu a confiança de muitas possíveis amadas esposas. Desprezou as advertências de seus pais e não consegue imaginar como seria criar seus filhos. Como desejou ser pai, quanto foi irresponsável e como se arrepende de ter sido infantil.
Nunca saberá o que é o amor. O amor na sua forma verdadeira, macia e prazerosa. A satisfação de ter a companhia de uma pessoa, que independente de seus (evidentes) defeitos, o transforma em homem a cada vez que escuta "eu te amo", entre gemidos e contrações de um corpo quente que pede por carinho e que ignora a existência de um outro mundo além daquele vivido instantes de inconseqüente paixão.
Arrepende-se de atitudes precipitadas que no momento julgou corretas. Arrepende-se de fazer com que o que acreditava ser o motivo de sua existência agora esteja jogado em um canto qualquer de sua alma. Alma que procura por felicidade, que só não se desgarra do corpo carrasco por motivos inexplicáveis.
Sente-se vulgar. Incapaz de amar dignamente qualquer mulher e fazer de seu universo utópico uma felicidade real e apalpavel que dispense quaisquer explicações. Que sinta no brilho de seus olhos um motivo digno de continuar enfrentando e criando todas as espécies de dificuldades. Que o faça acreditar que sem sua presença a morte torna-se aceitável.
Quando? Quando realmente será capaz de deixar que a simplicidade de existir o torne realmente um ser feliz?

 

Ninguém

João, muito modesto, de um nobre valor humano, estava alucinado com os atuais acontecimentos em sua vida. Considerava sua existência uma ‘vidinha’, vivida dia após dia, sem notar o começo ou o fim de uma semana, não sabia exatamente quando iniciava o inverno ou se no verão passado havia chovido muito. Tinha como principal objetivo viver, apenas viver.
Numa dada ocasião, notou que tinha responsabilidades que tomavam-no por completo. Comparava a situação com seu cobertor, curto e espesso; ou cobria os pés ou cobria a cabeça, nunca estava aquecido por completo. Tive que dizer:

- João, compre um cobertor maior. Onde se viu, passar frio por preguiça de ir até uma loja!

- Pode deixar, comprarei amanhã, se tiver tempo...

Finalmente, quando tinha tempo, reparava que o verão já havia chegado, o frio não o incomodava e deixava para comprá-lo no próximo inverno. Agora tinha coisas mais importantes para fazer.
E assim vivia, sem tempo para tudo e na realidade sem fazer nada. Um verdadeiro João Ninguém.