EDUARDO XAVIER

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Vitorioso

Despertou cedo.
Não lembrava mais da noite anterior.
Na verdade,
tentava não encará-la de frente.
Possivelmente já não era mais o mesmo.
A realidade era áspera e impiedosa.
Sua melhor inimiga e maior companheira.
Procurou em suas conquistas
a coragem para ignorá-la e continuar.
Resolveu dormir mais 20 minutos.
O tempo não passava e precisava trabalhar.
Levantou da cama,
corpo tenso e dolorido.
Desejou estar doente.
Fingiu não reconhecer seu reflexo no espelho.

Partiu.

No caminho,
recordou os grandes momentos de sua vida.
Ficou decepcionado.
Invejável inutilidade de toda uma existência.
Admirável sua descrença no futuro e na sociedade.
Inconfundível a tristeza estampada em seu rosto.
Dispensável pessimismo
que o levava cada vez mais próximo ao fim.
Decidiu que daquele momento em diante
seria outra pessoa.
De alguma maneira trocaria de alma,
nem que fosse necessário fazer um pacto com o demônio.
Desejou encontrá-lo frente a frente,
desafiá-lo com insultos
e ignorá-lo como sentia o peso do desprezo de Deus.
O que mais teria a perder?

Realmente mudou.

Tornou-se invulnerável a ataques,
inatingível,
seguro,
decidido.
Via claros objetivos,
traçava rumos.
Já não era mais o mesmo.
Não queria ser.

Sabia que não era feliz, porém, o coração blindado com grossas camadas de desilusões, assegurava seus pequenos instantes de tranqüilidade.

O fim do dia já havia chegado.
Todas as suas tarefas já estavam concluídas
e sentia-se vitorioso ao chegar ao quarto e encontrar o lugar que,
horas atrás,
desejou não ter deixado.
Trocou de roupa,
ascendeu a luminária,
leu um pouco e dormiu.
Naquela noite,
sonhou como nunca.
Era capaz de tudo,
desejou voar,
conseguiu.
Sentia-se realizado em ver a vida de cima,
entender seus problemas,
saber que lá embaixo,
aterrados,
existiam pessoas admiráveis.
Adorava o som hipnotizante
que o vento produzia em seu ouvido.
Queria subir cada vez mais
e ver tudo daquele mundo que ,
durante o dia,
passou a odiar.
Sentia-se um anjo,
puro e leve como nunca havia sido.
A todo instante,
agradecia àquele que julgava não importar-se com seus filhos.
Amava Deus e toda sua obra.
Na manhã,
seguinte não acordou.
Nem na próxima
ou nas posteriores.

Finalmente sua alma havia conquistado a liberdade.

Tudo... e um pouco mais

Eduardo Xavier e Carla Dias

Distorcidas são as palavras que não foram pronunciadas em seu devido momento e, inertes, deixam-se corromper pelo efeito do tempo.

Ainda assim elas existem, feito a escultura do cego que tateia o mundo. Existe no meu jardim de pensamentos irremediáveis.

Escuridão sente minha alma quando tento reagir à sua ausência.

Ausência de mim antes de qualquer outra ... ou qualquer lugar. Eu poderia tecer mil estórias sobre a ausência e, todas elas, acabariam na minha imagem no espelho – onde estou?

Atados estão meus braços que, em momentos anteriores, a mantinha próxima de meus dias.

Mas o que mais aproxima se não o espaço que não permite explicações? Já sei ... tudo o que cerca, aprisiona.

Blindado vejo meu coração que, entre pulsações, roga por atitudes concretas.

Talvez devesse começar a caminhar por essa vida observando o mundo com os olhos de quem descobre ... sempre ...

Rotineiros são meus momentos, pobres de espírito, inspirados em melancolias e lembranças de histórias passadas.

E como disse alguém ... tiro da falta a força que me permite reaprender a vida.

Desafinada continua a minha voz, repleta de frases prontas, declarações reprimidas e meias palavras.

Estou tentando não decorar acontecimentos ou me esbaldar em frases feitas. Nesse instante, sou quem tenta...

Frenéticos são os sonhos.

Alicerces da felicidade ...

Deprimido agora estou.

Posso ver um pouco além ...

Poucas são as possibilidades.

Todas elas estão aqui e me confundem. Escolher é como como condenar...

Forças ainda tenho.

Criarei algumas outras enquanto bebo este instante ...

Mínimas são as oportunidades.

Porque não as quero assim tão rápido ...

Com as lágrimas convivo.

Meu mar particular, que mata a sede e cria a fome ...

Por ti, meu amor, tudo.

O tudo o que é quando estamos ausentes da nossa própria alma?