EDUARDO LOUREIRO JR.

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A moedinha

Imagens sem som. Tarde de domingo. Estádio lotado. A torcida na arquibancada pula e faz coreografias. Lúcio, um menino de sete anos, está sentado, cabisbaixo. Mauro, seu pai, tenta animá-lo. Mauro vê um vendedor de roletes de cana e acena para ele. Enquanto o vendedor se aproxima, tentando se desvencilhar da multidão, Mauro retira uma moeda do bolso. O vendedor chega. Lúcio, recebendo um rolete de cana, abre um pequeno sorriso. Mauro estende a mão para entregar a moeda ao vendedor, mas leva a mão ao peito, fulminado por um ataque cardíaco, e deixa cair a moeda. Tumulto na arquibancada. Lúcio, transtornado, dirige o olhar para a moeda que gira no cimento.
Lúcio, vinte e poucos anos, acorda em seu quarto. A mesma moeda do sonho está em sua mesa de cabeceira. Ele se recupera do susto e olha a moeda, aliviado.
Enquanto isso, no consultório médico de Clóvis... Teógenes está sentado em uma poltrona em frente a uma grande mesa de tampo de vidro. Clóvis, cheio de dedos, conta a Teógenes que ele está com câncer. Teógenes reage sem perder o controle, perguntando quanto dinheiro vai custar, mas Clóvis diz que a metástase está avançada. Teógenes, agora um pouco irritado, insiste, mas Clóvis não lhe dá esperanças e diz que é melhor ele se internar e ficar alguns dias fazendo exames intensivos. Teógenes se exalta e quebra o tampo de vidro, insultando Clóvis e se retirando da sala.
Depois do banho tomado, Lúcio, com uma toalha na cintura, se penteia na frente do largo espelho do banheiro. Ele experimenta vários penteados, olha por todos os ângulos, faz cara de indeciso... Finalmente parte o cabelo ao meio, virando as costas para o espelho e se dirigindo para a porta. Antes de sair, vira-se para o espelho e sorri amarelo. No espelho estão vários Lúcios, cada um com um penteado diferente, olhando para ele com tristeza, desaprovação e raiva.
Lúcio sai para o trabalho em sua moto antiga prateada, e com seu capacete transparente amarrado no queixo. Ele segue em velocidade moderada até parar em um sinal de três tempos ao lado da porta traseira de um carro luxuoso. Nos bancos da frente estão o motorista e um segurança. No banco de trás está Teógenes. Lúcio vê a porta aberta e chama a atenção de Teógenes apontando para a porta. Teógenes não entende e faz de conta que não é com ele. Lúcio olha para o sinal e para a porta, e depois para o sinal, e depois para a porta. Apreensivo, mete a mão no bolso, retira a moeda, joga para cima, vê o resultado, guarda a moeda, aproxima um pouco mais a moto do carro e tenta fechar a porta empurrando-a com uma das mãos. Teógenes, assustado e com raiva, toca no ombro do segurança e aponta para Lúcio. O segurança sai do carro e parte para cima de Lúcio, derrubando-o da motocicleta. Enquanto Lúcio balbucia uma defesa, o segurança o puxa da moto e o joga na calçada. Lúcio fala sobre a porta, mas não sem antes tomar um soco no rosto. O segurança pára, olha para a porta, que ainda está aberta, pede desculpas e volta para o carro. Enquanto Lúcio se levanta, o segurança conta o que houve a Teógenes, que sai do carro e vem pedir desculpas a Lúcio, não por ele mesmo, que seu orgulho não permite, mas pelo seu segurança. Entrega-lhe em seguida um cartão. Lúcio, ainda desnorteado, guarda o cartão no bolso da camisa sem nem olhar para ele, faz um gesto com a cabeça para Teógenes, meio que aceitando o pedido de desculpas, pega a moto e se manda.
Quando Lúcio chega na oficina, Miguel está trabalhando na enorme mesa central. O ambiente é todo composto de brinquedos artesanais em construção. Lúcio começa a se preparar, mudar de roupa. Miguel ameaça reclamar que Lúcio chegou atrasado, mas comenta que não adianta nada mesmo, eles estão cada vez com menos serviço. Quando Lúcio tira a camisa, o cartão de Teógenes cai aos pés de Miguel que o lê e toma um susto. Lúcio conta a história. Miguel diz que não esperaria outra coisa, e fala que Teógenes foi amigo de juventude dele e de Mauro, que era muito ambicioso e que se desentendeu com eles. Lúcio finalmente lê o cartão e comunica a Miguel que vai até lá.
Otávio tenta dar um beijo apaixonado em Guta na sala de Teógenes. Ela retribui, entregando-se de olhos fechados. Teógenes entra, corrige uma certa expressão de dor em seu rosto e se mostra aborrecido com o beijo em sua filha. Guta, toda confiante, lembra seu pai de que eles estão quase noivos e que não vão ficar escondendo a felicidade. Teógenes insiste em sua autoridade e na seriedade no local de trabalho. Guta dá de ombros, Otávio emite um obediente "sim, senhor", e Teógenes continua, comunicando que deseja fazer uma seleção para a empresa. Otávio observa, tranqüila mas seguramente, que não há necessidade no momento. Teógenes insiste, diz que quer alguém que possa conhecer toda a empresa. Guta toma a defesa do namorado, dizendo que essa pessoa já é o Otávio. Teógenes concorda, mas ainda assim diz que os negócios estão crescendo e que eles podem precisar de mais gente. E sugere uma eleição que vá desde a criação de brinquedos até sua apresentação aos distribuidores, passando por sua produção. Guta e Otávio fazem sinal de que entenderam e se levantam para ir embora. Teógenes pede que Guta fique.
Teógenes bate a mão sobre a perna, chamando Guta para sentar em seu colo. Guta brinca, imita Teógenes dizendo que o ambiente de trabalho é um local sério. Eles riem, felizes. Guta percebe uma ponta de tristeza no rosto de Teógenes. Ele hesita sobre se deve lhe contar, mas, desajeitado de emoção, acaba dizendo que está preocupado com as despesas dela. Guta se levanta de seu colo, com cara de menina chorona. Teógenes, assumindo novamente a postura de empresário e o domínio das próprias emoções, diz que ela tem que se controlar, que se ele não estivesse por perto era capaz que ela gastasse todo o dinheiro rapidinho. Guta, magoada, se defende dizendo que precisa viver a vida, que não vai viver única e exclusivamente para a fábrica, como ele. Guta sai, chateada pelo que disse e pelo que ouviu. Teógenes fica, entristecido por não ter tido coragem de contar à filha sua doença.
Na entrada da empresa de Teógenes, Lúcio olha maravilhado a fachada de vidro. Em seguida se dirige para a porta giratória. Guta vem saindo, apressada e chateada. Os dois entram na porta ao mesmo tempo e seus olhares se cruzam, gerando um encantamento imediato que no entanto é interrompido porque a porta trava com os dois dentro. Lúcio se lembra da moeda em que passa produtos químicos para conservação, a retira do bolso e entrega para o guarda sem tirar os olhos de Guta. Ele sorri para ela, que não lhe corresponde. A porta destrava. Lúcio continua encantado, Guta volta para seus problemas.
Lúcio chega à recepção e diz que deseja falar com o Sr. Teógenes. A atendente olha Lúcio de cima a baixo e solta um sorriso irônico. Lúcio, desconcertado, pega o cartão e o estende à atendente. Ela olha e faz pouco caso. Pergunta se ele tem hora marcada e o dispensa. Lúcio, mesmo já desanimado pelo contratempo, insiste, e a atendente chama um segurança. O segurança vem acompanhado do homem que agrediu Lúcio no trânsito. O homem reconhece Lúcio e, ainda demonstrando culpa, convence a atendente a ligar para a sala de Teógenes. Depois de uma pequena conversa, ela indica a Lúcio onde fica o elevador. Lúcio agradece ao segurança e segue com um suspiro aliviado.
Lúcio entra no elevador e aperta o botão do último andar. Acompanha o visor durante os primeiros andares, depois, nervoso, começa a gesticular e falar sozinho como se ensaiasse alguma coisa. Mete a mão no bolso e tira a moedinha. Da sala de controle do sistema interno de TV, Otávio conversa com Daniel, um novo contratado, quando percebe Lúcio gesticulando e falando consigo mesmo. Otávio vê Lúcio jogar a moedinha para cima e pegá-la na palma da mão. No elevador, a porta se abre, Lúcio sai.
Lúcio chega à sala de Teógenes e se dirige à secretária, que pergunta seu nome, confere o cartão e o anuncia pelo telefone viva-voz. Ouve-se Teógenes autorizar a entrada. A secretária abre a porta para Lúcio, que pega Teógenes de surpresa agindo de uma das maneiras, a mais extrovertida, que ensaiou no elevador. Teógenes se surpreende com o fato de Lúcio ser designer de brinquedos e ainda por cima ser filho de Mauro, de quem ele não ouvia falar há tempos. Lúcio também fica surpreso quando Teógenes lhe diz que está abrindo uma seleção para a empresa. Lúcio resolve se candidatar. Eles se despedem, não antes de Lúcio dar a Teógenes o endereço e o telefone de Miguel.
Guta se encontra com Marina, uma antiga amiga, em um shopping. Elas relembram o passado, a independência que tinham em relação aos homens, as coisas que as duas aprontavam, os namorados múltiplos. Marina provoca, diz que ela ainda pode reagir, mas Guta mostra felicidade em estar noiva de Otávio. Marina propõe transformar a festa de aniversário de Guta num reencontro das amigas do passado. Guta topa.
Teógenes telefona para Miguel amigavelmente pedindo que ele vá até a empresa. Miguel, ressentido, se recusa e diz que ele vá até a oficina se quiser falar com ele. Teógenes vai. Quando chega, começa a fazer observações sobre o lugar em que Miguel trabalha. Miguel toma como menosprezo e faz um comentário irônico como se Teógenes fosse o responsável por aquilo, mas termina dizendo que ele não foi até ali para isso. Conversam sobre Lúcio. Miguel diz que é um bom garoto, como o pai. Teógenes se compromete a ajudá-lo. Teógenes tem um mal-estar e Miguel pergunta se ele tem alguma coisa. Teógenes tenta esconder dizendo que é apenas o cheiro dos produtos usados na oficina, mas se desculpa logo em seguida, diante da nova cara ofendida de Miguel.
Quando Lúcio chega, Miguel está olhando uma foto antiga dos três: Mauro, Miguel e Teógenes. Lúcio comenta a coincidência do reencontro. Miguel diz que foi um tempo bom, apesar de tudo, e conta a Lúcio como ele e seu pai se sentiram traídos quando Teógenes fundou a empresa e não lhes convidou. Lúcio fala então da seleção para a empresa. Miguel reage negativamente a princípio, mas diz para Lúcio que faça o que achar melhor, e lhe deseja boa sorte.
No dia seguinte, Lúcio chega à empresa para o primeiro dia de estágio, mas é impedido de entrar. Funcionários só com terno e gravata, indica a funcionária. Lúcio fica abobalhado, sem saber o que fazer. Guta passa e eles se olham sem falar nada. Ele cada vez mais encantado. Ela tendo um pequeno calafrio, mas retomando logo a compostura e fazendo cara de filha do chefe da empresa. Quando Lúcio está prestes a jogar novamente a moedinha para saber o que fazer, o telefone toca, a funcionária atende, resmunga e passa o telefone para Lúcio. Daniel, do sistema de TV, avisa a Lúcio que existe uma loja de aluguel de roupas a dois quarteirões. Lúcio agradece, ainda meio perdido.
Lúcio entra de terno e gravata numa sala de reuniões onde estão Guta, Otávio e alguns estagiários. Otávio está falando em pé, atrás de uma mesa onde também está sentada Guta. Otávio adapta seu discurso para reprimir "atrasos de funcionários". Lúcio vê Guta e fica feliz e surpreso. Otávio termina sua fala e chama Guta, apresentando-a como filha do Dr. Teógenes e psicóloga co-responsável pela seleção. Lúcio fica com jeito de quem não sabe onde meter a cara: está apaixonado pela filha de seu futuro chefe e ex-amigo de seu pai. Guta explica o processo de seleção, dizendo que eles vão ter alguns dias para desenvolver projetos desde o design no computador até a supervisão da produção final.
Os estagiários estão em suas divisórias no setor de design da empresa, todos trabalhando no computador, menos Lúcio, que está numa prancheta e vai acumulando bolinhas de papel no cesto. Ele joga a moedinha quando Otávio chega, o surpreende e brinca irônico: "Moedas, bolas de papel... O que será da próxima vez? Piercings?" Lúcio guarda a moeda envergonhado e retoma a prancheta. Otávio ataca, dizendo para Lúcio responder sempre aos seus superiores. Lúcio se afasta e mostra a prancheta. Otávio nem olha, diz que se trata de uma empresa moderna, completamente informatizada, e que ele tem que desenvolver o projeto no computador. Guta entra, pergunta o que está havendo e participa da ironia contra Lúcio. Depois sai, dando um beijinho em Otávio. Otávio fala num tom mais alto para os outros estagiários: "Ei pessoal, parece que vocês têm um concorrente a menos". Otávio sai. Lúcio coloca a cabeça sobre a prancheta, envergonhado.
Lúcio curvado sobre a pia do banheiro da empresa, terminando de jogar água na cabeça. Quando levanta o rosto e encara desanimado o espelho, toma um susto com seus reflexos no espelho: "Vocês?..." Lúcio interrompe sua fala para ver se não tem mais ninguém nos compartimentos do banheiro. Os reflexos estão todos animadíssimos. Lúcio pede que desapareçam e toma o rumo da porta. Um dos reflexos o chama. Lúcio vira espantado e procura novamente nos compartimentos. "Aqui, ó", fala outro reflexo. Lúcio olha para o espelho perplexo: "Vocês falando?". Um terceiro reflexo: "Alguém tem que falar alguma coisa". O primeiro reflexo: "É, você ficou todo abobalhado com aquele escovinha e aquela perua". O segundo reflexo: "Peraí, ela é bem gostosinha. E nos deu um sorriso maroto, não perceberam?" Lúcio: "Vocês devem estar loucos quer dizer, eu devo estar louco. Vamos embora daqui".O primeiro reflexo: "Calma, amiguinho. O jogo nem começou ainda. Eu, pelo menos, nem vi o juiz jogar a moeda". O segundo reflexo: "É isso aí: cara você leva a gente pra ver você chorar em casa..." O terceiro reflexo: "Coroa, você senta a sua bundinha lá e desenha". Lúcio: "Eu não sei nem usar a porra do computador".O primeiro reflexo: "Mas sabe usar a moedinha". O segundo: "É, joga logo a moedinha". O terceiro: "Mas joga aqui na pia pra gente ver o resultado".Lúcio joga a moeda no apoio da pia. Enquanto a moeda gira, dois reflexos dançam e fazem piruetas no espelho enquanto um terceiro fica de olho na moeda, junto com Lúcio.
Teógenes, no telefone de sua sala, entre aborrecido e triste, combina com Clóvis de ir ao hospital no dia seguinte, depois desliga com expressão de desânimo. Otávio e Guta entram. Guta, preocupada, nota o abatimento de Teógenes, que arma um riso falso e muda de assunto, perguntando pelos estagiários. Otávio comunica que um já está fora porque não sabe nem usar o computador. Teógenes interrompe antes do final da frase e pergunta por Lúcio. Guta e Otávio se entreolham, depois conferem rapidamente seus papéis. Guta: "Mas esse é justamente o Lúcio!" Teógenes, autoritário, diz que ele deve continuar. Otávio reage, relembra a informatização da empresa... Teógenes lembra que também não sabia usar o computador quando começou a empresa, que na verdade nem existia computador. Guta, incisiva: "Pai, ele não vai dirigir a empresa, ele é um designer". Teógenes, colocando um ponto final: "O que ele vai ou não fazer a gente vê depois. Por enquanto, ele fica. Eu não morri ainda, lembrem-se".Guta e Otávio se olham contrariados.
De volta ao banheiro, a moedinha pára de girar. Suspense no rosto de Lúcio e de seus reflexos. Em seguida, os reflexos explodem de alegria. Lúcio reage, argumentando que os reflexos o obrigaram. Lúcio diz que vai jogar a moedinha novamente. É hora dos reflexos reclamarem, mas ele joga mesmo assim.
Guta e Otávio saem da sala de Teógenes. Otávio tenta argumentar com Guta contra Lúcio, mas Guta relembra e acata a autoridade do pai. Otávio questiona de leve a capacidade de Teógenes, fazendo referência a sua idade e saúde. Guta reage com indignação. Otávio percebe uma pontinha de decepção e retoma seu jeito solícito e carinhoso dando um pequeno abraço em Guta.
A moedinha dá coroa novamente. Lúcio resignado, volta ao trabalho.
Lúcio, em sua prancheta, vira uma página de seu bloco. Guta se aproxima. Lúcio percebe sua presença e se vira, ao mesmo tempo amedrontado e feliz. Guta olha Lúcio de alto a baixo: "Não sei o que você tem, mas meu pai ainda quer você por aqui". Lúcio dá um sorriso. Guta puxa uma cadeira e pede que Lúcio lhe conte qual sua relação com seu pai. Quando Lúcio termina, Guta finalmente abre um pequeno sorriso: "Ou você é um arrivista ou muito decidido". Guta pega os esboços de Lúcio, olha com interesse e exclama como são maravilhosos. Lúcio vai explicando para Guta as idéias de novos brinquedos. Guta fica visivelmente encantada. Otávio chega e se surpreende ao ver Guta toda animada. Guta mostra a ele os desenhos de Lúcio. Otávio, depois de reparar por cima, diz que Lúcio continua sendo um adolescente que não sabe usar um computador. Guta faz um muxoxo, se despede sorrindo de Lúcio e sai de braço dado com Otávio. Lúcio começa a arrumar sua divisória e vê refletidos num porta-lápis metálico os seus reflexos. Eles piscam o olho para Lúcio, que sorri e agradece.
Na manhã seguinte, Miguel atende uma ligação de Teógenes em sua oficina: "Já disse que não vou à merda da sua empresa". Mas, quando ouve que Teógenes está no hospital, Miguel, desconcertado, consente em ir até lá.
É hora do almoço. Lúcio encontra Guta esperando o elevador. Lúcio a cumprimenta e em seguida fica olhando para os lados. Guta pergunta o que ele está procurando. Lúcio diz que está esperando Otávio aparecer, porque ele está sempre na cola dela. Guta ri, diz que Otávio está muito ocupado porque Teógenes não foi trabalhar. Eles ficam em silêncio. Guta se lembra da conversa com Marina e o convida para almoçar. Lúcio fica na dúvida. A porta do elevador se abre. Guta entra. Lúcio pega a moedinha e joga enquanto entra também. Quando a moedinha ainda está no ar, Guta se vira e o surpreende. Atrapalhado, Lúcio deixa escapar a moedinha, mas Guta, muito ágil, a pega antes de cair no chão. Guta, apertando o botão do elevador, brinca: "Vendo se tem dinheiro para o almoço?" Lúcio tenta disfarçar o nervosismo. Guta pergunta se é a mesma moeda que os prendeu na porta. Lúcio diz que sim. Guta diz que moedas não disparam o alarme. Lúcio diz que passa um produto para conservar a moeda, e que talvez seja esse o motivo. Guta sugere, então, que a moeda é especial. Lúcio disse que pertencia a seu pai. Guta, meio brincando meio falando sério: "Ainda bem, por um momento pensei que você estivesse decidindo nosso almoço numa moeda..." A porta do elevador se abre.
No hospital, Teógenes, com ar de cansado, recebe Miguel meio envergonhado da sua posição. Miguel aproveita e ironiza: " Esse quarto não é lá muito melhor que minha oficina". Teógenes, com um certo tom de súplica, pede que suspendam o passado. Miguel faz que não está nem aí. Teógenes pede que ele guarde segredo sobre sua hospitalização e que venha visitá-lo diariamente. Miguel, apiedado da condição de Teógenes, concorda.
Lúcio e Guta no restaurante, num clima de flerte e certa intimidade, continuam sua conversa sobre a moeda. Guta, atirada como nos velhos tempos: "Por exemplo, você poderia estar em dúvida se dá um beijo na filha do seu patrão". Lúcio, meio errado: "E desde quando a filha do patrão, noiva do sucessor de seu pai, beija empregados desconhecidos?" Guta, toda animada, prepara-se para jogar a moedinha: "Então, cara eu ganho um beijo, coroa eu vou fazer análise por ter sido desprezada por uma moeda." Os dois riem enquanto Guta joga a moedinha. Guta segura a moeda que cai. Lúcio, curioso, pergunta o resultado. Guta olha a moedinha às escondidas e depois inclina seu corpo na direção de Lúcio: "Confia em mim?" Lúcio tenta ver a moedinha. Guta, apressada: "Sim ou não?" Lúcio não consegue ver o resultado da moedinha e não a beija. Dá uma desculpa romântica, diz que não quer que os dois comecem como uma aventura. Depois de uma pequena decepção, Guta aceita a desfeita com um sorriso encantado. Em um espelho do restaurante, Lúcio vê seus reflexos irem ao desespero, gritando todos: "Idiota! Idiota!"
Marina não consegue conter seu espanto: "O quê?" O cara te esnobou e você ainda ficou contentinha, foi?" Guta só ri nervosa. Marina insiste: "E você dizendo que estava fora de forma, hein?" Guta, vacilante: "Mas estou mesmo. Não sei o que deu em mim". Marina: "Ah, tenho que conhecer esse Lúcio, tenho mesmo. E vai ser na sua festa de aniversário, com toda a turma". Guta retrocede: "Marina, não acho que seja uma boa idéia. A gente deixa pra fazer na despedida de solteira..." Marina decisiva: "Do jeito que a coisa anda não vai ter despedida de solteira, minha filha. E como você não vai mexer palha mesmo, pode deixar a festa comigo. Vai ser aqui em casa mesmo. E não deixe de convidar o Lúcio." Guta: "Não vai dar certo, Marina. Otávio e Lúcio... do jeito que você está aí..." Marina: "Do jeito que estou uma pitomba, Guta. Do jeito que você está! Pode se preparar para a festa."
Na manhã seguinte, Lúcio desliga o despertador e acaba derrubando a moedinha acidentalmente. A moedinha bate no móvel, no chão e fica com a pintura metálica arranhada. Puto da vida, Lúcio vai até o banheiro e se arruma apressado. Os reflexos se espreguiçam, soltam bocejos, reclamam que ainda é muito cedo, mandam-no tomar banho, dizem para apagar a luz...
Ao parar num sinal, Lúcio vê os reflexos no tanque de gasolina prateado da moto: "Pensei que queriam dormir mais...", diz irônico. Um dos reflexos, animado: "E perder um dia como esse?" Lúcio, puto mas um pouco mais autoconfiante: "Pois deviam ter ficado em casa, o Miguel conserta isso em dois minutos".
Miguel está observando a moedinha. Lúcio pergunta se além de repintar é possível Miguel desimantar a moedinha, porque ela está disparando o alarme da empresa. Miguel diz que vai ver o que pode fazer. Lúcio fica esperando, ansioso. Miguel diz que é melhor ele ir logo para a empresa porque vai demorar um bocado. Lúcio diz que não pode sair sem a moeda. Miguel questiona se ele está mesmo independente dela, e Lúcio acaba deixando-a, muito a contragosto.
Quando Lúcio vai subir na moto, um reflexo diz para outro: "E aí, já passaram dois minutos?" Outro responde: "Quase dez." Lúcio dá a partida, furioso, mas sem responder. O terceiro: "E o Miguel nem consertou".O primeiro: "E ainda ficou com a moeda".Os três ficam repetindo, como se fosse uma canção de criança: "Um dia sem moeda, um dia sem moeda..." Lúcio pára num posto, e pede pra botar gasolina. Um dos reflexos pede pra ele pedir para o frentista tomar cuidado pra não derramar nada em cima deles, e continuam cantando. Lúcio ri sarcasticamente. Quando o frentista termina, Lúcio pede a ele uma flanela com graxa. Os três reflexos param assustados. O frentista traz a flanela e fica assistindo Lúcio esfregá-la no tanque com aquele sorriso sarcástico. Os reflexos gritam de dor e Lúcio se diverte. Quando sai, o frentista comenta: "Cada maluco!".
Guta e Otávio na empresa. Guta apreensiva com mais uma ausência de Teógenes. Otávio tenta acalmá-la: "Está tudo sob controle, ele me passou todos os direcionamentos..." Guta, revoltada, mas com a raiva pra dentro, quase chorando: "E você tá adorando bancar o dono da empresa, né?" Otávio a abraça, tentando se corrigir, e a convida para o almoço e para uma noite romântica, garantindo que Teógenes deve aparecer logo mais. Guta mexe lentamente a cabeça, assentindo. Na sala de TV, Daniel assiste a tudo. Em seguida, olha para outra câmera, focada em Lúcio.
Na empresa, em sua divisória, Lúcio não consegue iniciar o trabalho. Duas pastas de projetos em cima da bancada e ele não sabe por onde começar. Otávio chega, já atacando. Lúcio se esquiva e pergunta por Guta. Otávio não maneira, diz que Guta já tem dono e sai. Lúcio se curva novamente sobre a bancada. Alguém lhe toca as costas. Lúcio já se vira aborrecido, pensando que é Otávio, mas é um menino de recados da empresa. Ele entrega a Lúcio um bilhete sem remetente. Lúcio abre e está escrito "Guta não deve aparecer hoje. Ela está preocupada com o Dr. Teógenes que não veio mais uma vez trabalhar. Aproveite o dia". Lúcio olha em volta, procura pelo menino de recados, mas ele já se foi.
No mesmo restaurante em que almoçou com Guta, Lúcio está sentado sozinho, diante do cardápio. O garçom chega e pergunta se Lúcio já decidiu. Atrapalhado, diz que não, e pede sugestão ao garçom. O garçom: "Tem esse filé aqui que está muito bom..." Quando Lúcio já vai confirmar, o garçom acrescenta: "Mas essa torta também está uma delícia". Lúcio faz cara de quem está perdido e olha para os talheres na mesa onde os reflexos estão com cara de poucos amigos e lhe falam: "Francamente, vai passar fome por causa daquela moeda!" O garçom, tentando não ser descortês: "Senhor?" Lúcio, despertando: "Sim, pode ser".O garçom, meio sem jeito: "Pode ser o quê, senhor?" Lúcio, puto consigo mesmo: "Qualquer um, traz qualquer um".
Otávio e Guta estão em um restaurante sofisticado. Otávio tenta beijá-la sensualmente, Guta se esquiva: "Não, Otávio, não estou com cabeça pra isso". Otávio, desconfiado: "É só o seu pai mesmo?" Guta, indignada: "E você acha pouco, Otávio? Queria mais o quê? Que ele tivesse morrido?" Otávio: "Sei lá, hoje aquele estagiariozinho perguntou por você?" Guta: "O Lúcio?" Otávio: "É, aquele atrapalhado mesmo".Guta, com naturalidade, conta que almoçou com Lúcio na véspera. Otávio tem um acesso de ciúmes. Guta se aborrece, diz que não vai agüentar surto de ninguém, que vai procurar seu pai que é melhor.
Lúcio vai até a oficina. Chama por Miguel, que não responde. Procura a moedinha, mas não a encontra, e pragueja contra Miguel.
Ante-sala de Teógenes. Otávio ordena alguma coisa à secretária. A secretária, meio tímida, diz que só com autorização de Teógenes. Otávio a ameaça.
Daniel entra, se apresenta e pergunta à secretária sobre o pacote com relatórios da empresa a ser entregue ao Dr. Teógenes. Ela pega o pacote numa gaveta e entrega a ele. Daniel sai.
Teógenes, impaciente na cama do hospital, recebe Daniel e o pacote. Daniel conta a ele sobre Otávio, Lúcio, e pede para ele ligar para Guta, que está preocupada.
Final de tarde, Miguel recebe Lúcio com simpatia, mas Lúcio já começa na grosseria, reclamando do sumiço da moeda. Miguel percebe que Lúcio continua usando a moedinha para tomar decisões e insiste que ele pare com isso. Lúcio nem responde, pega a moeda, vê que está pintada e sai. Miguel o avisa que não conseguiu desmagnetizá-la.
Guta, no celular, recebe telefonema de Teógenes. Ele tenta tranqüilizá-la, diz que apareceu uma excelente oportunidade de negócios, um cliente poderoso, e que ele teve de viajar às pressas, mas que volta para seu aniversário. Guta vai dissolvendo a preocupação. Teógenes, bisbilhotando, pergunta por Lúcio. Guta: "Não é tão mal quanto parecia..." Teógenes: "Hum, estou percebendo mais que isso em seu tom de voz. E Otávio?" Guta: "Acho que o tratei mal hoje, estava estressada com sua ausência". Guta comenta que a voz de Teógenes é que parece estranha, pergunta se ele tem algum problema de saúde. Teógenes mente, diz que está um vento frio.
Dia seguinte. Banheiro da empresa. Lúcio está em frente ao espelho, conversando com os reflexos, indeciso se deve ou não convidar Guta pra sair. Ele está com um passo atrás, mas os reflexos lhe insuflam: "Jogue pelo menos a moedinha!". Lúcio joga a moeda, que diz não. Lúcio fica contrariado.
Otávio entra na sala de controle de TV e pega Daniel assistindo a Lúcio no banheiro: "Que câmera é essa?!" Daniel, pego em flagrante, tenta mudar o controle, mas Otávio, curioso, o força a deixar a cena. Eles vêem Lúcio falar "sozinho" e decidir na moeda se vai convidar Guta ou não para sair hoje. Otávio pega o telefone e liga para o ramal de Guta, convidando-a para saírem juntos e fazerem as pazes. Guta se desculpa pelo comportamento instável e aceita a proposta de Otávio, que desliga e sorri satisfeito. Otávio então se vira para Daniel, pedindo explicações. Daniel mente, diz que não sabe de nada, que alguém deve ter mandado instalar aquela câmera... Otávio rebate dizendo que a única pessoa que tem tal poder é Teógenes. Daniel aceita a colocação, completamente transtornado. Otávio ameaça demiti-lo. Daniel pensa em se defender, mas Teógenes falou pra ele não abrir o bico em hipótese nenhuma. Otávio pede para o dia seguinte uma relação de todas as câmeras escondidas.
Lúcio, da sua divisória, vê Guta passando e vai até ela, mesmo contra o resultado da moedinha. Lúcio a chama para almoçar. Guta, meio desconcertada, diz que não pode. Lúcio, não tão confiante assim, chama para jantar. Guta, mais desconcertada ainda, pois no fundo até que ela gostaria de ir, diz que também não pode, que já reservou o dia para o Otávio. Lúcio faz cara de desconsolo, mas ainda encontra forças para perguntar se Guta está melhor e como está Teógenes. Guta, aliviada, diz que ele ligou, que disse estar bem, mas confessa estar ainda com uma pulguinha atrás da orelha. Eles se despedem. Lúcio, de volta na divisória, está puto consigo mesmo e com a moedinha. Ele coloca a moedinha sobre a bancada e lhe dá uns cascudos. No porta-lápis, os reflexos coçam a cabeça, como se o cascudo fosse neles, mas Lúcio não vê, está enfurecidamente concentrado na moedinha.
Na ante-sala de Teógenes, Otávio vê a secretária arrumando um pacote e, forçando-a, descobre que é para Teógenes. Otávio ordena à secretária que seja avisado quando o entregador vier pegar o pacote no final do expediente.
Lúcio, ainda rancoroso com a moeda, a utiliza para coisas corriqueiras como marcar papel, desenhar círculos, batucar como distração. Ele pára um pouco o trabalho, pega alguns papéis e começa a construir um pequeno cata-vento de papel colorido com bordas de recortes diferenciados que produzem imagens caleidoscópicas com o vento. A moedinha está esquecida num canto da bancada.
Miguel, em sua oficina, experimenta o brinquedo que acabou de ganhar de Lúcio. Elogia o trabalho e o abraça, vivamente comovido. Lúcio se despede, alegando ter muito trabalho, mas também porque percebeu que esqueceu a moedinha na bancada.
Mesmo restaurante. Guta e Otávio estão aparentemente felizes. Até que Otávio diz que eles não vão poder jantar juntos. Guta se lamenta e insiste. Otávio diz que apareceu um trabalho a ser feito. Guta, insatisfeita, pergunta se vai ser assim quando ele for chefe da empresa. Otávio se defende, dizendo que está sobrecarregado com a ausência de Teógenes.
Em sua divisória, Lúcio, desesperado, tenta encontrar a moedinha. Os reflexos comentam que ele a tratou tão mal que ela deve ter ido embora. Lúcio revira tudo. Os reflexos continuam enchendo o saco, culpando Lúcio. Lúcio reclama com eles, que se não sabem onde está que fiquem calados. O menino dos recados, que está passando, ouve e pergunta o que há. Lúcio pergunta por uma moeda. O menino diz que deve ter sido a faxineira porque hoje ela tinha antecipado a limpeza porque o filho estava doente. Lúcio faz cara de desesperado.
Cara de satisfação de Teógenes no hospital. Ele brinca com o cata-vento de Lúcio. Teógenes elogia o trabalho. Descontraídos, Miguel e Teógenes têm uma conversa amigável sobre o passado, relembrando os bons momentos que os dois e Mauro passaram juntos. Clóvis, o médico, entra e pergunta como Teógenes vai indo. Teógenes, autoritário, diz que tem que sair da cama até o aniversário de Guta. Clóvis diz "Vamos ver, vamos ver".
No setor de limpeza, Lúcio escarafuncha um saco enorme de lixo. A câmera se afasta e vemos dezenas de outros sacos por procurar. Lúcio senta desconsolado. No assoalho limpinho vêem-se os reflexos também desconsolados. O menino de recados aparece com novo bilhete. Lúcio, um tanto aborrecido com o mistério, pergunta: "Quem está me mandando esses bilhetes?" O menino coloca a mão sobre os lábios em sinal de silêncio e sai. Lúcio lê o bilhete e se levanta com alguma esperança no rosto.
Guta e Otávio estão entrando na empresa pela porta giratória e de cara amarrada. Guta vê, com o canto do olho, Lúcio conversando com um segurança e diz para Otávio que vá na frente que ela sobe depois. Quando Guta está se aproximando, o segurança está saindo, pedindo que Lúcio, aflito, aguarde um pouco. Guta fala animada com Lúcio, que dá um "oi" meio aéreo, de quem está com o pensamento longe. Otávio, ao se virar dentro do elevador, vê os dois conversando e faz cara feia enquanto a porta se fecha. Guta diz a Lúcio que esqueceu de convidá-lo para sua festa de aniversário. Lúcio diz que sim, que sim, mas está de olho na volta do segurança. Guta, mesmo com um certo baque da reação de Lúcio, diz que não vai mais jantar com Otávio à noite e pergunta se o convite de Lúcio está de pé. O segurança retorna, com um detector portátil de metais. Lúcio diz que fala com Guta depois. Lúcio e o segurança saem. Guta fica com cara de tacho.
Marina ri estrondosamente: "Não vejo a hora de conhecer esse Lúcio".Guta se lamenta, diz que tudo está dando errado. Fala para Marina que está dividida. Marina brinca, dizendo que é a falta de prática com mais de um homem, que ela daqui a pouco vai estar nos trinques novamente.
Lúcio e o segurança no setor de limpeza. O segurança passa o detector de metais nos sacos. Finalmente o detector apita. Eles derramam o saco e encontram a moeda. Lúcio dá um abraço no segurança como se fosse seu melhor amigo. O segurança, com um olhar desconfiado do tipo "sou espada!", livra-se do abraço e sai. Lúcio beija a moedinha pedindo desculpas. No assoalho, os reflexos dançam. Lúcio pára de repente, como que se lembrando de Guta.
Na sala de Guta, Otávio tira satisfações sobre a conversa dela com Lúcio. Guta faz cara de nem-te-ligo, assobia uma cantiga infantil. Otávio começa a se enervar quando o telefone de Guta toca. Ela atende, ouve, desliga e fala para Otávio: "É a secretária de papai avisando do entregador".Otávio toma um susto, olha para o relógio e diz para Guta, ainda com raiva, que depois eles conversam. Otávio sai esbarrando no menino de recados que traz uma pequena caixa para Guta. Ela abre e vê uma flor colorida de papel com um cartão de Lúcio: "Desculpas de um vento que não refrescou uma flor. O convite está de pé".
Otávio alcança Daniel na saída da empresa e o segue escondido até o hospital. Daniel entra. Otávio dá um tempo e vai até o balcão de atendimento. Ele pergunta pelo quarto de Teógenes, mas diz que não vai entrar e pergunta pelo médico responsável. A atendente diz que o Dr. Clóvis já saiu. Otávio pede maiores informações, mas a atendente diz que só com o médico.
Daniel entra no quarto de Teógenes e lhe entrega o pacote. Teógenes pede um relatório verbal e Daniel conta o incidente com Otávio. Teógenes diz que ele faça de conta que as câmeras foram retiradas.
Otávio, em seu carro, tenta ligar para Guta do celular, mas ninguém atende. Ele pragueja, mas depois se recompõe: "Calma, Otávio, você está com a faca e o queijo nas mãos".
Lúcio e Guta dançam, se beijam e conversam à luz de velas e com música romântica ao fundo. Lúcio faz para Guta um anel artesanal de arame. Guta fica encantada, mas logo depois faz uma cara preocupada. Lúcio pergunta, como quem acorda de um sonho bom: "Otávio?" Guta confirma. Lúcio então pede para ela só usar quando se decidir por ele, como um sinal. Guta sorri.
Na manhã seguinte, no banheiro de Guta, ela está feliz, com o mesmo rosto feliz da noite anterior, enquanto passa seus cremes. Então a campainha toca. Ela vai atender, é Otávio, que começa o interrogatório sobre a noite anterior. Guta reage, dizendo que foi ele que desmarcou o jantar. Otávio pergunta se ela esteve com Lúcio, e Guta mente dizendo que estava com Marina, preparando o aniversário. Otávio, um pouco mais satisfeito, tenta uma cartada: "Você reclama, mas eu estava procurando seu pai pra você".Guta sente um baque de culpa, mas pensa um pouquinho: "Meu pai não é nenhum fugitivo, Otávio, pra você estar procurando por ele".Otávio cai em si e tenta dar a volta por cima: "Eu sei, eu sei, mas é que você estava tão ansiosa..." Otávio tenta abraçá-la, Guta recebe o abraço mornamente e diz, disfarçando naturalidade, para ele ir embora que ela tem que se arrumar para ir trabalhar. Otávio oferece carona. Guta recusa.
Em frente ao espelho, depois do banho, Lúcio canta e dança, morto de feliz, enquanto os reflexos, de tapa-olhos reclamam de uma puta ressaca: "Lúcio, você parece que não pensa no dia seguinte!".
Otávio entra na sala de TV bancando o chefão e perguntando sobre a lista de câmeras ocultas. Daniel dá uma de sonso e diz que a única câmera que ele identificou foi aquela mesma do banheiro, mas que hoje de manhã até ela tinha sumido. Otávio faz cara de extrema raiva e tenta partir para a mesa de controle para bisbilhotar por ele mesmo, mas a própria parafernália de botões o faz voltar atrás. Ele tenta se controlar, usando a ironia ao invés da raiva declarada: "Eu podia despedir você por incompetência". Daniel olha em silêncio, tentando não demonstrar nada. Otávio, insinuando a relação de Daniel com Teógenes: "Mas você não veio trabalhar aqui por acaso, não é mesmo?" Daniel continua impassível. Otávio ameaça: "Tudo bem, eu já descobri o que queria. Mas se tiver alguma camerazinha dessa me vigiando..." E sai.
Daniel retoma seu trabalho e vê Lúcio e Guta que, coincidentemente, chegam juntos à entrada da porta giratória. Eles não dizem nada, apenas sorriem do fundo da alma, cúmplices, e entram na porta, no mesmo compartimento, não sem antes Lúcio retirar a moedinha e entregar para o segurança. Na hora de sair, Lúcio dá um passinho pra fora, mas Guta o puxa e eles dão mais uma volta e outra. Lúcio um pouco constrangido, mas feliz, Guta com uma alegria selvagem. Finalmente Lúcio pega a moedinha e se separa de Guta. Ela diz para ele não esquecer seu aniversário.
Dias depois, em sua casa, Marina recebe Lúcio toda eufórica. Lúcio, um pouco deslocado, pergunta se chegou cedo. Marina diz que Guta adora homens pontuais. Lúcio fica meio sem jeito. Marina diz que já sabe de tudo, que está torcendo por ele, que não vai com a cara de Otávio.
No carro, a caminho da festa, Otávio, desgostoso, comenta com Guta que ela devia ter feito o aniversário dela em um bufê... Que devia ser pelo menos à noite, quem já viu aniversário de dia no meio da semana. Guta, toda independente, diz que se ele quiser ficar trabalhando que fique, já que ela gosta de sol e adorou essa idéia de um aniversário na beira da piscina como nos velhos tempos.
Numa roda com as antigas amigas de Guta, Lúcio ouve, curioso, as "maldades" que elas aprontavam com os homens. E todas sempre perguntando: "Cadê Guta? Cadê Guta?".
Marina se antecipa para receber Guta e Otávio que estão chegando. Cumprimenta Otávio friamente e dá um grande e apertado abraço em Guta, depois lhe pisca o olho. Enquanto isso, Otávio percebe a presença de Lúcio ao longe e faz cara feia. Marina os convida para se reunir aos demais e sai saltitante na frente. Otávio ralenta o passo de Guta, puxando-a pelo braço, e perguntando incisivo: "O que aquele cara tá fazendo aqui?" Guta diz que Otávio a está machucando, livra-se de seu agarrão e fala toda dona de si: "Pergunte à Marina, foi idéia dela."
Quando Guta chega na rodinha, todas as amigas a abraçam e começam a cantar um velho lema de juventude, parodiando "Perigosa" das frenéticas. Otávio e Lúcio se olham, como dois lutadores se estudando. Marina dispara: "Vocês aí, não fiquem parados. Vão na cozinha e tragam uma mesa de comidas que está lá".
No caminho de ida e volta para a cozinha, Otávio diz que é melhor Lúcio dar o fora o quanto antes. Lúcio, ironicamente, olha em torno e faz alguma referência à empresa, querendo indicar que Otávio não está mais em seu território. Otávio então revela que sabe sobre a moedinha, e ameaça contar a Guta. Lúcio fica atônito, mas tenta disfarçar seu medo e nervosismo.
A conversa é interrompida por Guta e Marina, que diz: "Hum, ficaram amigos, foi?" Marina puxa Otávio para conhecer as amigas de Guta. Guta se aproxima de Lúcio, dá-lhe um caloroso beijo no rosto e diz: "Que bom que você veio".Ela tenta levá-lo para o grupinho, mas ele diz que vai pegar um copo d'água ou algo assim.
Atrás de um arbusto, no caminho da cozinha, Lúcio joga a moedinha e quase é surpreendido por uma garçonete que passa com uma jarra metálica de suco. Na jarra, Lúcio vê os reflexos lhe acenando, felizes da vida, chamando pra festa. Lúcio confere o resultado e diz para a moedinha: "Melhor não me decepcionar dessa vez".
Teógenes sai escondido do hospital com a ajuda de Miguel, que mesmo assim o adverte do perigo, dizendo que ele os exames não apresentaram melhoras. Teógenes diz que naquela cama não vai melhorar nunca e que não pode perder o aniversário da filha.
Marina convoca todos para brincadeiras na piscina. Lúcio diz que não trouxe calção. Marina diz que sempre tem algum novo no vestiário e indica onde é. Lúcio vai, todos pulam n'água.
No vestiário, Lúcio pega um calção de banho, retira sua roupa e coloca numa prateleira. Ele tenta colocar a moedinha dentro do calção de banho, mas fica marcado e ele resolve escondê-la nas dobras de sua roupa. No espelho, os reflexos chamam para ele voltar logo para a piscina. Lúcio sai.
Quando Lúcio entra na piscina, Otávio sai e vai até o vestiário. Procura a moeda, encontra e a guarda consigo, satisfeito.
Quando Otávio retorna, Lúcio e Guta conversam sozinhos na beira da piscina. Otávio vai na direção deles, mas Marina o intercepta: "Venha aqui. Você não vai casar com minha melhor amiga sem ouvir minhas recomendações antes." E o leva para um lugar onde eles não possam ver Guta e Lúcio.
Guta diz a Lúcio que lamenta não tê-lo conhecido antes. Lúcio diz que foi no momento certo, coisa do destino, e conta como foi seu encontro com Teógenes. Guta se anima e diz pra Lúcio como ele passa segurança pra ela, como ele sabe dizer a coisa certa na hora certa, como ele é seguro, decidido. Lúcio faz cara de quem pensa o que Guta faria se descobrisse o uso que ele faz da moedinha. Guta reclama que seu pai está demorando.
Teógenes entra no jardim e Guta sai correndo em sua direção. Eles se abraçam cheios de saudade. Quando tudo se acalma, Otávio aproveita e, em tom solene, pede oficialmente a Teógenes a mão de Guta em casamento. Suspense geral. Otávio olha para Guta que olha para Lúcio que olha para Teógenes que olha para Otávio que olha para Lúcio que olha para Guta que olha para Teógenes, como se todos estivessem no giro de uma moeda. Teógenes interrompe o suspense, tentando esconder toda a sua recente desconfiança em relação a Otávio e tratando-o como sempre: "Ora, meu caro Otávio, depois de uma cansativa viagem de negócios, em pleno aniversário de minha filha, você quer que eu decida um negócio desses". Alívio no rosto de Lúcio e Guta, Otávio tenta disfarçar seu desapontamento e raiva interior. Teógenes então treme e ameaça cair, desfalecer. Todos ficam assustados. Otávio sorri com o canto da boca. Teógenes senta, toma uma água com açúcar, se recupera, diz que foi só cansaço e pede para ir para casa. Otávio, intencionalmente, comete um ato falho: "Não é melhor voltar, quer dizer, ir para o hospital, Dr. Teógenes?" Teógenes toma um susto e faz cara de poucos amigos. Como pequena vingança, diz: "Guta e Lúcio me levam. É melhor você ir para a empresa, Otávio, você será mais útil lá". Otávio sai contrariado.
Lúcio chega no vestiário para pegar suas coisas e não encontra a moedinha. Desesperado, revira tudo. No espelho, os reflexos estão amarrados e amordaçados.
No jardim, Lúcio conversa com Marina, conta a história, diz como é a moedinha. Guta, apressada e preocupada com Teógenes, o chama para ir embora. Marina o tranqüiliza, diz que vai encontrar. Lúcio vai até Guta, que pergunta o que houve. Ele diz. Guta diz que deixe a cargo de Marina. Lúcio, Guta e Teógenes saem.
Guta e Lúcio estão de saída do quarto de Teógenes. Guta, preocupada: "Tem certeza que não quer que eu chame um médico?".Teógenes, enfadado: "Já disse que não, Guta. Só preciso descansar. Vejo você amanhã na empresa".Guta fecha a porta e fala apreensiva para Lúcio: "Acha que devo chamar o médico mesmo assim?" Lúcio, driblando a indecisão, responde com a fala de Teógenes: "Se ele diz que não quer, que está bem..." Guta relaxa e se insinua: "Chamo o motorista ou você vai me dar uma carona de moto?" Lúcio, surpreso: "Gosta de motocicletas?" Guta, com um ar saudosista: "Já tive uma. Foi meu primeiro transporte, mas faz tempo que não ando, desde..." Lúcio se antecipa: "Otávio." Guta, como que pega em flagrante: "É..." Lúcio fica pensativo, meio que iluminado, quando pensa que Otávio pode ter roubado... Guta tenta adivinhar: "Sua moedinha?".
Guta está de braços abertos sobre a motocicleta em movimento, gritando, sem capacete, numa demonstração de total alegria e liberdade. Guta recolhe os braços, abraça Lúcio e em seguida começa a tirar o capacete dele. Lúcio, assustado mas feliz, deixa. Guta, eufórica, pede que ele não tire a mão do acelerador. Guta põe o capacete entre as pernas de Lúcio e grita para ele: "Agora é a sua vez".Guta se projeta para a frente e toma o controle da moto, liberando as mãos de Lúcio. Ela diz para ele abrir os braços. Os reflexos, no capacete, já estão de braços abertos, curtindo na maior. Lúcio abre timidamente, preocupado com o rumo da motocicleta, depois relaxa, olha para o céu e grita em êxtase.
Guta acabou de passar pela porta giratória da empresa, e está esperando Otávio, quando o alarme apita. Otávio ficou preso. Guta faz uma cara apenas aborrecida enquanto Otávio tenta descobrir o que houve. Quando Otávio põe a mão no bolso do paletó e descobre que é a moedinha, faz um sinal para que Guta vá à frente. Mas ela fica desconfiada e espera. Quando Otávio entrega a moedinha ao segurança, Guta a pega, confere que é a mesma de Lúcio e grita para Otávio: "Seu sacana!", e sai correndo na direção do elevador. Otávio corre atrás dela, mas Guta fecha a porta bem a tempo de impedi-lo de entrar. Daniel, na sala de tv, comemora com um "Yes!" quando vê o desfecho da cena. Mas em seguida franze a testa. No hall, Otávio está impaciente com os elevadores. Quando vê o andar em que Guta parou, o de Lúcio, fica mais puto ainda. Outro elevador chega. Ele sobe. Daniel vê, apreensivo, a divisória de Lúcio vazia e assiste à chegada de Guta, procurando por ele. Guta dá meia volta para o elevador, que por sorte ainda a espera. A porta do elevador de Otávio se abre, Guta pula pra dentro do outro elevador e fecha a porta. Otávio bate de raiva e, quando tenta voltar para o outro, por azar ele já se foi. Descendo no elevador, Guta pega na bolsa o anel que Lúcio lhe havia feito e o coloca no dedo. Ela sai correndo do elevador, sai correndo pela porta giratória e encontra Lúcio, é claro. Ela o abraça e começa a rodopiar. O capacete cai da mão de Lúcio e começa a girar. Sua pasta se abre, alguns papéis voam, em furacão lento. Até que a própria moedinha cai da mão de Guta. Então o momento romântico acaba. Guta fala apressada: "Sua moeda, achei sua moeda, deixei cair sua moeda, vamos embora daqui". Ela se abaixa para pegar a moedinha, Lúcio pega a pasta, o capacete e um ou outro papel que vem caindo. Eles sobem na moto e saem. Otávio chega ao pátio, vê os dois saindo. Uma folha de papel lhe bate na cara. É um esboço de bumerangue. Otávio, possesso: "Malditos brinquedos!".
"Que lindo brinquedo!", diz Teógenes no setor de produção, segurando o bumerangue com alto-relevo de gravuras do Escher criado por Lúcio. Teógenes, falando espantado para si mesmo: "Como eu perdi o prazer de brincar?" Um funcionário estranha: "O senhor por aqui, Dr. Teógenes?" Teógenes, largando o menino e incorporando o chefe: "E um homem não tem o direito de andar por sua própria empresa?" O funcionário se recolhe: "Desculpe, senhor." Teógenes abre um sorriso: "Tudo bem, meu jovem. Separe esses pra mim", diz Teógenes apontando brinquedos de Lúcio, "que mais tarde vou mandar pegar." O funcionário, sem entender nada, porém mais aliviado: "Sim, senhor."
A moto está encostada em um descampado. Guta, decepcionada: "Jamais pensei que ele seria capaz de uma coisa dessas". Lúcio pega sua mão, vê o anel e olha para Guta, cheio de brilho e felicidade. Eles se beijam. Até que Lúcio lembra que é melhor eles irem trabalhar. Guta, entre animada e apreensiva: "Não antes de contar a papai a novidade...".
Teógenes chega à ante-sala e cumprimenta jovialmente a secretária, que faz cara de surpresa. Quando ele abre a porta de sua sala, a secretária esfrega uma mãozinha na outra, como quem antevê alguma coisa. Teógenes entra e pega Otávio mexendo nos papéis da sua mesa. Otávio toma um susto: "Estava só arrumando para o senhor, Dr. Teógenes, atualizando os últimos..." Teógenes interrompe, com cara de poucos amigos: "Das minhas coisas cuido eu, Otávio. Uma viagenzinha não me fez abandonar a empresa". Otávio, tentando se desculpar: "É que eu estava preocupado com sua saúde..." Teógenes, interrompendo: "Pois devia se preocupar com seu emprego. Sorte sua que tem a Guta. Saia já daqui".Otávio sai, brigando com a secretária por não tê-lo avisado. Ela responde, sonsa: "Esqueci".O telefone toca, é Teógenes chamando, a secretária pede licença, Otávio sai.
Teógenes está com um papel na mão quando a secretária entra. Ele pergunta, completamente possesso, que transação é aquela. A secretária tenta se desculpar, diz que não tem nada a ver, que é culpa do "seu Otávio"... Teógenes: "Está bem, tente reaver as ações imediatamente". A secretária sai.
Sozinho, Teógenes olha para uma câmera oculta e diz sorrindo: "Fim da sessão, Daniel. Pode desligar as câmeras. Você fez um bom trabalho. Espero que o dinheiro dê para você fazer seu filme". Lúcio e Guta entram, sem mãos dadas, como que apreensivos quanto à reação de Teógenes, que se levanta e parte efusivo na direção dos dois, abraçando-os. Guta, tímida: "Queremos lhe falar algo sério, papai".Teógenes interrompe: "Oh, não! Já tive muito aborrecimento por hoje. Preciso relaxar um pouco. Preparei um programinha com você, seu Lúcio". Enquanto Lúcio e Guta se olham, curiosos, Teógenes ordena por telefone que a secretária pegue um material que ele reservou na produção e o coloque no terraço do prédio. Voltando-se para Guta: "Você, minha filha, vá preparar um relatório da seleção." Guta consente e sai, dando um beijo em Teógenes e outro, apenas com o olhar, em Lúcio. Teógenes, a sós com Lúcio, lhe diz, cabreiro: "Se for o que estou pensando, gostarei de saber das novidades, mas agora é hora de brincar".
Otávio surpreende Guta no corredor. Guta lhe diz que está tudo acabado e que ela já está com Lúcio. Otávio puxa-a para uma sala e faz drama, perguntando o que Lúcio tem que ele não tem. Guta diz que não vai ficar ouvindo aquele papo. Otávio apela e fala para ela da moedinha, mas Guta não entende e diz que se trata de uma lembrança do pai de Lúcio. Otávio conta que Lúcio usa a moedinha para tomar decisões, que só estava namorando Guta porque a moedinha tinha decidido e que a roubou para que Guta descobrisse quem Lúcio era realmente. Guta o chama de mentiroso, diz que nada do que ele diga vai fazer com que ela volte para ele.
Terraço da empresa. Teógenes e Lúcio se divertem como dois meninos, soltando pião, jogando bumerangue, segurando cata-ventos...
Otávio desafia Guta a fazer um teste com Lúcio: ele ter que tomar uma decisão com a moedinha na mão dela. Guta fica intrigada. Otávio diz: "Apenas teste". E sai.
No terraço da empresa, no meio da brincadeira, Teógenes treme novamente, esboça dizer que não é nada, mas desmaia. Lúcio, desesperado, tenta sacudi-lo, mas corre em busca de ajuda. O rosto de Teógenes se contorcendo até ficar imóvel. Um pião pára de girar e cai.
Leito do hospital. Teógenes abre os olhos e toma pé do que está acontecendo. Clóvis o repreende com o olhar e anuncia que Guta quer vê-lo. Teógenes, preocupado: "Você não contou nada pra ela, não é?" Clóvis: "Ainda não, mas se você não contar..." Teógenes pensa um pouco e pede para falar primeiro com Miguel.
Lúcio consola Guta na sala de espera do hospital. Clóvis chega e diz que Teógenes ainda está inconsciente e pede que Lúcio leve Guta para descansar um pouco, almoçar, e que a traga mais tarde. Guta reluta, chora, mas acaba aceitando.
Lúcio chega à oficina com Guta e se surpreende de Miguel não estar lá. Ele tenta distraí-la mostrando objetos, brinquedos... Guta se lembra do teste que Otávio lhe desafiou a fazer. Pede a moedinha a Lúcio e pergunta se funciona para prever o futuro, se a moedinha lhe diria se o pai dela tem algo grave ou não, se vai sobreviver ou morrer. Lúcio tenta consolá-la dizendo que daqui a pouco ela verá seu pai e tudo ficará bem. Guta resolve fazer o teste. Com a moedinha na mão pergunta a Lúcio: "Sei que não é a hora mais apropriada, mas você se casaria comigo?".
Teógenes recebe Miguel no hospital. "Estou morrendo, Miguel", é a primeira coisa que ele diz. Miguel tenta animá-lo. Teógenes faz um discurso bem lúcido, reconhecendo a iminência da morte, as coincidências, o reencontro com Miguel, o aparecimento de Lúcio quase que como o filho homem que ele não teve... Tudo isso como sinais de que a hora dele chegou. "Mas eu queria ir por minha conta, entende, Miguel? Não queria ser levado. Você faria isso por mim?" Miguel responde com serenidade à proposta de eutanásia: "Se você tivesse me pedido isso há vinte anos atrás..." Teógenes solta um riso doente, mas um riso sincero. Miguel continua: "Acho que a manipulação de brinquedos e objetos me tirou a potência de manipular pessoas". Miguel também faz seu discursinho, reconhecendo a importância do reencontro, a necessidade do perdão... Diz que ficará com Teógenes até o fim mas que jamais será capaz de matá-lo.
Ainda na oficina, o pedido de casamento de Guta suspenso no ar. Lúcio olha para a moedinha, mas responde sinceramente: "Você está abalada, Guta. Podemos falar sobre isso depois..." Guta insiste: "Eu preciso saber com quem eu posso contar, Lúcio. Otávio já me enganou, não quero ser enganada novamente. Casa comigo ou não?" Lúcio olha novamente para a moedinha na mão de Guta. Guta abre a mão e mostra a moedinha: "Precisa dela pra decidir?" Lúcio cai num silêncio resignado. Guta pergunta se é verdade que Lúcio decidiu namorá-la através da moedinha, como Otávio lhe havia contado. Lúcio não responde diretamente, gagueja: "Você não entenderia... nem eu mesmo entendo..." Guta, levantando-se decidida: "Sinto muito, Lúcio. Eu não sei viver assim, na dúvida... esperando... não agüento um homem que não sabe o que quer... nem agüento ficar aqui esperando enquanto meu pai está lá deitado". Lúcio se levanta para ir também. Guta o impede: "Eu vou só!" Guta retira o anel, joga sobre a mesa e sai, Lúcio despenca numa poltrona, assistindo ao giro do anel.
No hospital, finalizando a conversa, Teógenes pede a Miguel que traga até ele Guta, Otávio e Lúcio, separadamente. Quando Miguel está saindo, Guta vem entrando.
Guta se lança sobre o pai, abraçando-o. Teógenes pede que ela se sente. Ele então conta para ela da doença, que pode morrer a qualquer momento, mas que não gostaria de ir definhando. Guta reage imediatamente, diz que ele tem que continuar lutando, que não pode pensar em se entregar... Teógenes pergunta sobre Lúcio. Guta fala de sua decepção, Teógenes defende Lúcio, sua juventude, sua inexperiência, erros que tem que cometer... Eles adormecem juntos.
Miguel chega em casa e encontra Lúcio, arrasado. Lúcio chora diante de Miguel e lhe conta toda a história. Miguel ensaia um "bem que eu disse" em relação à moedinha, mas se sensibiliza com a dor de Lúcio. Depois diz que Teógenes quer lhe falar, mas que espere um pouco porque a essa hora Otávio deve estar com ele.
Otávio chega ao hospital. Teógenes pede que Guta os deixe a sós. Otávio tenta marcar uma conversa com Guta para depois, mas ela se recusa. A sós com Otávio, primeiro Teógenes tenta tirar satisfações de umas ações que ele vendeu, mas já sem rancor, afinal trata-se de um teste. Otávio se defende, dizendo que não pretendia prejudicá-lo, apenas achou que era uma boa oportunidade e resolveu correr o risco. Teógenes pega o gancho e aplica um teste de confiança em Otávio: "Tudo bem, agora vou lhe apresentar outra oportunidade". Teógenes diz que está morrendo, mas que não quer ficar decrépito. Propõe a Otávio que lhe faça a eutanásia. Se ele fizer isso, Teógenes lhe deixará como responsável executivo pela empresa, assim ele terá tempo e ocasião para reconquistar Guta. Otávio cresce os olhos, mas disfarça. Faz um discurso do tipo "você sempre foi um pai pra mim, mas se essa é a sua vontade, farei, como sempre fiz, tudo para ajudá-lo". Teógenes diz que precisa acertar umas coisas, uns papéis, interceder junto a Guta por Otávio, e que assim que estiver tudo pronto o chamará para fazer o serviço.
Hospital ainda. Otávio saindo, Lúcio chegando, um fazendo cara feia para o outro. Teógenes lança a mesma isca para Lúcio, solicitando que ele lhe mate. Lúcio diz que jamais faria isso, porque nunca saberia se fez para ajudar Teógenes ou para se dar bem, porque acha que essa não é a vontade da Guta e não queria magoá-la mais, e porque foi aprendendo a gostar dele. Teógenes então fala que Guta lhe contou da moedinha, e pergunta se Lúcio não poderia jogá-la para tomar a decisão final. Lúcio se sente e se diz ofendido e pede, com todo respeito, para que mudem de assunto.
Lúcio entra em seu banheiro. Os reflexos tentam consolá-lo e acabam dizendo "se ela gostasse realmente de você, lhe aceitava com moedinha e tudo". Lúcio, irado com eles, pega a moedinha e joga no espelho, estilhaçando-o. Depois senta no chão, chorando.
No hospital, Teógenes expira. Guta, que está deitada a seu lado, acorda como de um sonho, vê o pai morto e chora compulsivamente.
Lúcio interrompe o choro e abre um sorriso iluminado. Levanta-se e sai.
Lúcio e Miguel na oficina. Miguel diz que não sabe se vai dar certo. Lúcio espera ansioso enquanto Miguel trabalha para transformar a moedinha em dois anéis. Elipse de tempo. Miguel entrega a Lúcio os anéis. Lúcio experimenta um no dedo anular, outro no mínimo e sorri satisfeito, dando um beijo em Miguel. O telefone toca. Miguel atende e faz cara de defunto. Desliga e diz para Lúcio que Teógenes morreu.
Guta chega em casa após o enterro e tem uma encomenda esperando por ela. É uma caixa simples, de madeira trabalhada. Ela abre e vê os dois anéis feitos da moedinha e ainda o miolo que sobrou. Há também um cartão de Lúcio: "O que é uma moeda se eu não tenho você. Casa comigo". Guta se derrete.
Uma enorme mesa. Na cabeceira, um tabelião com um monte de papéis. De um lado, Guta e Lúcio. De outro, Otávio. O tabelião lê o testamento, deixando a empresa para Guta e Lúcio. Otávio aguarda ansioso pela sua parte. O Tabelião lhe entrega um envelope. Otávio abre e encontra os papéis de sua demissão. Todos se levantam, menos Otávio, que fica prostrado. Quase à porta, Lúcio sussurra e pede o miolo da moedinha a Guta. Lúcio chama o nome de Otávio e joga para ele. Otávio, por reflexo, agarra a moedinha.
Lúcio e Guta estão se arrumando ao lado da moto. Guta pergunta: "Você acha que isso vai dar certo". Lúcio sorrindo: "Mais atrapalhado que eu garanto que ele não é. E dará uma bela psicóloga empresarial, com toda a certeza". Vemos Miguel e Marina acenando para Lúcio e Guta. Eles sobem na moto, ela dirigindo, e partem. Vemos as alianças prateadas em seus dedos. E as duas rodas da motocicleta girando, girando.