DANIEL MAZZA

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A Carpideira

Na sala, emudecido, esquife intransigente,
Com a seda branca e fúnebre aconchegando
O corpanzil do morto, glacial e infando,
Em repouso cansado, exausto eternamente.

Tece preces, a esposa, pelo Miserando,
Enquanto genuflexo, o filho, penitente,
Em alta voz pranteia, sua mão tremente
A soltar do pai a gélida, segue negando.

Enlutados na fila para as despedidas:
Aproximam-se um a um, benzem-se, balbuciam
E prosseguem, por fim, com as almas recolhidas...

Num canto, em espetáculo de encenação,
Soluços teatrais, lágrima financeira,
Concentrada e calma, chora uma carpideira...

Pão e Circo

No Coliseu, o urro das famintas feras
O povaréu romano alvoroçava.
O circo mais o pão que alimentava
A Roma augusta das passadas eras.

Ao sinal das trombetas, os escravos
Na saliva da morte agonizavam...
Festejos na tribuna onde brindavam
Tibério César e a súcia de ignavos.

Os caninos cravados no pescoço...
Ventres rasgados expelindo a entranha...
O banquete das feras inclementes...

O brilho rubro aumentava o alvoroço...
Enquanto César, com a face estranha,
Mudo, sorria, sorrateiramente...

Formigueiro

Trabalha a operária.
Soldado. Rainha. Soldo:
Terra monetária.

Dolores

Dolores de ancas largas,
De fecundos ovários,
Das noitadas amargas
Nos leitos monetários.

Mulher da esquina crua,
Das janelas dos carros.
Mulher que desjejua
Na cama com cigarros.

Dolores empregada,
Dolores enfermeira,
Dolores mascarada,
Dolores lambedeira.

Mulher da noite esguia
Que transpira os néons,
Se a vagina azedia
Explode em megatons.

Mulher que ensina o novo
E o mais velho alimenta.
Mulher que todo o povo
Odeia e experimenta.

Dolores assanhada,
Dolores cozinheira,
Dolores badalada,
Dolores parideira.

Mulher que acolhe do homem
O esperma borrifado.
E recolhe no abdômen
Dinheiro ejaculado.

Mulher que abraça pobre,
Rico, bom ou ruim.
Por mais que se desdobre
Sua lida é sem fim.

Dolores requintada,
Dolores melieira,
Dolores futricada,
Dolores seroeira.

Odes

                               I

Não sei se o sonho que tenho
É o sonho que sonho.
A mesma
Chuva que irriga os vales,
Inunda as pequenas aldeias.
A lua sobre os amantes risonhos
É a mesma,
Sombria nos bosques escuros.

                              III

As tuas esperanças
Deposita-as em ti.
As pedras do teu jardim,
Remove-as.
Planta as tuas sementes,
Varre os teus canteiros,
Rega as tuas árvores.
Não esperes que o vento
Limpe o chão do teu Outono.
Limpa-o tu. Sê teu estro.

                              VII

Meu coração publicano,
Corrupto cobrador de impostos...
Meu coração fariseu,
Mesquinho doutor da lei...
Meu coração soldado romano com as mãos ensangüentadas,
Pôncio Pilatos com as mãos impecavelmente lavadas,
Caifás com a consciência impecavelmente limpa,
Barrabás impecável.

Lázaro meu coração...

O ladrão
Meu coração
Na cruz.

                              IX

Entre lobos
Lobos sejamos.
Entre ovelhas:
Ovelha.
Perante tantos Césares,
Submissos nunca.
Os oprimidos, entre nós,
Não sejam oprimidos.
Demo-nos
As mãos.

                              X

Melhor é a coroa na choupana
Que o esfregão no palácio.
Enfuna as tuas velas,
Conduz a tua jangada:
O parco peixe pescado
É teu.
O mar
Pertence a Deus.

                              XII

Antes pelos jardins em que caminho,
Sem uma única flor,
Que caminhar por jardins floridos de outrem.

Quando fui semear
A terra não era minha...

Quando olhei para trás
Tinha virado à esquerda
Ao invés de à direita...

                               XV

De mim mesmo
Padrasto.
Estou farto da disciplina!
Ando
Por cima dos muros.
Salto
Das sacadas das janelas.
Da educação que me deram,
Restaram os pés descalços.
Algum dia
De mim mesmo
Pai.


Daniel Mazza, Poemas do livro Fim de Tarde (Ribeirão Preto, Ed. Funpec, 2004)..