Contos

   
   
O sentinela
 

O que traz de sapiência lhe permite caminhar pela vida com a independência que nasce da dependência que outros lhe destinam. Não é o seu nariz meio empinado, o olhar acabrunhado e os poucos fios de cabelos brancos que fazem com que as outras pessoas o respeitem tanto. Ele sabe proclamar delícias com a mesma malícia que deflagra as suas batalhas, pessoais ou coletivas. Tem o charme dos que pouco falam, e que remexem os ouvintes por dentro com alguns pares de palavras bem colocadas.

Ele é sábio de um jeito convencido, porque, homem, adora como as mulheres o observam, enquanto ele ensina aos súditos a se livrarem das culpas cultuadas durante a trajetória de suas vidas.

Nasceu pobre de um jeito que não só fazia doer sua barriga, tamanha era a fome, mas também encrespava o olhar. Nasceu só de mãe, porque o pai desapareceu na vida, assim que soube da sua chegada.

Aos doze anos, ele acreditava completamente que morreria aos treze, chegando mesmo a fazer uma vaquinha com os vizinhos para encomendar um caixão. A mãe vivia bronqueada com ele, porque enquanto ela se virava com bicos por aí, o moleque só fazia contabilizar as despesas do funeral, deixando de lado até as tarefas da escola. Mas há quem diga que, no dia do aniversário de treze anos do menino, a mãe chorou descontroladamente ao ver que ele não morrera, porque, sem saber como, no dia seguinte teria de botar comida para dois na mesa.

Desapontado com a morte, que o abandonara sem dar pistas, ele passou a se vangloriar da vida, mas só de raiva, porque queria se vingar da morte. Assim, começou a falar pelos cotovelos sobre como se viver plenamente.

Vez ou outra, ele ajudava o zelador de um prédio, duas quadras pra lá da sua casa, com pequenas tarefas. Foi o zelador que, comovido com a forma como o menino comentava a vida, emprestou-lhe um livro de autoajuda. Da leitura do livro à publicação de um de sua autoria foi apenas uma década.

As pessoas escutam o que ele tem a dizer, embriagadas pelo ritmo que ele coloca nas palavras, com a forma como contempla importâncias. Adulto, mas ainda carregando o rancor pela morte que não veio quando ele esperava, aprendeu que pode sobreviver à vida ensinando aos outros como domesticá-la. Então, o faz com a ousadia de quem não se importa com ela, sem prezar pelo ritmo de cada um, ostentando a imagem de homem que tem o poder de mudar aquilo que desconhece completamente.

Apesar de hoje dormir em macios lençóis, de há muito tempo não lhe faltar o que comer no jantar, a mãe dele remói uma tristeza que lhe salta aos olhos. Pouco se falam, mas quando acontece, ela diz a primeira frase, e então ele inicia um monólogo, uma repetição escancarada de trechos dos seus livros de autoajuda.

A vida dele é tatuada em uma rigorosa agenda. O máximo de rebeldia se dá nas noites de luxuria em algum hotel com mulheres de quem ele sequer deseja saber o nome. Todo charme despendido ao aconselhar outros sobre como devem levar as suas vidas, falta-lhe no trato com as suas amantes.

Em momentos de reflexão, quando os assistentes já foram dormir, ele se lembra de que nunca soube como se aproximar daquela mulher de alma entortada pelo sofrimento, da mãe de quem ouvira, quando ainda era menino de tudo e mais de mil vezes, que a morte sim era o melhor para eles. E ele acreditou... Acreditou que morreria aos treze anos de idade, e até conseguiu o dinheiro do caixão para que ela não precisasse pagar por ele, porque não queria incomodá-la com o seu próprio infortúnio.

Antes de cair num sono intranquilo, a mãe relembra o menino dormindo no chão de terra batida do barraco, sobre um cobertor verde feito os olhos dele. E do desespero que a consumia por não saber o que aconteceria com ele, se ela conseguiria cuidá-lo. E então, ela chora baixinho, relembrando o ontem do seu menino, que de certa forma, morreu aos treze anos de idade, quando decidiu que a vida nada mais era que uma fórmula, sem direito à ousadia de se sentir próximo à felicidade.

 
 
Os temerários
 

Certamente já tiveram outros parceiros com os quais adentraram o país dos prazeres. Mas isso mora no segredo mais secreto, assim como este momento que dividem. É que aos olhos dos outros o sexo é fútil. E fato é que a pornografia emocional, muitas vezes, está próxima demais da justificação. Ainda é assunto a ser discutido, costuma dizer a tia dela, dona carola, mulher dedicada aos afazeres do Deus, e que alega que beijo de língua é pornografia. Abraço em público é pornografia. Engravidar antes do casamento é pornografia. Apaixonar-se é pornografia. Aos olhos da tia dela, eles estarem assim, tão próximos, é uma verdadeira pornografia, ainda que por detrás deles o cenário seja das folhas avermelhadas de outono forrando o chão. E passado o pensamento, ela começa a rezar, em silêncio, a Salve Rainha. E ele começa a beijar sua nuca, arrepios a conduzi-la nessa religiosidade que há em qualquer sentimento sincero.

Não há dúvidas de que já estiveram assim com outras pessoas: perto de entregarem a intimidade e com ela uma gama de segredos. Porém, nunca chegaram tão perto quanto agora. E o pai dele costuma dizer que intimidade é coisa de homem fraco. Que contar tudo a uma mulher: coisa de homem fraco. Que viver de amor, que bobagem, meu filho! é coisa de homem fraco. E ele repete a si mesmo, silenciosamente, eu sou um homem forte, enquanto entrega-se ao prazer do abraço dela. A alma estampada na fragilidade do afeto.

Além das iguarias oferecidas por pré-conceitos da autoria de outros, há essa tarde que não está fria e nem quente. E às vezes sopra um vento gelado e arrepia os pêlos deles. Ainda assim, os seus olhares se cruzam numa conversa desenfreada entre o medo e o desejo de mudar a liturgia das suas vidas. O amor acende suas almas e corpos e os coloca de cara com a fluência dos seus medos.

Por mais fácil que possa parecer, copiar cenas de uma comédia romântica e se jogarem um nos braços do outro, bem, a mãe dela diz que facilidade é coisa de mulher da vida. Que se entregar assim, sem mais nem menos, é coisa de mulher da vida. Que trocar os desejos da família pelos de um homem, é coisa de mulher da vida. Arredia, ela sorri amarelo. Desconfia do amor dele e o repele. Ausenta-se.

O avô dele costuma pregar que homem que é homem vai logo tomando a frente e resolvendo a situação, prática e funcionalmente. E que facilitar é coisa de mulherzinha. Que afeto é coisa de mulherzinha. Que estar disponível para a mulher é coisa de mulherzinha! E ele endurece: o olhar. Exerce a função de homem que não é mulherzinha.

Seus olhares refestelam-se em agonias particulares, porém tão parecidas. Seus medos permeiam quem não são ou o que sentem. Vêm das decepções e das reações alheias. De outros universos que não este, onde no agora, eles reverberam paixão e respeito. Onde, silentes, travam uma batalha dolente na expectativa de transporem tais muros. Até porque não desprezam essa noite de outono: tão clara, tão terna. Não ignoram a tempestade criada pelas próprias mãos do desejo que compartilham. Não querem pensar em outros ao escorregarem corpos e almas nas folhas avermelhadas e gracejarem dos que se dizem capazes de contornar uma paixão. De educá-la. De fazê-la caber em.

De um estalo, ela se lembra da irmã mais velha professando as agonias de uma esposa de longa data: mulher decente se casa antes de ser traída. Mulher decente não rola em grama com namorado. Mulher decente nasce para parir filhos, cozinhar para seu homem e sempre se diz feliz, mesmo quando o fardo é pesado. Ela encara o amante: retrai-se. Pensa sobre o motivo que a faz sentir tão leve. Pecado? Não... Afago.

Ele, por sua vez, foi criado pelo avô, pai e irmãos mais velhos. Uma trupe de machistas orgulhosos, habituados a descansar garrafas de cerveja nas panças. Tem quase certeza de que a mãe morreu de desgosto, porque ela era sensível como nenhuma outra mulher se revelara a ele... Até agora. Nele se exibem algumas das características dela. Ele acredita que deve ser praga rogada em filho temporão e se esforça para esconder do mundo tudo o que nele lembra a mãe, prevendo a desgraça que se abateria sobre sua família.

O irmão mais velho costuma proferir, aos berros, que homem não ama, aproveita-se da carne da mulher. Que homem não chora, aproveita-se da tristeza para endurecer ainda mais. Que homem não se rende às sutilezas da beleza de uma mulher, mas aprende a encará-las como manequins para cintas-liga e batom.

Sabe-se lá por que eles ocultam um do outro que esta é a estação que preferem: outono. E guardam nos seus corações – embriagados pela taquicardia provocada por tantas advertências - uma sintonia que há de vingar. Porque homem e mulher que se prezem não entregam o jogo mediante tantas negativas. Porque homem e mulher nasceram para conviver com as contradições. E também para sobreviver aos rótulos.

Lua cheia. Mãos dadas. Corpos afastados. Olhares nas estrelas. Ela sonha, em particular, em um dia estudar os planetas. Não por serem eles alvo da comoção das madamas, mas sim por alardearem na alma dela uma centelha de gosto pela descoberta. Deseja aprender os planetas, assim como almeja aprender a alma daquele que fisgou o seu amor. No fim das contas, acredita que tudo se redime, através do aprendizado. Que a sabedoria não viria de outra disposição que não a de aprender o universo e as pessoas.

Mora com a avó, mãe e irmãs. É a mais nova da família. Acredita que nasceu de uma noite de insanidade da mãe, pois as contas não batem. Porque seu pai falecera antes que ela pudesse ser fecundada. Assim ela se sente: cultivada às pressas. Nas entrelinhas. Talvez por isso o nariz e a boca não se pareçam com os das irmãs, e seu gosto pela música seja requintado demais para as canções que elas costumam ouvir. E não tem a beleza edificante das outras, trazendo na mediocridade da própria, a angústia de quem precisa que se detenha na sua alma para por ela sentir uma raspa de afeto que seja.

Na correria da vida, ele pouco se lembra dos perfumes que tomavam conta da casa quando a mãe ainda estava viva, o que tornava menos agressiva a relação entre os homens da família. O pai sempre alertou que um dia ele passaria pelo teste e que, para se desviar da insignificância que se atraca a um homem ao se envolver emocionalmente com uma mulher, ele deveria agir como todos os outros: ferir primeiro, mostrar quem manda, assumir o governo da casa e segurar as rédeas daquela que deveria alimentá-lo de boa comida e luxúria, sem dar-se a comentários com as amiguinhas do clube do crochê ou a pedir permissão para chegar em casa um pouco mais tarde. E para que a vida fizesse algum sentido, deveria mentir sempre sobre o que sentisse, tratando de não impor relutância em engolir emoções que pudessem lhe tirar o posto de chefe da tribo. Mas então ele se envolve no olhar dela. Tons de outono embelezam um sorriso que ela não deixa escapar. Da vertigem ao estado melancólico daquele desejo fincado na indecisão: ser quem se descobriram ou aqueles que os outros lhes ensinaram a ser?

Ela comenta, toda insegura do atrevimento, sobre a vontade que sente de conhecer outros planetas. Não há como negar afeto a uma mulher que se atreve a aportar em sonhos tão ousados. Ele diz que sempre quis visitar outros mundos e que, no momento, isso significa fazer uma viagem que o tire da cidade na qual nasceu e da qual nunca saiu. Não há como negar afeto a um homem que se atreve a deixar o círculo vicioso. Que se propõe a conhecer o lá fora. Eles se concentram, então, no perigo que os outros lhe ensinaram a enxergar no que acontece entre eles, mas passa... O medo passa.

Noite de outono e, à revelia do que pensam os outros, eles estão dispostos ao risco e a fazer vingar o fruto proibido que lhes enfiaram nas bocas, elas que nada mais querem do que beijos. Porque homem que é homem sente o que deve sentir e mulher que é mulher, idem. E ela deita a cabeça sobre o peito dele, aponta para o céu, enquanto ele conta uma história sobre como a sua mãe cerzia paz durante as guerras familiares. E ela deseja ser para ele quem é e jamais teve a chance de ser, até então. E ele deseja ser para ela quem é e jamais teve a chance de ser, até então.

E assim o outono acontece: lapidando com sua sinuosa beleza os destinos arrancados da estéril terra na qual foram plantadas errôneas considerações. Alimentando o incerto com filetes de felicidade e boa sorte. Argumentando com a passividade do pré-estabelecido e solfejando a intensidade, mãe também dos bons agouros, disposta a alimentar a vida de quem buscou, entre as contas do terço e as garrafas de cerveja, um momento no qual é possível existir sem ser ninguém mais, além de si mesmo.

 
 
A santa
 

Em nome do dia eu me desapego da noite. Acordar não se trata de apenas abrir os olhos, mas também de ressuscitar histórias, como se fôssemos um grande livro fechado sobre a mesa de centro de uma sala vazia e, de repente, pessoas entrassem e começassem a folheá-lo, a descobrir a trama, os devaneios, a ausência de lucidez alimentada com cuidado nas entrelinhas do roteiro que o destino assina por nós. É assim que me sinto quando o meu marido entra no quarto, fica de frente ao espelho para dar o nó na gravata. Veste-se bem, recende a perfume caro. Nem se vira para o adeus e sai, as malas já postas à porta, prontas para segui-lo seja aonde for.

E eu tendo de acordar, levantar e viver. Eu que não gasto o meu afeto com o imediatismo, prefiro a falência homeopática, como se isso a tornasse secreta. Prefiro o silenciar aos poucos ao grito de histeria ao despencar em abismos.

Não se iludam... Não me fere a partida do homem da minha vida durante dez longos e tortuosos anos. Não me importa que no armário minhas roupas mofem sozinhas. Não me incomoda a casa vazia, sendo vítima da ausência de alguém. Assim como tanto faz se à mesa do café somente os meus pés se acomodam por debaixo dela. É assim que sou consumida pela vida: calmamente, no frescor da extravagância de certa loucura.

Em frente ao espelho, nua em pêlo e a esgueirar defeitos. Cabelos pingando, molhando o carpete e ofendendo o esmero, antes de hoje um dos senhores da casa. Seios flácidos, resquícios de todas as vezes que dei de beber ao amante desinteressado de mim, mas que não se atrapalhava ao me confundir com um mero instrumento de apaziguamento de desejo, contanto que sua fome fosse ressarcida pelo destino que lhe injetou na vida a minha presença. E me amou com o amor ressentido; durante todos estes anos, gozou em mim a sua mágoa, enchendo o meu ventre de uma paixão estéril. E nos dávamos por satisfeitos ao engolir a defesa de que não era nossa culpa, que não fora nossa escolha. E eu me consumia de tranqüilidade ao voltar para a sala e passar a madrugada lendo Balzac, desinteressada de realidade ou compreensão, ou das normas estabelecidas para que levássemos a vida sem dela verter uma gota de insanidade que fosse. E assim, eu me embrenhava na imaginação e, através dela, rejuvenescia delírios que guardava para consumir a sós.

O tique-taque do relógio vai contra o meu momento de desapego do tempo. Levanto e vou até ele, tiro as pilhas.  Volto para a mesa e me sento como se nada tivesse acontecido nos últimos anos. O silêncio é impenetrável.

Observa-me, preocupada com a minha situação de esposa abandonada, quarenta e cinco anos, sem filhos, desleixada com a aparência. Pergunta se não vou tomar jeito, porque sou mulher adulta e preciso reagir. Será que ela sabe que o futuro nunca me interessou? Que não me doeu em nem um milímetro do corpo, que dirá da alma, a partida do Ernesto? O que ela sabe sobre mim, além do fato de termos nascido da mesma mãe e herdado os olhos azuis aguados do nosso pai? Nada.

Adelaide é mulher de aceites. Basta-se na perseverança em viver uma paixão afrodisíaca, a mesma que se torna uma rotina pálida quando o sol nasce. É mulher da noite, com o descuido de ser de um homem só. E ainda tem coragem de me cobrar reações, minha pobre irmã! Nem parece tão mais moça do que eu; que quinze anos separam nosso início de jornada na terra. Estamos tão parecidas, sem idade, sem vislumbre. Ela mais colorida do que eu no seu vestido vermelho de tafetá, na ansiedade de seguir para a festa de aniversário da cunhada. Celebrar o nascimento de quem a despreza e ridiculariza, tudo para poder se deitar, mais tarde, com um homem que em público a trata como uma dama, mas a sós, nos arrabaldes da noite, degusta-a como se ela fosse mulher da vida e lhe impõe, logo de manhã, a função de serviçal.

Mas da vida todas somos. Mulheres coordenando hormônios e querenças, fabricando castelos na areia e também na planta dos prédios em construção. Aperfeiçoando a capacidade de sobreviver às faltas, vadiando com as próprias emoções em busca da raspa da panela, de alguém que lhe ofereça um olhar de afeto por década que seja, mas que haja motivo para a espera.

Adelaide insiste para que eu vá com ela à festa. O café da tarde ainda à mesa, chegando frio à noite que despenca e escurece a sala de jantar. É ela quem se dá ao trabalho de levantar e acender a luz, me fazendo piscar até acostumar os olhos. Ela diz que preciso de um novo homem, um que me queira de fato e não que tenha se casado comigo a pedido do nosso pai, para somar fortunas e unir famílias, brasões. Eu me nego sequer a responder e ela bufa, desfazendo a cara bonita que maquilou para a orgia de ofensas que sempre acontece, após suas festas familiares.

Sai batendo a porta, gritando que arrumará alguém que me coloque nos eixos e me faça relembrar de quando, ainda jovem, eu tecia elogios ao amor. E eu sorrio, complacente, sem mover um músculo. Sorrio ao lembrar do quanto ignorava as rasuras emocionais e de que nada há de tão inocente do que renegar as experiências falíveis, provenientes de amores suicidas.

Calço os chinelos largados debaixo da mesa e vou para o meu quarto, me enfio debaixo das cobertas e fecho os olhos. Adormeço embalada pela poesia que há nos amores risíveis.

Ainda com o telefone na mão, há quanto tempo? Ela não compreende que tudo o que quero é sossego? Que ler os meus livros na cama, ao invés de no sofá, tem sido intensamente agradável; que me dedicar novamente a pintar quadros me basta por agora? Mas não... Falo sobre a irmã mais nova, afetada pela displicência do romantismo, corrompida pelos fados, tangos e boleros, e pela assiduidade com a qual ama sem ser amada.

Como pôde? Grita ao telefone que me avisou e que eu estava sabendo. Mas foi armadilha... Sempre recorre a elas. É amigo do Horácio! , amigo do marido... E daí? Seria, então, outro bonachão? E por que eu deveria aceitar isso? E quem disse que eu quero homem? Paixão? Lubricidade?

Adelaide... A irmã que vive querendo fazer da vida dos outros, aquilo que não consegue fazer com a própria. Vivendo à base das conquistas e alegrias alheias. Ela é quem sorri sempre que vê alguém sendo feliz, ainda que seja um estranho, mesmo que não passe de observar de longe, de alcançar sem tocar... Intocável por ela.

Cinco horas de uma tarde de quarta-feira. Corro até a cozinha e abro a geladeira... Quase nada! O que darei de comer ao desconhecido? Pizza? Pão de queijo? Torta de frango congelada? O que beberemos? Chá de hortelã? Licor de cicuta?

Ligo para o restaurante, peço socorro ao dono, o Alberto, amigo de longa data e de muitas dúvidas gastronômicas.  Peço qualquer coisa saborosa. Mas me dê uma idéia do que deseja, Maitê! , e respondo que não importa, contanto que seja para dois e que entregue às sete em ponto. E que ele também escolha um bom vinho, porque da vida pomposa que tive rejeitei etiqueta e conhecimentos gastronômicos e alcoólicos. Do vinho só lembro de tê-lo sorvido para suportar as festas promovidas pelo Ernesto e para agüentar os olhares inquiridores dele ao comprovar, devidamente, que eu era, e por opção, uma péssima anfitriã.

Não servia para a função naquela época e ainda não sirvo, nem quero aprender a servir. Mas aparece esse homem, amigo do Horácio, quem acha que devo encarar a realidade a ferro e fogo, como se não soubesse dos meus passeios pelos infernos disfarçados. Tem a Adelaide, que nem me deixou aproveitar um pouco da solidão com ausência, porque sentir solidão na presença de Ernesto era sofreguidão da pura. Na ausência, é quase poesia.

Sete horas, comida na mesa, vinho, velas. Adelaide me fez jurar que eu colocaria velas nos castiçais, que seria um jantar charmoso. Como ela não exigiu mais nada, decidi eu mesma pela roupa. Tocam a campainha e eu respiro fundo antes de atender. Quem é? É ele mesmo... Rodrigo, amigo do marido da irmã doidivanas que decidiu marcar um encontro às escuras para a irmã insossa. Abro a porta, nos fitamos: desleixados da cordialidade.

Poucas palavras foram pronunciadas durante o jantar. Rodrigo, assim como eu, brincava com os talheres, aborrecido que estava com a situação. Certamente, Horácio o convenceu a jantar comigo através de chantagem. O que seria? Rodrigo o estelionatário? O assassino? Não... Rodrigo o primo de qualquer grau que não o primeiro e que se mudou para a cidade não tem muito tempo.

Às vezes, ele se dá conta de que eu estou presente e sorri. Fez elogio à comida, e eu confessei que mandei comprar de última hora. Desfiou um rosário de adjetivos para o vinho, e eu disse que não entendia nada do que ele estava falando, que só entendia era de buquê de café e flores do campo. Porém, não podíamos negar que estávamos na mesma situação. Assim como eu, ele queria sumir do mapa, mandar o mundo plantar batatas e com ele Adelaide e Horácio. Optei pela solidariedade.

Conversamos durante pouco mais de uma hora, sentados no chão da sala. O terno de corte fino dele jogado sobre o meu tapete persa. Pergunta se eu sempre recebo vestindo moletom. Bancando a ofendida, esclareço que é o meu moletom preferido e ele sorri, alertando-me que isso muda tudo e dá total status ao feito. Ele diz que está na cidade para resolver um problema complicado, mas que não deve ficar muito tempo. Comento que este foi o encontro às escuras mais condenado que alguém poderia ter. E assim, tecendo ironias a respeito de quem somos e de quem Adelaide e Horácio gostariam que fôssemos, percebemos a empatia se juntando a nós, cruzando pernas e fazendo caras e bocas, atrevida que só. Luxuriosa.

Pergunta por que o meu casamento acabou. Respondo que nunca fui casada de fato. Pergunta por que nunca fui casada de fato. Respondo que isso já não tem mais importância e merece o esquecimento. Sorri, pergunta se me acho uma mulher de coragem...

Meu pai, aos prantos, veio a mim e pediu que aceitasse; que era para o bem da família. Até então, cuidar de quem se ama para mim significava proteger, não sacrificar. Aceitei, convencida de que a minha vida ofereceria a todos da família o bem-estar que muitos não poderiam alcançar, além dos títulos, rótulos, conveniências, brasões... Símbolos pelos quais meu pai daria a vida. E eu emprestei a minha ao me casar com o Ernesto, até o dia da morte do meu pai, quando pedi a mim de volta. Não acho... Sou uma mulher de coragem!

Rodrigo se concentra no vinho. Ainda bem que Alfredo é conhecedor dos hábitos do ser humano,pois sabia que precisaríamos de outra garrafa e enviou a extra. Diz que me acha uma mulher muito bonita. Rebato alegando que ele não tem realmente idéia se a minha pseudo beleza de fato o conquistaria em outra ocasião. Por quê? Seios flácidos, pele ressecada, barriga eminente, quarenta e cinco anos contra quantos dele? Trinta e dois? Trinta e três? Ele sorri, mas parece triste. Pergunta se eu tenho medo da morte e, sem pestanejar, respondo que não, que a tenho como companheira de viagem da vida. 

E chegamos naquele momento constrangedor em que percebemos o que aflige o outro.  E ele deita a cabeça nas minhas pernas, homem destinado a ser filho meu por algum motivo. Não resisto à maternidade do acaso e pergunto o que há, preocupação pelo estranho que choraminga, enquanto aperta, de leve, a minha coxa. Um silêncio constrangedor e pouso a mão nos ralos cabelos dele. Agora o percebo debilitado, apesar de bonito, grandes e vivos olhos negros. Ele se senta bem próximo a mim, me encara enquanto abaixa o zíper da minha blusa e segura o meu seio, como se nele morasse algum tipo de bálsamo. Olhar lacrimejante o dele, o meu é de susto, bem sei. E de certo prazer, porque ainda que me preocupe aquele tom de tristeza na feição dele, me faz estremecer sentir os seus lábios dele me tocarem, e me assusta alimentar outro homem assim tão cedo, antes mesmo de desejar fazê-lo.

E escorrega o corpo sobre o meu, beijando a minha boca, um regalo da vida para uma mulher desafinada na paixão. E me abraça, entregue a um choro que me enegrece ainda mais a alma. De onde vem essa tristeza? Por que ela bateu na minha porta? Bastava a minha própria ser companheira de casa.

Deitada no chão, ele aconchega-se no meu corpo, cabeça deitada na minha barriga, como que tentando ouvir algum conselho vindo de dentro de mim. Mãos segurando os meus quadris. Limito-me a acariciar suas costas com uma das mãos, temendo o desfecho daquele encontro mais cego do que poderia Adelaide imaginar.

Pergunta se estou bem? Sussurro que sim. Pergunta se quero fazer amor. Respondo perguntando se não há como comprarmos feito. Sinto uma gargalhada contida ressoar na minha barriga e essa sensação me causa outra: como se um leve choque trafegasse pelo meu corpo. Pergunta se já fui feliz. Não respondo. Insiste. Digo que não sei, mas que provavelmente sim. Porém não quero me entreter respondendo perguntas que não foram criadas para serem respondidas. Pergunta se eu poderia lhe fazer um favor, mesmo o tendo conhecido somente há algumas horas. Mesmo ele sendo um estranho. Respondo que não deixo estranhos se aproveitarem da minha barriga. Faria? Faria... Por que não? Estamos sempre prontos a fazer favores, prestar serviços físicos ou emocionais, até mesmo os físico-emocionais, quando não há nada a perder.

Sinto quando uma lágrima escorre na minha barriga, ela que parece até a atriz principal da novela. Ele diz que está doente e não tem muito tempo de vida; que precisa partir antes que a dor o parta ao meio, de tão insuportável que é. Confessa que prefere convidar a morte a ter de esperá-la chegar. Pergunta se eu poderia assisti-lo dançar com a morte, antes de ser engolido por ela, porque o único medo que sente é de estar só neste momento. E me sinto estranhamente em paz ao responder que sim.

Não é a primeira vez que algo tão inusitado toma conta da minha vida. E ali, deitada na cama que foi minha e do Ernesto, e agora é só minha, um Rodrigo abatido a me amar sem amor... Que seja... Ao menos não goza em mim suas mágoas, e sim essa melancolia que conheço de cor; já é minha parceira há tempos.

Olhar dele fisgado pelo meu. Aposto que treinou muito para quando encontrasse a pessoa certa. Então é fato: existe a pessoa certa... Eu sou a pessoa certa para ele, que me chama de santa e sorrio, pensando que todos os santos estariam me condenando por ter tomado tal decisão. E já teriam providenciado a minha passagem para o inferno. Mas ele precisa de mim... Uma mulher que não se deixa seduzir pelos castelos construídos na areia ou nas plantas de apartamentos em construção, ou pelo tafetá do vestido de noite capaz de lhe garantir fervorosos momentos de paixão que se esvaem ao primeiro sinal da chegada do dia. Alguém que se dê conta da dor que ele sente e que se proponha a ir com ele até o fim, mesmo que seja para amargar mais tarde. Porque ele sabe da raridade em se ter esse tipo de companhia.

E foi enquanto nos beijávamos, excitados com o desfecho, ele sob mim, manuseando a seringa com liquido do qual preferi desconhecer nome e origem, injetando na veia a visita da morte, que me senti realmente desejada pela primeira vez. Ironia, empatia, prazer, solidão. E ao assistir Rodrigo fazer a corte à morte no ápice do gozo, ele ainda dentro de mim, dei-me conta da fragilidade da vida e das certezas que colecionei ao passar por ela.

Sentada na beira da cama, atrás de mim jaz Rodrigo, meu encontro às escuras. Só consigo pensar no epitáfio: “aqui jaz Rodrigo, homem que escolheu ao invés de ser escolhido”. Em folhetim isso daria ibope, os editores enriqueceriam ao explorar tal história.

Recolho as roupas do chão e me visto. E se choro baixinho, não se atormente por mim, eu já o faço sem ajuda. É que me intriga não saber se assisti a morte de um estranho ou de alguém que conheço há muito tempo: eu mesma. Porque sequer amanheceu e eu já começo a fechar as cortinas, querendo que o sol fique lá fora para que eu possa lamentar um pouco mais por aquele homem de quem, de uma maneira mordaz, conheci da companhia o gosto. E que levou parte de mim com ele nessa viagem. Uma parte que jamais terei de volta.