Contemplação
Surtei foi de
fascínio.
Foi de ver os lábios ressecados serem banhados pela água do copo,
Num simples gesto de secura.
E de, em seguida, esquadrinhar a geografia do sorriso minado.
Foi de engolir a seco o até logo,
Ainda que melindrando a partida.
E também de ter presenciado os olhos aguarem por dor de amor,
De saudade.
E de como negou se entregar a esse desfecho,
Temendo não mais voltar do abismo que ele oferecia.
Surtei foi de vontades.
De alisar-lhe a face com as costas da minha mão vazia.
Que nelas houvesse o mapa que desse no carinho que necessitava.
Que o gesto fosse de riqueza apaziguadora,
E que do abraço vertesse essa poesia que jamais consegui decifrar:
Compartilhamento.
E o tempo fosse embalado pelos bons ventos.
Que chovesse girassóis.
Que dessem frutos no jardim.
Que avermelhasse de pôr-do-sol esse dia.
Surtei também de tristeza.
De parecer infinito e sem brandura esse caminho.
Por ter no bojo da minha alma a fadiga aninhada.
De temer o começo do fim dessa benquerença de intensidade que sei...
Dará em saudade que jamais partirá.
E de velar a realidade na crueza das restrições.
Surtei de esperança.
Porque não há como negar a beleza do abrir os olhos.
O gosto de tomar café quente em dia frio.
As gargalhadas dos amigos, depois de contarmos uma piada sem graça.
E porque me volta,
E sempre,
A lembrança de como fala tão manso,
Como se entoasse uma canção que, ainda que repetida,
Soaria inédita.
Uma canção de afetos.
(des)Cabimento
No mundo cabe
verso
Cabe estrada
No mundo cabe
Às dez horas da manhã
Na alta madrugada
Cabe o choro
Na tez da moça triste
Uma deusa pagã
Nas mãos cabe gesto
Cabe sol
Nas mãos cabe
Ternura e uma canção
No olhar distraído
Cabe procura
Na alma intranqüila
A solidão
Na alma cabe desejo
Cabe mágoa
Na alma cabe
Cantatas e paixões
No corpo trêmulo
Cabem charadas
Na falsa indiferença
Razões
Descabimento é esse
Caber o olhar na fresta
Embrenhar o olhar na festa
Pra bailar a sós o amor
Faltas & afins
Palavras no cio
Estrelas no céu da boca
A nudez das horas
Debaixo dos cobertores
A voz embargada
O choro contido
A emoção seqüestrada
Dos desamores
A obscena saudade
Atravessa-me afiada
Vestindo a alma sob a quentura
do sol
Ao
Eduardo Loureiro
Ruminação...
Deixar-se à mercê do significado literal de mastigar.
Mastigar a vida.
Alimentar-se dela.
Mastigar os sentimentos.
Alimentar-se deles.
Mas de um jeito tão silencioso,
porque não deseja dividir a trilha sonora
com desconhecidos nada interessados em conhecer o dentro do outro.
Ruminar somente com conhecidos de alma;
com aqueles que se permitem exorcizar tragédias pessoais...
Das pequenininhas às devastadoras.
E dos que riem do outro, mas sem ofender ao próximo.
Dos que fazem certo charme,
mas ficam por perto e confidenciam que,às vezes,
cultivam fetiche pela felicidade.
Ruminando lonjuras quando tudo o que se quer
– com o desespero dos silentes -
é aquele abraço...
Nenhum outro.
Nem ninguém.
E daí fazer bico,
chutar parede que é pra doer mais o dedo do pé do que a alma...
Que deixou de querer ser amante da solidão enraizada.
Então, encher os olhos d’água, só porque, enquanto enxugava a louça,
deu-se conta de que depois de um tempo
- que nem dá pra contar,
o coração deixou a aridez de lado
e convidou a paixão pra dançar.
Matando a sede de viço.
De vida.
Dando de comer ao amor.
E às danças: pés descalços tocando o assoalho.
Convalescença
Envelhecer...
Livro de cabeceira: bilhetes
Cena preferida: fotografada
E arquivada em porta-retrato
Obra?
Horas despidas da bajulação
Da máscara
Mãos espalmadas
Mãos abraçadas
Vozes recolhidas
A lágrima despejada pelo sentimento
Ao anoitecer
Xícara de chá de ervas
Flores flertando com o silêncio
Música que marcou época: tantas
E o perfume da madrugada |