Não é prudente pensar no
amor como acessório gracioso. O amor faz da graça um objeto obsoleto, um
auto-retrato cômico e brutal do perigo, e fortalece os destemperos do
epílogo de qualquer história. Como aquela que do amar demais tirou o
temer ferozmente não ter. Exageros arbitrários.
Ele: acarinha o rosto dela como que se apoderando da beleza perfeita.
Ela: sorri porque conhece o modo exato de fazê-lo e que tanto gozo nele
provoca. A totalidade é um confronto. Ele ama amá-la. Ela ama amá-lo.
Ele odeia amá-la. Ela odeia amá-lo. O que fazer com os destratos do
perfeito? Como bradar com a imensidão do que é febrilmente indecifrável?
Ele: sente a fragrância do desespero se apoderar do seu corpo. Ela:
sente o que ele sente. Ponto.
Enquanto envolve a mulher que ama também pensa que não tê-la conhecido teria sido melhor. Ele não sente culpa por pensar assim, tamanha é a dor que a possibilidade de um dia perdê-la causa. Ela pensa que se ele não existisse seria tudo diferente, ela não se atreveria a sentir algo tão denso, tão singular por outra pessoa. Ele diz que o perfume dela é inconfundível, enquanto gostaria de não mais senti-lo. Ela diz perder-se no som da voz dele, enquanto gostaria de nunca mais ouvi-la quando está dormindo, tentando alcançar outros sonhos.
Então ela volta à dança, gestos vibrantes. Ele torna a observá-la dominado pelo deleite. As coisas se ajeitam dentro deles; sombras adormecem. Eles são novamente apenas crias da intensidade do que sentem, ignoram o que os cerca. Um vôo cego comandado pelos requintes do amor brutal, da violência da possessão. Felicidade? Dizem uns que ela é tranqüila, agradável. Pensam eles que ela é pretensiosa e cheia das artimanhas. Ainda assim, doce felicidade essa que os açoita, sangra, aprisiona.