Coloca a mão sobre o seio dela, uma carícia e logo vem a busca ao
coração. É ao senti-lo bater descontrolado que constata ainda estar
vivo. Passa muito tempo apenas olhando sua mão sobre a pele dela, como
se qualquer um ao vê-los naquele momento pudesse compreender que tudo o
que os liga também separa. Fácil é conhecer uma pessoa superficialmente.
Difícil (e até mesmo perigoso) é fazer aquele jogo no qual eles se
esbaldam. Conhecer dentro e fora; fazer do prazer do corpo a essência da
alma; entregar-se totalmente e com tanta fúria, tornando fácil esquecer
da existência do mundo. Tudo parece mais cálido, étnico, ávido.
Foi essa rendição que ele amargou durante toda a noite. Será que ela
suspeita do seu sofrimento? A lembrança de vê-la pela primeira vez
tornou o transe menos cruel, mesmo sendo mais um artifício do destino
para confirmar as suspeitas dele. Nunca conseguirá viver sem a presença
dela e a possibilidade de ausência o torna uma espécie de militante
emotivo. Está disposto a chegar onde for, contanto que nada mude, que
aquele sentimento profético não o deserde.
Ela quer encontrar as palavras certas, mesmo sabendo que elas nunca existiram e não seria no ardor do instante que as inventaria. Enquanto roça sua pele na pele dele, sente borbulharem dentro dela todos os medos e desfeitas. Ele a toca. E ela sente: corte profundo, a dor da dúvida neutralizando o prazer. Não tem o dom de saber as preferências dele de comida, bebida, livros ou discos; mas sabe de cor como deve abraçá-lo, beijá-lo, tê-lo preso nas entrelinhas do seu querer e entre as suas pernas. Sabe que pode passar fome, sede ou a total escassez de cultura, mas não há como sobreviver à inexistência dele; sem poder integrar a total ausência do mundo que há na sua presença. << anterior <<