Vôo Cego

Está a bordo do seu momento mais tenso. Nervos retesados como pensamentos alugados do dia que não foi dos melhores. Quantos dias insatisfatórios ainda terá nessa vida? Basta estar vivo para se deixar levar pelo império do abandono. Hoje são mistérios que se acomodam nas suas veias, gelando sua alma de maneira a conservá-la em dia. Ele tem nome, mas não se lembra bem dele no tal momento. Talvez deseje perder a identidade.

Olha as mãos dela escorregarem pelos quadris, desenhando em falso colorido a curva de um corpo que concretiza os seus desejos mais bélicos. Suor na testa dele. Graça na dança dela. Não compreende como alguém tão terno caiu assim nas suas mãos. Uma mulher de gestos sutis, mas que não sofre de falta de identidade; que está envolvida apaixonadamente consigo mesma e com as descobertas oferecidas pela vida. Lembra um pouco Greta Garbo quando o encara, tentando seduzir o instante do qual homem nenhum gosta de perder a autoria: o da conquista. É a forma como domina a si mesma que a torna tão letal. Fecha as mãos e as aperta tanto que as unhas deixam marcas avermelhadas nas palmas. Ela sorri, mas sem perder o ritmo. Ele controla a dor e depois solta um suspiro de alívio – momentâneo.

Escolheu aquela música por fazer parte do passado dela. Dançá-la é como despertar emoções arredias. Mas, ele não sabe disso. Pensa que qualquer música é capaz de deixá-la desperta e liberta, sem as cruzes da vida sobre seus ombros. Cada um, a seu modo, mente sem deixar pistas.

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