Vamos sorrir nosso
desconfortável espaço. Estamos abraçados a um sonho que revela o
infinito. Abraçados, fortemente, enlaçados num fugidio instante que se
refaz do cansaço de ontem. Lendo nos teus olhos o despreparo para a
realidade e a vastidão para a imaginação, quase compus uma canção. Do
cotidiano você tira trégua e recria a cena. O artista que emudece e
chora a alegria, fazendo de conta que vai passar e teremos um universo
de liberdades heróicas para viver.
O que trago de amargo gosto é a facilidade em dispersar onde não deveria
fazê-lo. O que mais temo é molhar os pés no lago pelo qual passei,
enquanto seguia em direção a uma cidade que desconheço o nome. Brigam,
dento de mim, a figura sem gestos e o sentimento de prisão. Gole a gole,
jogo para dentro a fumaça...
A fumaça rodopia, dança de vento que bate e suas mãos têm a leveza da seda. Úmida casa... Faz frio aqui, tão longe. Faz frio. Minhas mãos se perdem e eu volto a procurar por mim. Eu volto.
Sobre minha escrivaninha, telefones que não uso, agendas que quase impero. Sou o rei da minha escrivaninha e seus rebeldes dizeres. Sento do outro lado, olho cima dos ombros e sinto que não quero saber... Não quero saber dessa coisa de remendar a essência minha que dorme o sono agonizante da letargia.
O mundo que me desculpe, mas gostaria de entretê-lo, enganar o mundo e sair correndo em direção ao primeiro quarto vazio que encontrasse. E lá ficaria a espera de que alguém abrisse a porta.