Há, sobre minha mesa, papéis
que se misturam desconfortavelmente. Há, atrás da porta, uma família
reaprendendo o sabor do jantar de domingo. Há, ilusoriamente, mas há,
mil possibilidades de reaprender o mundo. Eu sei... Eu temo... Eu sei...
Quero pular do muro, cair
com os pés descalços na calçada de um outro tempo... Quase uma doce
loucura, um doce gosto. É como querer morar na lua e beber a água do
oceano, ela escorrendo gelada e limpa em minhas mãos. Talvez eu encontre
um mago qualquer que resolva transformar a mim, homem de dores e mais
dores, no menino que releu e redescobriu o sentido da vida.
Sempre possível irei até o avesso de quem e encontrarei a mim quando
ainda sabia avaliar o gosto por esperar da vida o que ela pudesse ser:
uma grande brincadeira.
Há sobre a cidade uma silenciosa sombra, capaz de tecer a história que
devo contar, amanhã... Para mim? Há um céu que reflete (espelho que
retrai) a figura distante de um homem que trago nos bolsos.
Quem trouxer, agora, algumas palavras que não sejam corroídas com o
tempo, eu aceito. Quero mascar cada uma delas, feito chicletes que, vez
ou outra, cumprimento a dentadas. Quero senti-las no meu hálito.
Pronunciá-las em silêncio. Somente palavras casuais que de tão simples
se mostram sábias. Quero comer a sabedoria, torná-la tão sem defesa que
assumirei o poder para depois sair correndo, frágil de
tantas descobertas. Quero viver o ciclo que não me leve sempre ao mesmo
ponto de partida, mas ao recomeço repleto de idéias.