Desatino
Aconteceu de o dia
Alastrar-se na minha sala
Foi de repente
Não deu tempo de cicatrizar a lua cheia
Ainda exposta no meu olhar
Nem de aproveitar a noite
Ou fazer as malas
Sequer de me esquivar do final de tarde
Este dia demandou respostas
Como se pedisse a promoção
De fast food
Para sustentar suas benquerenças
E eu emudeci por falta de regalo
De cadarço para amarrar – em buquês -
Desapaixonamentos
De destreza para recriar a magia das intenções
Ou a espontaneidade das devoções
A consolação dos sorrisos
Quem sabe até quereria o dia
Cingir a humanidade esquecida
No abraçar de uma rotina envaidecida
Pela capacidade que tem de mutilar
Sonhos
De fragilizar
L i b e r d a d e
Este dia cravou saudade na minha carne
Afogou a falta nas minhas veias
Sapateou no meu coração...
Acossado
Mendigando mimos
Considerações
Lar
Gris
Cravo disfarces no ato
e não desfaço,
empaco a palavra antes que ela vire delícia
e se apodere da malícia do cruel sorriso que se deita
neste instante sem nome de batismo,
que tem apelido: instinto.
Tudo parece tão de longe,
tão discreto,
ainda que na festa do escancaro
a folia seja para poucos e
para os insanos sãos que sãos nunca foram,
para o ensaio do abandono e
para os clichês que nos moldam
com as próprias mãos, línguas, canções e assombros.
E carecem do remendo da saudade todos nós,
os nós da inverdade lapidada em refugiadas brasas,
indignadas e adormecidas
- entre os termos, entre as pernas, entre as aspas -
sinto saudade do que arde sem denunciar a chegada,
do que assusta, arrasa, ampara e traz à vida
e não somente através do parto
mas também da partida,
da partilha,
da cama dividida sem precoce viuvez da fantasia,
e que assim de transeuntes anônimos sejamos transformados
em anônimos com direito à liberdade,
armados da coincidência e da defloração dos sentidos
para que possamos vagabundear sentimentos transparentes
que dêem ao corpo dormente a cor gris
que engana aos olhos, mas ao coração: dá o acertado tom.
Lamento
Lamento se as horas não passam como você queria.
Por elas não se lambuzarem de delícias
durante os mil, quatrocentos e quarenta minutos do dia.
E por eu não saber aprisioná-las ao agrado do tempo.
Não nasci guardiã das horas como você desejou em segredo.
Não tenho como esticar os segundos até torná-los eternidade.
Lamento não ter nascido da cor e no tamanho certo
que você adotou como regra ao seu agrado.
E por minhas palavras soarem desarrumadas à sua compreensão.
Também por não saber as respostas para as suas perguntas catárticas.
Por estar presente nos momentos mais frágeis da sua existência.
Sustentando no meu colo o peso das suas, às vezes, inexplicáveis
tristezas.
Lamento se as horas se arrastam como você não queria,
por elas valsarem em par com a ventania;
a mesma que desmancha cabelos e desarmoniza a paisagem,
fazendo com que folhas das árvores despenquem...
... E da alma da gente seja arrancado
um tanto de saudade.
E lamento por considerar tudo isso alguns dos milagres da vida.
Daqueles que acontecem quando nos prendemos ao tempo
e esquecemos da assimetria da velocidade que rege um segundo de alegria...
Dias de euforia... Minutos de prazer... Anos de parceria.
Tempo sem que o lamento seja uma fiel companhia.
Milímetros de um eu sem cura
Sou eu...
Um segundo de luz
que dói,
amarga os olhos,
transfigura o semblante,
neutro.
Sou eu...
De beleza que de belo
só tem os braços
deitados sobre o colo.
Não posso olhar
minha alma.
Não posso assisti-la
num canto.
Sou eu...
Rústica, acariciando pés
incansáveis.
Caminham sobre mim
pés que doem,
me encantam.
Sou eu...
Quero comer uma fruta
de doçura que dure o instante.
Assim como dura até hoje
o ontem
que sou
eu.
Punhais
Atravesso-me com punhais de mim mesmo,
um caleidoscópio em dia de chuva
enveredando pela serenidade
de gotas embaladas em melodia própria.
Atravesso-me, inconstante,
com suspeita de que o presente
irá durar tão pouco quanto este pensamento.
Atravesso-me com punhais em veneno,
cicatrizando tais dores
e concebendo apenas um - o ferir a mim.
Ao abrir os olhos
não estavam mais lá minhas saídas programadas
e eu senti vazio.
Atravesso-me com punhais em delírio,
que desmancha o desenho perfeito
dessa minha alma imperfeita na sua vastidão.
Atravesso-me com as dores que se alastram
pelas minhas veias inquietas
e se esparramam tal qual palavras gritantes
ecoando em dia de pacato domingo.
Atravesso-me com punhais imprecisos
que entre hoje e ontem, rabiscaram segredos
no meu coração.
Solitários
Ainda se esparramam
pelo chão
pela madrugada
Esparramam-se (eu - nós) freneticamente
enquanto outros
tragam possibilidades
de amanhecer
essa tal
noite
que parece não ter mais fim.
Vandalismo
bebendo da cor
dos olhos
da pele
sugando respostas
gestos
sorrisos
montando às escuras
passado
histórias
desmontando um todo
em busca do nada
levitando
nas mãos espalmadas
padecendo
da dor consentida
o alimento
verter madrugada
sem cruzes
sem asas
o chão morno
aos pés
cor de terra
sina