Humanos
Inspirado no filme "Amor e restos Humanos"
(Love And Human Remains, Canadá, 1993) de Dennys Arcand
Ensina onde fica o nó do sonho para que desfaçamos a demanda da vida e talvez possamos ser tudo sem sermos nada e sermos pintados aos quadros e cantados aos prantos mas sem perdermos o rumo se é que perdemos mais do que a sessão de cinema das nove dessa noite de sublime delírio quando nossos corpos são corpos e corpos se desfazem e até se reconstroem mas é na nossa alma que guardamos o relógio despertador desse compulsivo desejo por felicidade que se abate entre nossas anomalias e vingativas telenovelas e às vezes queremos ser tristes para saber a diferença entre plenitude e confusão e gostamos de nos trancar no quarto e ficar sem ver o mundo para ligarmos o rádio de madrugada e ouvir uma doce e desentendida canção que nos faça ficar jogados aos trapos e trapaças pessoais e alheias e façam com que as nossas veias pulsem até que haja colisão entre nossos corpos e almas e nossas tarefas de homens do mundo sejam completadas.
Ad libitum
Amanhece, anoitece, envaidece
o dia após dia, de noite, de dia, fita raios não de sol, mas de olhares
apocalípticos: ateliê de emoções, passado, futuro, submergem e são
presentes do deus-dará, avant-première da emboscada de autoria do
vento que esvoaça as saias das moças e os pensamentos dos moços, é um
carnaval de emoções açoitadas pelo sabor do regresso, de volta à casa: o
atrevimento, este que cultiva o suspiro de alívio bem no fim do espetáculo
do pôr-do-sol, cortesia da mãe das palavras-nunca-ditas por não haver quem
as redima do pecado de apurarem as almas para que elas dancem o tango de
Piazolla, que rocem coxas ao som dos triângulos e zabumbas, que cacem o
ritmo das frases das quais sempre quiseram assistir o parto, presenciarem
o primeiro som que foge do baú dos perdidos e, até então, jamais achados.
Diz-se do coração: tambor pulsando o universo das possibilidades, pés
marcando o tempo que passa, envelhecendo encantadoramente os ideais que
não acontecem às pressas, é preciso a contagem e a recontagem, estiagem
dos dilemas, depuração das vontades, quem deseja quer, flerta com a
intensidade, dá a mão ao o-que-será-que-será, cantarola o destino e
instrumenta o eterno: um compasso de reflexos.
Refletir sobre a negligência às vestes (descaradas) da rudeza, esta que
sacrifica um sonho para dar gosto a um simples instante de realidade,
furtivo, algoz da perpetuação do que seja – pausa sobre a mesa: um jantar
à luz de velas, perfumes (flores, nostalgia, amores), gentilezas trajadas
de desenvoltura.
E enquanto a vida acontece além de mim, improviso, durmo e acordo com a
sensação infeliz de estar sentindo felicidade.
Amor banal
De uma flechada só e não, não
tem a ver com caça, mas até doeu, sabe? , consumiu um bom tempo de
impaciência e ciência na arte de lidar com tragédias interiores. Porque se
ofereci meus préstimos é por ter acreditado que seria melhor assim, eu
entregue aos drinques casuais e você aos verbetes, leitura assídua ao
dicionário do sol nascente de todos os dias que não de chuva, poetizando a
profecia adequada ao nosso momento de insight. Eu: profanando a felicidade
do teu olhar ao encontrar uma boa rima, a fim de aliciar minhas emoções
censuradas. Mas não sou dondoca. Não verto fragilidade em público, mesmo
enquanto dispo roupas, sanhas, sapatos e bijuterias, e peço sem qualquer
lirismo dá pra fechar a janela?
Nesta tarde, o suor de verão e pretensão se misturam. Não é sexta-feira?
Domingo? As crianças brincam no parque. Programas de auditório,
balzaquianas a passearem pelos corredores do supermercado 24 horas e em
dúvida: vinho ou chocolate?
Bastava um giro desengonçado do mundo para eu estar entre eles: pioneiros
da rotina deslavada. Mas fui além e elegi somente invejá-los, e então bebo
meus drinques no gargalo da ironia, profanando a felicidade, enquanto um
olhar enxerga em mim quem não sou, e descansa no engano, satisfeito,
esquecido das malandragens da vida. Poesia e profecia.
Confissões
Em três (desac)atos
I
Nasci tamborilando, criando notas confessas à música expressa, café preto,
paradisíaco silêncio este das folhas dançando ao vento. E nasci ré
confessa, ameaçando conceitos, porém, há quem não me note, enquanto vivo
essa vida vestida ao Deus dará do destino. Capitulando achados & perdidos,
e insanidades tão boas de se comer na hora da janta.
Ao nascer, burlei as leis da fragilité, engolindo sapos, me virando do
avesso para permanecer com a cabeça fora d’água. Não sei nadar, mas
escolhi remar contra a maré, sapatear ao som do be bop e do popular
orgasmo comunitário de se bem querer o que vier.
Paginei a história desferida a mim pelo destino, mas fui co-autora, entrei
na onda de defender direitos autorais da minha própria vida, passando mais
tempo idealizando do que fazendo o meu papel. Nasci cínica e concisa,
fortemente armada de empatia indigesta e quer saber? Sou mãe da lâmina
fria que fatia sonhos inteiros, e fragmenta pesadelos só para que o jogo
continue.
Creio ter nascido madrugada, gritando melodramas e inapta a contar piadas,
eu que rio de tudo e um pouco mais, que socializo o futuro com o presente,
mas que adora adornar o passado. E o primeiro olhar ao mundo, monoteísta,
embriagado de beleza que tem a novidade. Antes era a escuridão e os
cheiros e os acentos errados nas palavras certas, criando o monólogo,
ensimesmando as possibilidades, farejando luar.
Nasci debruçada na ilusão de que alcançar estrelas era compor um sorriso.
E o primeiro afago aviltou meu vazio, e reiterou o meu dentro, parindo em
mim desejos e trejeitos e me desenhando tão eu que, muitas vezes, me
desconheci, a estranha refletida no espelho da alma, correndo para
esconder o supérfluo de si mesma, querendo sumir com as farpas, buscando o
sossego na auto-omissão.
II
As mãos objetaram. Desde o início refutaram o veredicto. Mãos que assinam
documentos, fechando grandes negócios, às vezes não, assinam somente a
despedida da carta deixada debaixo da porta. As mãos que objetaram querem
se atrever e erguer-se para votar contra o. E para acenar, mostrar
localidade, gerar mudanças.
Minhas mãos jogam cores na tela em branco, mais por incompatibilidade do
que arte. Não desejam criar obras a serem expostas, mas sim exercitarem o
direito de não serem talentosas, de debocharem disso.
Madrugada. Meia-luz e a intimidade do sorrir para ninguém, me fazendo de
esquecida, de vilã da história bem-feita para mocinhas bem-comportadas.
Vivo de beiradas, de apoio, de riscos. Vivo de nada ter e o que vier ainda
é lucro. E vivo de morrer a cada segundo, enquanto chove em um lá fora
distante e a comida esfria no prato, e os gatos se enroscam no telhado, e
pessoas se envolvem no acaso como se ele fosse uma tal de tábua de
salvação.
Vivo de eriçar pêlos pelos motivos disformes, quando o medo me concede a
próxima dança e me olha nos olhos, me embriaga e depois engole, seduzida e
entregue. Ainda assim eu vivo, crente de que há mais chances do que as que
encontro, de que o universo pode conspirar a favor, mas quem me faria o
favor de me fazer compreender o que ele quer dizer?
Exaurida, a alma convoca ilusões. E quando vejo, está o vício dominante.
Nada mais parece real. O meio-termo estacado no meu peito.
III
Conhecer de cor e salteado, de trás pra frente, como se fosse, conhecer o
gosto, o agridoce do padecer em silêncio, no centro da sala de estar
outros centros se perdem, enlouquecem mediante o frenesi do imutável.
A palavra foi calada na fonte, nada de metáforas recorrentes, doses
ultrajadas de amores vãos e vãos nas paredes, um olhar sugando das frestas
a melhor imagem possível. E o barulho da chuva vindo de fora, a
estrangeira melodia ninando o meu universo desbotado, o diário imbuído no
passado.
Desabrigada
Um coração transbordando
esvaziamento. Um mar de hieróglifos, traduções simultâneas equivocadas. No
alento do desconhecido pousa mãos e galhos de arruda. A cabeça encostada
no vidro da janela, já não lança ao além o olhar que antes se deliciara na
contemplação dos planos de viagem: mundo. Dedicara-se a desenhar na alma
mapas dos lugares que, ao toque da adultice, tocaria com os pés... Os
mesmos que dançavam, descalços, nas noites de inverno, agradecidos pelo
movimento que os aquecia.
A maturidade lhe ofereceu experiências de bandeja, porém não a alertou
sobre as cicatrizes que viriam de sobremesa, tampouco sobre as decisões
áridas que teria de tomar. Nem mesmo sobre como o desejo poderia ser tão
dolorido: nunca sonhou a barriga brilhosa de tão esticada pelos meses que
a vida de outro viria a pulsar dentro dela. Ao invés disso, deixou-se
subornar pela sedução de deitar-se, amante, sobre o palco. Esquecida que
é, não interpretou o desejo, mas o deixou ainda mais eufórico. Não mentiu
a verdade e gemeu como que participando de um concerto e, ao invés de
aplausos, suplicou ao espectador da sua intimidade que suas mãos deixassem
o ar e pousassem entre as coxas dela, entregando-lhe o alívio de ter sido
amada com gosto, ao menos uma vez.
Parturiente da inquietação.
Incógnita por opção?
Nem sempre... Já desejou que a desvendassem e por tantas vezes que se
entregou ao regalo do cansaço, depois da última negação. Permitiu que a
olhassem de dentro para fora, mas não compreenderam ou pensaram ser
difícil demais lidar com os dragões que a habitam e, vez ou outra, saem
para passear e atear fogo na trivialidade.
De dentro para fora ela se esbalda em dissonâncias. Entre as faltas que
coleciona, algumas se mostram tão simples que fere se dar conta de que
ninguém se propôs a estancá-las e, talvez, não venha a acontecer. E ela
tenha de conviver com a ausência a tricotar ciúme ao alheio na alma da
mulher esquecida que se tornará.
Fecha os olhos. Dedos a saborearem a lisura do vidro e vem o arrepio de
desassossego. Os cheiros da casa se misturam: incenso, café e perfume. O
relógio parece mais apressado do que nunca, mas o tempo é relativo quando
parceiro da espera. E impregnada de renascida disposição, ela se permite
engravidar de esperança e busca na sua coleção de faltas a que mais lhe
emocionaria ser estancada: o abraço a lhe entregar o sono. O descanso. O
alento. O abrigo.
Lola
"Sabia,
Gosto de você chegar assim
Arrancando páginas dentro de mim
Desde o primeiro dia"
Lola / Chico Buarque
Quando a vi ficar nas pontas dos pés e balançar os braços no ar; aquele
sorriso vasto e que me tornou homem novamente depois do exílio. Lola, ela
gritou o nome bem alto, como se soubesse que eu havia renascido apenas
para ouvir tal música. Meu peito cantava... Era o acelerado coração a
desentender-se com a agonia. Antes não, eu não sabia ser possível abrandar
tudo o que trazia doendo dentro de mim. Nem mesmo os amigos e o esforço
todo ao tentarem despertar em mim o gosto pelas doces surpresas da vida.
Eu observava Lola, a pele branca que intimidava o sol, mas era com o
frescor da autenticidade. Tudo ao redor dela tornava-se fosco; era Lola
quem brilhava com a sua bela presença, e nada mais fazia sentido.
Carros avançando sinais, pessoas atrapalhadas com os horários. A cidade
enlouquecia sem dar-se conta da presença daquela mulher-menina, uma
mistura fervorosa de delicadeza com explosão. Cravou unhas no meu coração,
arrancou-o do peito e o expôs em praça pública, mesmo que ainda não
soubesse gritar meu nome. Coragem me faltou de trazê-la mais para perto,
de preferência dar-lhe colo durante séculos. Lola, Lola, queria poder
embrulhar o mundo em papel lilás, para combinar com a cor das suas roupas,
e entregá-lo ainda ontem! Que urgência em tê-la comigo. Queria poder
fitá-la de perto, sem perder o sabor da sua respiração de encontro a minha
face, rubra. Pensava em como tocaria o seu corpo até que pudesse escutar a
sinfonia dos delírios enquanto beijasse a sua boca. A vermelha boca de
Lola, eu a desejava no peito, despertando arrepios de prazer
desinteressado pelo tempo.
Lola habita em mim e circula no meu sangue. Pensamentos noturnos dedicados
à bebedeira que ela me causa simplesmente ao acenar para o ônibus que a
levará para qualquer canto que desconheço. Passei dias a esperá-la, lobo à
espreita, babando dilemas e sentindo-se acuado somente pelo brilho do
olhar da caça que amansa qualquer coração, demonstrando a comoção das mais
profundas. Ainda ontem, toquei a sua pele com os olhos, reverberei a
intensidade num suspiro que ecoou pelas ruas em busca da sua presença.
Resolvi cair na noite, afastar de mim a tenacidade do sentimento que
cruelmente me abatia. Enfiei-me num daqueles bares onde as mulheres
parecem mais brotar das paredes e os homens têm liberdade perfeita ao
contarem com algumas boas notas no bolso. Encostei-me ao balcão, pedi algo
forte, virei o copo. Uma nota à mostra e a solidão dando trégua. Sentei-me
num canto, um sofá velho, mas que me acomodou modesta, ainda que
confortavelmente. Ao sentir mãos sobre meus ombros, me vem a imagem de
Lola e seus braços hasteados, o sorriso. Vamos? Levantei-me de um salto,
era hora de aproveitar a vida sem o pesar de quem se arrisca a gostar
demais, mas ao fitá-la eis que o mundo desabou (desabrochou?)... A minha
frente ela caminhava, o mesmo andar que há dias atiçava os meus mais
acrobáticos pensamentos. Lola... Seu nome? , perguntei, me chame como
quiser, respondeu. Deitei-me naquela cama forrada com colcha vermelha.
Apesar do grande mito, aquele era um lugar até que limpo em vista de
alguns pelos quais eu já passara. Ela me olhou como quem pergunta o que
vai ser e eu respondi ao seu olhar: apenas deite-se ao meu lado. Então,
cobertas num frio de inverno impiedoso. Acomodei-me nos braços de Lola que
sorria, mas era outro sorriso... Era programado. Eu queria dela o mesmo
frescor que havia naquela que caminhava como quem dança pelas ruas do
bairro. Queria a Lola inteira, ainda que houvesse arestas que eu nunca
pudesse aparar. Será que chove hoje? ; Espero que não... Esqueci algumas
roupas no varal; mas não seria ruim... Haveria música; feito a das folhas
balançando ao vento do outono? ; Talvez... Lola adormecida me ensinava
ainda mais sobre a vida do que a própria realidade em movimento. A
respiração dela; o jeito como se encolhia em busca de um corpo que
amortecesse suas quedas cotidianas. Nem sei quanto tempo passei apenas
observando Lola.
Quando ergueu o braço, procurei a sua mão. Virou-se assustada, mas o olhar
gélido deu lugar à surpresa. Posso chamá-la de Lola? Percebo seu semblante
comover-se de mansinho, como se comovem apenas os de alma incandescente.
Beija-me a face demoradamente e depois me fita com gratidão. Sabe que nos
encontraremos logo mais à noite e, com certeza, ela escolherá seu vestido
mais bonito para me receber. E beberemos vinho até esquecermos que o mundo
é um lugar cruel, mas cheio da cumplicidade com as descobertas e a
felicidade que, mesmo sendo uma espécie de fantasma a assombrar quem a
desconhece, faz de conta que todo o universo é de Lola, assim... Cabendo
nas suas mãos.
O dia
Amanhecer
Cerzindo o sol na malha do céu, azul lençol aninhando corpo em fogo.
Universo de um verso tragicômico, separando as cores e os tempos,
dividindo apartamentos, sombreados e luzentes, preâmbulo da era que
escoará através das horas que passam. E fia-se o destino das flores,
odorífero presente se acomoda no calor do que há de ser, mas por enquanto.
E pacientada tempestade descansa sua ira no instante, atiçando a
fragrância da eternidade, que teima em tirar férias do futuro.
Entardecer
Lacerável sorriso, meio-fio, meio-termo, meio-tom, meio-dia, bala de menta
na boca fechada, a voz guardada no sentimento, ecoando (teimoso) na espera
por daqui a pouco. Miosótis, erva-doce, salgada lágrima engolida no
soluço, e o cíclico medo de jamais ser feliz. Arrepios – de prazer e
incerteza. Sombrosos pormenores e ensimesmados planos. Jazz. Jasmim.
Samba-de-roda. Passível da saudade, afiliado ao desencontro. E um caderno
de anotações no canto, onde se possa alcançar a palavra quando ela faltar.
Anoitecer
Luar ao som de alaúdes, orquestra de fascínios e faltas. Descerram-se
desejos e amabilidades, corteja-se o pretérito dos verbos intransitivos,
engole-se pausas ao desferir o grito. Três-marias. Tresvario e organdi.
Orgástico prelúdio, e a obscenidade de ser grácil ao cobiçar o outro. Tez
acariciada ao som de uma cantilena improvisada, e então a melodia
conduzindo mãos e bocas. Tango. Gerânios. Tambores. E tudo é calado e com
sentido, enquanto planetas saem de órbita.