ABÍLIO PACHECO DE SOUZA

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Memórias de março

Quando amanheço... leito manso e lento
Nesta manhã sob este sol silente
A cidade desperta calmamente
Ao meu olhar atônito e em tormento.
Uma canoa tangida pelo vento
Com as lembranças da última enchente
Em mim desliza e a cidade sente,
À margem, nos degraus, um leve alento.
Mas a tristeza morre neste instante
Quando, no Pontal, o Itacaiúnas
Vem, farto de canoas, desaguar...
E sou, portanto, este olhar brilhante
Cheio de lembranças, de botos, de buiúnas...
Que corre lento assim de encontro ao mar...

Noturno

Há noite em mim! Há noite em ti, Cidade
E nesta noite imensa Solidão
Que desliza pelo meu corpo em vão
Enquanto a tua poesia me invade.
Negra noite em nós, terra tão querida
E enquanto as águas refletem a lua
E meu peito tenro arde nesta rua
Esta noite nos serve de guarida.
E este colar de luzes sobre as águas
Brilha e mergulha nos olhos de mim
E o vento lento tange o tempo e assim
Vai tangendo também as minhas mágoas.
E já não há mais em mim Solidão
Nem tantas trevas na alta madrugada
Que nos enche de luz enluarada
E banha de lirismo esta canção.
Mas o sol vem quebrando a noite agora
E despertam os galos nos quintais
Que lançam acordes a tantos mais
Tangendo de nós dois a noite embora.
Fico aturdido e então olhar-te tento
Com esses olhos ébrios de luzes tuas,
Sigo andando atônito pelas ruas
Na espera de encontrar um novo alento.

Elegia de Maria

Maria deitada na cama
na lida profana da noite
na noite soturna do quarto
olha as horas paradas
e espera o brilho da aurora
e espera o sol de amanhã.
No corpo frágil o sustento
fértil odor de hortelã,
nos beijos, pancadas na cara
gemidos, carícias e dor;
estranhos estames fincados
(vibrante delírio frenético)
grãos de pólen gozados,
nas entranhas - carne em flor.
Depois de tanto sofrer
no martírio noturno,
o vírus maldito da morte
lhe leva a um longo suplício
na solidão do seu quarto,
na solidão da espera.
Maria velha é levada
ao fim dos dias tão cedo.
Não existe mais sonho.
Não existe mais quimera.
Não existe mais fantasia.
Não existe mais ... Maria

Recusa

Mantenha distância, Poema.
Já não te quero mais aqui me perturbando.
Vá! E me faça o favor de levar
estas palavras e estes versos
que insistem em ser escritos,
pois eu não irei escrevê-los.
Que procurem outro poeta se quiserem.

Fim de semana

Na retina de olhos tontos
amigos sorrisos reunidos
galinha assada no forno 
churrasco peixe na grelha
pernil de porco lingüiça
vinagrete farofa azeitona
cerveja campari caninha
montila martini batida 
ou outra bebida qualquer 
dançando de boca em boca